Em outubro de 1963, Leonel de Moura Brizola, então
Governador do Rio Grande do Sul, considerava que o Brasil estava vivendo momentos
decisivos e que, rapidamente, se aproximava o desfecho que poderia colocar o País numa
nova linha política. Nesse momento, raciocinava o caudilho gaúcho, ele queria estar na
crista da onda esquerdista que varreria o País.
Sucessivamente, em 19 e 25 de outubro, Brizola fez
inflamados pronunciamentos à Nação, através dos microfones de uma cadeia de estações
de rádio liderada pela Mairink Veiga, que detinha, na época, o maior percentual de
ouvintes das classes média e baixa. Nesses pronunciamentos, eivados, como sempre, de
metáforas e redundâncias, conclamou o povo a organizar-se em grupos que, unidos, iriam
formar o "Exército Popular de Libertação" (EPL). Com sua habitual e singular
loquacidade, comparou esses grupos com equipes de futebol e os 11 "jogadores"
seriam os "tijolos" para "construir o nosso edifício".
Estavam lançados os "Grupos dos Onze"
(G-11) que, para Brizola, constituir-se-iam nos núcleos de seu futuro exército
particular, o EPL.
Os documentos posteriormente encontrados em seus
arquivos pessoais revelaram os planos para a formação dos G-11 e do EPL, escritos numa
linguagem incisiva mas primária, dramática mas demagógica.
O documento mais hilariante, se não fosse macabro,
era o das "Instruções Secretas", assinadas por um "Comando Supremo de
Libertação Nacional". Ele iniciava-se por um "Preâmbulo Ultra-Secreto",
no qual a morte incidiria sobre aqueles que revelassem os segredos dos G-11:
"Após tomar conhecimento, só a morte libertará o responsável
pelo compromisso de honra assumido com o Comando Supremo de Libertação Nacional ... 0
compromisso de resguardo deverá ser um tanto solene, para impressionar o companheiro,
devendo, antes, verificar as idéias desse Soldado dos G-11, a fim de que seja
selecionado, ao máximo, os autênticos e verdadeiros revolucionários, os destemerosos da
própria morte..."
Os G-11 seriam a "vanguarda avançada do
Movimento Revolucionário", a exemplo da "Guarda Vermelha da Revolução
Socialista de 1917 na União Soviética".
Defendendo a tese de que "os fins justificam os
meios", fazia veladas ameaças sobre futuros atos dos G-11:
"Em conseqüência, não nos poderemos deter na procura de
justificativas acadêmicas para atos que possam vir a ser considerados, pela reação e
pelos companheiros sentimentalistas, agressivos demais ou, até mesmo,
injustificados".
Os integrantes dos G-11 deveriam considerar-se em
"Revolução Permanente e Ostensiva" e seus ensinamentos deveriam ser colhidos
nas "Revoluções Populares", nas "Frentes de Libertação Nacional" e
no "folheto cubano" sobre a técnica de guerrilha (nessa época, os
"folhetos cubanos" sobre a técnica de guerrilhas eram disseminados, no País,
pelos denominados Movimentos de Educação Popular).
Admitiam, essas "Instruções Secretas",
que a época era propícia à atuação dos G-11:
"Devemos nos lembrar que, hoje, temos tudo a nosso favor,
inclusive, o beneplácito do Governo e a complacência de poderosos setores civis e
militares, acovardados e temerosos de perder seus atuais e ignominiosos
privilégios".
Instruíam os G-11 sobre a aquisição de armas,
recomendando "não se esquecer dos preciosos coquetéis molotov e outros tipos de
bombas incendiárias".
Alertavam, também, que:
"A escassez inicial de armas poderosas e verdadeiramente militares
será suprida pelos aliados militares que possuímos em todas as Forças Armadas..."
