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Para a 1ª Conferência Tricontinental de Havana, realizada em janeiro
de 1966, Brizola, aspirando ser reconhecido como o grande líder
da revolução brasileira, enviou um seu representante, Aluísio Palhano
Pedreira Ferreira ("Aquiles", "Aurelio", "Joaquim"), ex-vice-presidente
da extinta Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT).
Rompido com o grupo militar do MRMN e pressionado, de um lado, por
Havana - para justificar os recursos financeiros que vinha recebendo
- e, por outro, pelos seus seguidores - descontentes com a falta
de um plano concreto para o retorno - Brizola criou, em 1966, o
Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).
Foi a primeira organização expressiva surgida após a revolução democrática
de 31 de março de 1964. Apesar de algumas afinidades ideológicas
e o mesmo sentimento de aversão ao governo revolucionário brasileiro,
o MNR surgiu fora do quadro de luta interna das quatro grandes organizações
comunistas então existentes (PCB, PCdoB, POLOP e AP).
Inspirados em Brizola, reuniram-se, para formar o MNR, militares
cassados, dentre os quais muitos simpatizantes comunistas - oficiais
e praças, políticos esquerdistas (filiados ou não a organizações
comunistas) e alguns civis cassados. Todos, entretanto, estavam
desiludidos com as opções tradicionais da esquerda brasileira, influenciados
pela revolução cubana e inconformados com a humilhante derrota que
as forças democráticas lhes impuseram.
Com a idéia de implantar a guerra de guerrilhas no campo com o apoio
de um movimento urbano, o MNR articulou-se, basicamente, em dois
núcleos: o primeiro, sediado em Montevidéu, que manipulava a organização,
e o segundo, no Rio de Janeiro, onde se situaria o Comando Nacional.
Havia, ainda, ligações em São Paulo, em Minas Gerais e no Rio Grande
do Sul.
De Montevidéu, Brizola chefiava as articulações, em companhia do
seu assessor militar, o ex-Coronel do Exército Dagoberto Rodrigues,
além de outros como Almino Afonso, Paulo Schilling, Almir Olimpio
de Melo ("Paulo Melo"), José Guimarães Neiva Moreira e Moysés Kupperman.
No Rio de Janeiro, a direção era de Bayard Demaria Boiteaux, assessorado
por Amadeu de Almeida Rocha, no campo político, e pelo ex-Capitão
Juarez Alberto de Souza Moreira, no campo militar.
Havia, ainda, no Rio de Janeiro, um "colegiado de intelectuais"
do qual faziam parte, dentre outros, Amadeu Thiago de Mello, Antonio
Carlos Callado, Gabriel Obino, Otto Maria Carpeaux, Ana Araújo de
Arruda Albuquerque e Maria Ignez da Costa Duque Estrada Bastos.
Em São Paulo, o dirigente era Alonso, com codinome "Sergio".
O jornalista Flávio Aristides de Freitas Tavares ("Felix", "Feliciano",
"Dr Falcão") funcionava como pombo-correio entre o Brasil e o Uruguai.
Para a formação dos guerrilheiros, Brizola obteve o apoio de Cuba.
O treinamento iniciava-se em Pando, no Uruguai, numa estância de
propriedade de Izidoro Gutierrez, ex-vereador de Uruguaiana, ligado
a Brizola. Os elementos selecionados eram enviados a Paris, via
aérea, onde eram recebidos por Max da Costa Santos, que "legalizava"
seus documentos. Daí, seguiam para Praga, onde um funcionário cubano
os embarcava em aviões cubanos, em direção a Havana, via Islândia
e Canadá.
Diversos ex-militares foram treinados em guerrilhas, durante cerca
de três meses, na região de Pinar del Rio, em Cuba. Para o retorno,
era utilizado o mesmo itinerário, em sentido inverso. De Montevidéu,
já com documentos falsos, ingressavam no Brasil por ônibus, um a
um, por infiltração.
A idéia inicial do "estrategista" Brizola era instalar três focos
de guerrilhas. O primeiro seria no norte do Rio Grande do Sul, liderado
pelo ex-Sargento Amadeu Felipe da Luz Ferreira. O segundo, no Brasil
Central, sob a responsabilidade de Flávio Tavares. O terceiro foco
localizar-se-ia em Mato Grosso, sob a orientação de Dagoberto Rodrigues.
A morte do ex-Sargento Manoel Raimundo Soares, participante do primeiro
grupo, provocou a transferência do foco guerrilheiro para a região
de Caparaó, na Serra do Mar, nos limites entre os Estados de Minas
Gerais e Espírito Santo, escolhida pela sua proximidade aos centros
políticos e econômicos do País, o que poderia motivar e insuflar
o movimento das massas urbanas.
Iniciada a infiltração dos "guerrilheiros" do MNR em novembro do
ano anterior, os primeiros meses de 1967 constituíram-se num período
de difícil sobrevivência. Obrigada a freqüentes mudanças de acampamentos,
por questões de segurança, acossada pelo frio e precariamente apoiada
por uma rede logística deficiente, a "Frente de Caparaó" veio a
tornar-se no último fiasco - nunca assumido - de Brizola.
Após sobreviver com dificuldades, o grupo de menos de duas dezenas
de homens que se encontrava na serra, orbitando em torno do Pico
da Bandeira, veio a ser denunciado, ironicamente, pelos próprios
habitantes locais, quando começou a roubar e a abater animais para
não morrer de fome.
