O`governo federal demarcou para os índios
ianomâmis uma reserva com área de 94 mil quilômetros quadrados (o tamanho do estado de
Santa Catarina). Esta reserva é povoada por cerca de cinco mil índios, transformados
assim nos maiores latifundiários do Brasil. Essa vasta reserva é prolongada por outra, em território
venezuelano, as duas, somadas e fundidas em uma só, sem solução de continuidade,
podendo formar um enclave entre os dois países, com foros de estado independente.
Isso, de fato, já está ocorrendo: passou-se a
falar em nação ianomâmi. Já existe, mesmo, um governo ianomâmi "no
exílio", funcionando no território de um país europeu, com um presidente da
República Socialista Ianomâmi, americano, um vice-presidente alemão e um Parlamento de
18 membros, dos quais um único índio.
Essa "República Ianomâmi no exílio"
recebe generoso apoio financeiro e moral, angariado por diversas organizações da vasta
ninhada de ONGs, com o empenho de organizações religiosas também, de estranhas seitas,
pastores de ovelhas negras (ou vermelhas), reverendos ecologistas pregando o catecismo da
internacionalização da Amazônia.
Cabe recordar que, em recente conferência
internacional realizada em Genebra sob os auspícios da ONU, foi debatido um Projeto de
Declaração Universal dos Direitos Indígenas, na qual pretendeu-se inserir o princípio
do direito à autodeterminação dos territórios indígenas - proposta vigorosamente
combatida pelos representantes do Itamaraty. Com efeito, se concedido esse direito à
autodeterminação, nos veríamos no Brasil a braços com um problema de gigantescas
proporções.
É que as 35 maiores reservas indígenas
demarcadas no Brasil somam 410 mil quilômetros quadrados, ou seja, uma extensão total
maior que o estado de São Paulo ou o Rio Grande do Sul ou o Paraná. Tudo isso habitado
por escassos 20 mil índios, o que equivale a dizer que a cada índio correspondem 20
quilômetros quadrados. Em vingando o princípio da autodeterminação dos territórios
indígenas, o Brasil perderia sua soberania sobre essas vastas extensões de território.
A ameaça maior desenha-se do lado dos ianomâmis
e de sua pretensa República Socialista, pois suas terras estendem-se por dois estados
(Roraima e Amazonas) e vão prolongar-se além da fronteira venezuelana, criando um
cômodo corredor para trânsito de mercadorias, pessoas e drogas, sem fiscalização
aduaneira possível em nível adequado.
Felizmente, as Forças Armadas estão alertas e
bem apetrechadas na área. As três Forças estão irmanadas no zelo pela preservação da
soberania nacional na Amazônia. As Brigadas e Batalhões de Selva estão admiravelmente
organizados, comandados e providos de meios para a execução de qualquer missão. Os
navios fluviais da Marinha apóiam os deslocamentos de tropas e patrulham os rios. A FAB
mantém na região 75 helicópteros de apoio à tropa terrestre, e todo um Grupo de
Aviação.
Enquanto isso, os ianomâmis continuam opondo-se a
que a importante estrada estratégica BR-320, parte do Projeto Calha Norte, atravesse as
suas terras - que não são deles, mas do Brasil. Quando for tomada a decisão de levar
avante a construção da estrada, os ianomâmis precisarão, para impedi-la, de uma
pajelança que excede a competência de seus feiticeiros...
Aliás, para a solução pacífica e honrosa deste
impasse, também as Forças Armadas seriam indicadas como negociadores naturais com os
índios. Desde Rondon, o Exército possui larga experiência de contatos pacíficos com
populações indígenas, baseados no respeito mútuo e em autêntica amizade. O presidente
Theodore Roosevelt foi testemunha dessas cordiais relações entre militares e
silvícolas, tão diferentes das sangrentas experiências americanas. A FAB vem, há mais
de meio século, cultivando o convívio com os índios em Cachimbo. E a Marinha é a
providência, não só dos civilizados, mas também das tribos ribeirinhas, às quais leva
em abundância assistência médica excelente. Na hora das negociações, para o
prosseguimento da BR-320, todos fumarão juntos o cachimbo da paz....
M. PIO CORREA é embaixador aposentado.