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RECORDANDO A HISTÓRIA
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"ASSASSINATO DO CAP CHARLES RODNEY CHANDLER"
Em 1968, as ações de guerrilha
urbana perdiam-se no anonimato de seus autores e, muitas vezes, eram, até, confundidas
com as atividades de simples marginais. De acordo com os dirigentes de algumas
organizações militaristas, já havia chegado o momento certo para a população tomar
conhecimento da luta armada revolucionária em curso, o que poderia ser feito através de
uma ação que repercutisse no Brasil e no exterior.
Em setembro, Marco Antônio Braz de
Carvalho, o "Marquito", homem de confiança de Carlos Marighela - que dirigia o
Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP), futura Ação Libertadora Nacional (ALN) -, e
que fazia a ligação com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), levou para Onofre
Pinto ("Augusto"; "Ribeiro"; "Ari"; "Bira";
"Biro"), então coordenador geral da VPR, a possibilidade de realizar uma ação
de "justiçamento".
O Capitão do Exército dos EUA,
Charles Rodney Chandler, com bolsa concedida pela "George Olmsted Foundation",
era aluno da Escola de Sociologia e Política da Fundação Álvares Penteado, com
previsão de terminar o curso em novembro daquele ano. Chandler morava na cidade de São
Paulo, com a esposa, Joan, e seus três filhos, Jeffrey, de 4 anos, Todd, de 3 anos, e
Luanne, de 3 meses. Entretanto, segundo os "guerrilheiros", Chandler era um
"agente da CIA" e "encontrava-se no Brasil com a missão de assessorar a
ditadura militar na repressão".
No início de outubro, um
"tribunal revolucionário", integrado por três dirigentes da VPR, Onofre Pinto,
como presidente, e João Carlos Kfouri Quartim de Morais ("Manoel";
"Mané"; "Maneco") e Ladislas Dowbor ("Jamil";
"Nelson"; "Abelardo"), como membros, condenou o Capitão Chandler à
morte.
Através de levantamentos
realizados por Dulce de Souza Maia ("Judit"), apurou-se, sobre a futura vítima,
seus horários habituais de entrada e saída de casa, costumes, roupas que costumava usar,
aspectos de sua personalidade e dados sobre os familiares e sobre o local em que residia,
numa casa da Rua Petrópolis, nº 375, no tranqüilo e bucólico bairro do Sumaré, em
São Paulo.
Escolhido o "grupo de
execução", integrado por Pedro Lobo de Oliveira ("Getúlio";
"Gegê"), Diógenes José Carvalho de Oliveira ("Luiz";
"Leandro"; "Leonardo"; "Pedro") e Marco Antônio Braz de
Carvalho, nada mais é convincente, para demonstrar a frieza do assassinato, do que
transcrever-se trechos do depoimento do próprio Pedro Lobo de Oliveira, um dos
criminosos, publicado no livro "A Esquerda Armada no Brasil", de A. Caso:
"Como já relatei, o grupo executor ficou integrado por três companheiros: um deles
levaria uma pistola-metralhadora INA, com três carregadores de trinta balas cada um; o
outro, um revólver; e eu, que seria o motorista, uma granada e outro revólver. Além
disso, no carro estaria também uma carabina M-2, a ser utilizada se fôssemos perseguidos
pela força repressiva do regime. Consideramos desnecessária cobertura armada para aquela
ação. Tratava-se de uma ação simples. Três combatentes revolucionários decididos
são suficientes para realizar uma ação de justiçamento nessas condições.
Considerando o nível em que se encontrava a repressão, naquela altura, entendemos que
não era necessária a cobertura armada."
A data escolhida para o crime foi a
de 08 de outubro, que assinalava o primeiro aniversário da morte de Guevara. Entretanto,
nesse dia, Chandler não saiu de casa e os três terroristas decidiram "suspender a
ação".
Quatro dias depois, em 12 de
outubro de 1968, chegaram ao local às 7 horas. Às 0815h, Chandler dirigiu-se para a
garagem e retirou o seu carro, um Impala placa 481284, em marcha a ré. Enquanto seu filho
de 4 anos abria o portão, sua esposa aguardava na porta da casa, para dar-lhe o adeus.
Não sabia que seria o último.
Os terroristas avançaram com o
Volks, roubado dias antes, e bloquearam o caminho do carro de Chandler. No relato de Pedro
Lobo, "nesse instante, um dos meus companheiros saltou do Volks, revólver na mão, e
disparou contra Chandler". Era Diógenes José Carvalho de Oliveira, que
descarregava, à queima roupa, os seis tiros de seu Taurus de calibre .38.
E prossegue Pedro Lobo, que dirigia
o Volks:
"Quando o primeiro companheiro deixou de disparar, o outro aproximou-se com a
metralhadora INA e desferiu uma rajada. Foram catorze tiros. A décima quinta bala não
deflagrou e o mecanismo automático da metralhadora deixou de funcionar. Não havia
necessidade de continuar disparando. Chandler já estava morto. Quando recebeu a rajada de
metralhadora emitiu uma espécie de ronco, um estertor, e então demo-nos conta de que
estava morto".
Quem portava a metralhadora era
Marco Antônio Braz de Carvalho.
A esposa e o filho de Chandler
gritaram. Diógenes apontou o revólver para o menino que, apavorado, fugiu correndo para
a casa da vizinha.
Os três terroristas fugiram no
Volks, em desabalada carreira, deixando, no local do crime, cinco panfletos:
- "Justiça revolucionária executa o criminoso de guerra no Vietname, Chandler, e
adverte a todos os seus seguidores que, mais dia menos dia, ajustarão suas contas com o
Tribunal Revolucionário."
- "O assassinato do Comandante Chê Guevara, na Bolívia, foi cometido por ordem e
orientação de criminosos de guerra como este Chandler, agente imperialista notório, e
responsável pela prática de inúmeros crimes de guerra contra o povo do Vietname."
- "O único caminho para a revolução no Brasil é a luta armada."
- "A luta armada é o caminho de todo revolucionário no Brasil."
- "Criar um, dois, três, vários Vietnames."
Semelhantes a esse cruel
assassinato, muitos outros atos ainda viriam a tingir de sangue o movimento comunista no
Brasil.
F. DUMONT
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Cap. Chandler quando retirava seu veículo
da garagem. |
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Cap. Chandler covardemente assassinado.
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Cap. Chandler com o corpo perfurado por
rajadas de metralhadora. |
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F. Dumont
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