Em março, a Polícia Militar do Estado de Minas Gerais começou o
cerco aos "guerrilheiros", assumindo a 4ª Região Militar, em seguida,
o controle das operações.
No início de abril, já estavam todos presos, desde o "comandante"
Amadeu Felipe da Luz Ferreira, passando pelo assessor militar Juarez
Alberto de Souza Moreira, pelo assessor político Amadeu de Almeida
Rocha, pela rede de apoio constituída de Hermes Machado Neto, Deodato
Batista Fabrício, Itamar Gomes e Gregório Mendonça, até a "força
de guerrilha" integrada por Araken Vaz Galvão, Avelino Bioni Capitani,
Amarantho Jorge Rodrigues Moreira, Edval Augusto de Melo, Josué
Cerejo Gonçalves, Gelcy Rodrigues Correia, Milton Soares de Castro,
Jorge José da Silva e João Gerônimo da Silva. Outros quatro "guerrilheiros",
José Carlos Bertoncelos, Dario Viana Reis, Alfredo Nery Paiva e
Pedro Espinosa, seriam presos, mais tarde, no Rio Grande do Sul.
Enquanto isso, o jornalista Flávio Tavares que, pelo "esquema geral"
de Brizola, estava encarregado de organizar as guerrilhas no Brasil
Central, havia sido procurado em Brasília, em dezembro de 1966,
por Jarbas Silva Marques, ex-militante do PC do B.
Jarbas dissera-lhe que havia um grupo em Uberlândia, no Triângulo
Mineiro, que havia saído do PC do B, após a sua VI Conferência de
junho de 1966, e que desejava realizar ações de sabotagem, de guerrilha
e de terrorismo. Dirigido pelo dentista Guaracy Raniero, que havia
comparecido à Conferência, o grupo, com cerca de vinte elementos,
estava isolado e buscava novos caminhos para atuar.
Flávio Tavares percebeu que poderia apresentar a Brizola um "grupo
guerrilheiro" praticamente já constituído e desimcumbir-se, quase
sem esforço, da missão que recebera. Foi ao Uruguai e, recebendo
o "aprovo" de Brizola, retornou a Brasília, contatou com Jarbas
da Silva Marques e, ambos, dirigiram-se a Uberlândia, na primeira
quinzena de fevereiro de 1967.
Apresentado como o "Dr Falcão", Flávio Tavares reuniu-se com o grupo
de Uberlândia no consultório de Guaracy Ribeiro, onde compareceram,
além dos três citados, Taylor Silva, Carlos Maluf Wutke e Edmo de
Souza.
Na ocasião, concretizou-se a vinculação do grupo de Uberlândia ao
MNR de Brizola. Planejaram a obtenção de armas, assaltos a quartéis
e o roubo de um carro pagador do DNER, a fim de conseguir recursos
financeiros.
Em abril de 1967, Flávio Tavares recebeu, em Brasília, um "instrutor
militar" enviado por Brizola, de nome José Carlos Vidal ("Carlos
Mario", "Juca"), e encaminhou-o a Uberlândia, para ministrar instruções
de sabotagem e de guerrilha. Desentendendo-se com o grupo, considerado
de baixo nível político e ideológico, o "instrutor militar", depois
de 10 dias, retornou a São Paulo.
Em fins de julho de 1967, o grupo foi desarticulado, com a prisão
da maioria de seus componentes.
Dos dois núcleos - um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo - estruturados
pelo MNR para apoiar o "esquema geral" de Brizola, o do Rio foi
duramente atingido. Bayard Demaria Boiteaux, preso, processado e
condenado junto com outros "intelectuais de esquerda", assumiu toda
a responsabilidade pelo comando do movimento no País.
Tendo Caparaó como o esforço principal, o MNR não conseguiu implantar
os focos guerrilheiros de Mato Grosso e do Brasil Central.
Após o fracasso de Caparaó e a conscientização de Brizola de que
não conseguiria criar ou apanhar a "onda" insurrecional em cuja
crista pensava retornar ao Brasil, o MNR desmoronou e desarticulou-se.
Mesmo assim, conseguiu enviar dois representantes - Aluisio Palhano
e José Anselmo dos Santos, o "Cabo Anselmo" - na I Conferência de
Solidariedade dos Povos da América Latina (I COSPAL), da Oraganização
Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), realizada entre 31 de
julho e 10 de agosto de 1967, em Havana.
Mais tarde, com a liberação pela Justiça Militar de alguns representantes
da "Frente de Caparaó", seria criada, em 1969, a nova Resistência
Armada Nacionalista (RAN).
O núcleo de São Paulo, integrado por ex-militares como Darcy Rodrigues,
Onofre Pinto, José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, Pedro Lobo de
Oliveira e outros, ligar-se-ia a dissidentes da POLOP e criaria,
em 1968, a VPR.
Dos remanescentes do grupo do Triângulo Mineiro, Guaracy Raniero
iria ao Uruguai, buscar contato com Brizola, enquanto que Jarbas
Silva Marques integrar-se-ia, em 1969, ao Movimento de Ação Revolucionária
(MAR).
Flávio Tavares, apesar do envolvimento na preparação do grupo guerrilheiro,
ficou preso, apenas, por quatro meses.
F. Dumont
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