Recordando a História

    OS INCRÍVEIS EXÉRCITOS DE BRIZOLEONE

                                               CAP V

O MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA MILITAR NACIONALISTA (MRMN) E A RESISTÊNCIA ARMADA NACIONALISTA (RAN)

    Nos primeiros meses de 1966, a 1ª Conferência Tricontinental de Havana e a criação da Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), em janeiro, agitaram os três grupos de exilados brasileiros no Uruguai, já conscientes do fracasso da Frente Popular de Libertação (FPL) e das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN) (ver capítulos III e IV).

    Em março, esses grupos realizaram diversas reuniões, com a finalidade de formarem uma frente única.

    Entretanto, enquanto que o grupo de Brizola acreditava que dentro do Brasil iria, em curto prazo, aflorar um movimento contra o governo, o grupo militar não concordava com essa posição e afirmava que a revolução armada era a única forma de tomada do poder.

    Este grupo preconizava a criação de uma estrutura clandestina, conduzida por uma liderança conhecida e atuando no Brasil. Para eles, a presença física de Brizola era a condição indispensável para o sucesso do movimento.

    Essa posição constituiu-se no ponto de ruptura entre os dois grupos. A convicção revolucionária de Brizola não era tão grande a ponto de levá-lo a se expor fisicamente. Bem mais tranqüila era a sua "entusiasmada" participação na revolução brasileira tramada à sombra do asilo político no Uruguai.

    Por outro lado, os ex-militares relutavam em aceitar a liderança de Brizola, em conseqüência dos repetidos fracassos de suas anteriores tentativas, qualificadas como aventuras irresponsáveis.

    Em 20 de maio de 1966, realizou-se uma reunião do grupo militar na residência do ex-almirante Cândido de Assis Aragão, em Montevidéu, a fim de ser constituída uma organização que pudesse atuar clandestinamente no Brasil, o Movimento de Resistência Militar Nacionalista (MRMN).

    Nessa reunião, ficou estabelecido que o MRMN desencadearia, inicialmente, uma série de atos terroristas contra alvos ligados aos interesses norte-americanos no Brasil. Numa fase seguinte, partiria para a eliminação física dos membros do "Peace Corps" e de outros norte-americanos, tachados de "agentes da CIA e do imperialismo". O MRMN apostava que os atos terroristas provocariam uma repressão violenta que, por sua vez, conduziria ao clima visado pela organização, denominado de "auto-defesa das massas". O movimento, a partir daí, ganhando mais adeptos, desaguaria na revolução armada, a partir de um movimento de guerrilhas bem constituído.

    Da reunião de fundação do MRMN, participaram, dentre outros: o ex-almirante Cândido Aragão, o ex-general Henrique Cordeiro Oest, o ex-capitão da Aeronáutica Alfredo Ribeiro Daudt, o ex-coronel da Aeronáutica Emanoel Nicoll, Jaime de Araujo, Jacy Pereira Lima e o ex-Sargento da Aeronáutica Álvaro Moreira de Oliveira Filho.

    Inicialmente, a chefia do MRMN coube ao ex-almirante Aragão. Posteriormente, por problemas de saúde, Aragão entregou o comando a Alfredo Ribeiro Daudt e a Emanoel Nicoll. Integrariam, o MRMN, os ex-militares exilados no Uruguai e em outros países, ex-militares cassados no Brasil e, clandestinamente, alguns militares ainda em serviço ativo, recrutados pelo aproveitamento do mote "nacionalismo", pensamento sempre presente na maioria dos militares. Para este fim, as bases do movimento seriam levadas ao Rio Grande do Sul, com a idéia de recrutar militares e civis, que participariam da organização formando "núcleos de resistência" em várias cidades do Brasil.

    Em 26 de maio de 1966, o MRMN deu publicidade ao manifesto "Ao Povo Brasileiro", no qual transmitiu uma imagem hegemônica e imperialista do Brasil na América do Sul.

    No início de junho, os "militares" do MRMN tentaram uma aproximação com o grupo sindical dos exilados. Os "militares" foram representados por Alfredo Ribeiro Daudt, Emanoel Nicoll e Jacy Pereira Lima, e os "sindicalistas" por Osvaldo Pacheco, Osmildo Stafford da Silva, Luiz Cláudio Braga Duarte e Dante Pelacani.

    A tentativa não teve êxito. Os sindicalistas acreditavam que a atividade dos ex-militares prejudicava o trabalho que Dante Pelacani estava realizando em São Paulo, em ligação com Benedito Cerqueira e com a Federação Sindical Mundial.

    Naquele mesmo dia de junho de 1966, o MRMN entrou em contato com o Comitê de Apoio a Cuba, a fim de obter o seu reconhecimento político.

    Em 15 de junho, o ex-presidente João Goulart organizou, em sua residência, uma reunião com o MRMN, representado por Aragão, Daudt e Nicoll, da qual também participaram Darcy Ribeiro e Amaury Silva. Jango prometeu auxílio financeiro ao movimento e, tentando ficar acima dos grupos, criou um Comitê para coordená-los, integrado por Emanoel Nicoll, representando o grupo militar, por Dante Pelacani, o sindical, por Neiva Moreira, os brizolistas, e Darcy Ribeiro, representando o próprio Jango.

    A movimentação do MRMN obrigou Brizola, que temia perder a sua condição de líder, a aceitar um novo contato com os ex-militares, no início de julho. E, novamente, o impasse causado pela idéia do MRMN de exigir a presença física de Brizola no Brasil provocou outro rompimento.

    Paralelamente à atuação dos diversos grupos de exilados, uma outra organização destacava-se na época, a Associação dos Exilados Brasileiros no Uruguai (AEBU), que tinha o objetivo declarado de, indistintamente, prestar assistência aos refugiados brasileiros. Orientada pelas liderança de Jango e de Brizola, a AEBU obtinha recursos através da contribuição de alguns exilados e de colaboradores no Brasil, dentre os quais Doutel de Andrade.

    O rompimento de Brizola refletiu-se na AEBU. Em 09 de julho de 1966, nas eleições para a sua nova diretoria, os elementos ligados a Brizola foram alijados. A nova direção ficou constituída por Cândido Aragão, na presidência, Alfredo Ribeiro Daudt, na 1ª secretaria, Álvaro Moreira Filho, na 2ª secretaria, Humberto Menezes Pinheiro como 1º tesoureiro, Arnaldo Magno de Araújo como 2º tesoureiro e Cesar Augusto Chefitelli como diretor de assistência social.

    Debatendo-se em busca de reconhecimento político e de apoio financeiro, o MRMN saiu do imobilismo realizando, em 21 de outubro de 1966, um atentado à bomba contra o monumento do Barão do Rio Branco, em Montevidéu, executado por Gualter de Castro Mello, Tito Guimarães Filho e Arnaldo Magno de Araújo.

    Em dezembro de 1966, a direção do MRMN decidiu mudar o nome da organização para Resistência Armada Nacionalista (RAN), que utilizava, como símbolo, uma rã. Com o objetivo de angariar o apoio financeiro do Partido Comunista Uruguaio (PCU) e da OLAS, a RAN pretendia lançar um manifesto assinado por Aragão nas principais capitais brasileiras e pichar muros para popularizar a nova sigla. Ficou prevista a ida de Aragão, Daudt e Arnaldo Magno de Araújo a Cuba, a fim de conseguir recursos para enviar seus militantes para realizar cursos de guerrilha em Cuba e na Coréia do Norte.

    A nova RAN lutava para afirmar-se e ser reconhecida.

  F. Dumont

     
                             TERRORISMO NUNCA MAIS.

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