As "Instruções Secretas" estabeleciam o
esquema para o início do movimento insurrecional:
"... os camponeses, dirigidos por nossos companheiros, virão
destruindo e queimando as plantações, engenhos, celeiros, depósitos de cereais e
armazéns gerais... A agitação será nossa aliada primordial e deveremos iniciá-la nos
veículos coletivos, à hora de maior movimento, nas ruas e avenidas de aglomeração de
pedestres, próximo às casas de armas e munições e nos bairros eminentemente populares
e operários. Desses pontos e à sombra da massa humana, deverão convergir os G-11
especializados em destruição e assaltos, já comandando os companheiros e com outros se
ajuntando pelas ruas e avenidas, para o centro da cidade, vila ou distrito, de acordo com
a importância da localidade, depredando os estabelecimentos comerciais e industriais,
saqueando e incendiando, com os molotovs e outros materiais inflamáveis, os edifícios
públicos e os de empresas particulares. Ataques simultâneos serão desfechados contra as
centrais telefônicas, rádio-emissoras e, onde houver, de TV, casas de armas, pequenos
Quartéis Militares ..."
Ciente de que a revolução vinha sendo conduzida
pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), através da chamada "via pacífica",
Brizola reservou um item de suas "Instruções Secretas" para tratar do
"Aliado Comunista":
"Devemos, ..., ter sempre presente que o comunista é nosso
principal aliado mas, embora alardeie o Partido Comunista ter forças para fazer a
Revolução Libertadora, o PCB nada mais é que um Movimento dividido em várias frentes
internas em luta aberta entre si pelo poder absoluto e pela vitória de uma das facções
em que se fragmentou".
E prosseguiam, as Instruções, nos seus ataques ao
PCB:
"São fracos e aburguesados esses camaradas chefiados pelos que
vêem, em Moscou, o único Sol que poderá guiar o proletariado mundial à libertação
Internacional".
Ao mesmo tempo, Brizola apontava o radical Partido
Comunista do Brasil (PCdoB) como um possível aliado:
"Existe uma ala mais poderosa que, dia a dia, está se elevando no
conceito do proletariado marxista, seguidora dos ideais de Mao Tse Tung, de Stalin, e que
são, em última análise, os de Marx e Engels. É nessa ala, hoje muito mais poderosa que
a de Moscou, que iremos buscar a fonte de potencialidade material e militar para a luta de
Libertação Nacional".
Mas, o tragicômico das "Instruções
Secretas" aparecia, com espantosa nitidez, no item sobre a "Guarda e Julgamento
dos Prisioneiros":
"Para essa tarefa de suma importância, deverão ser escolhidos
companheiros de condição humilde mas, entretanto, de férreas e arraigadas condições
de ódio aos poderosos e aos ricos, a fim de que não discutam ordens severas que poderão
ser conhecidas no momento da luta de Libertação. Estes grupos dos Onze companheiros
terão, como finalidade primordial, deter, em todo o seu raio de ação, municípios,
vilas, distritos e povoados, todas as autoridades públicas, tais como Juízes de Direito,
Prefeitos, Delegados de Polícia, Vereadores, Presidente da Câmara, Políticos influentes
e outras personalidades que por acaso estejam dentro de sua esfera de atribuição e
limites de ação, recolhendo-os a locais apropriados, preferentemente no meio do mato,
sob guarda armada e permanente. No caso de derrota do nosso Movimento, o que é
improvável, mas não impossível, dado a certas características da situação nacional,
e temos que ser verdadeiros em todos os nossos contatos com os Comandos Regionais e esta
é uma informação para uso somente de alguns companheiros de absoluta e máxima
confiança, os reféns deverão ser sumária e imediatamente fuzilados, a fim de
que não denunciem seus aprisionadores e não lutem, posteriormente, para sua condenação
e destruição".
No início de 1964, Brizola lançou seu próprio
semanário, "O Panfleto", que veio se integrar à campanha agitativa já
desenvolvida pela cadeia da Rádio Mairink Veiga.
Em seus sonhos quixotescos, distribuiu diversos
outros documentos para a organização dos G-11, tais como as "Precauções", os
"Deveres dos Membros", os "Deveres dos Dirigentes", um "Código
de Segurança" e fichas de inscrição para seus integrantes.
Chegou a organizar 5.304 grupos, num total de 58.344
pessoas, distribuídas, particularmente, pelos Estados do Rio Grande do Sul, Guanabara,
Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.
Para Brizola, a revolução estava madura, pronta
para ser desencadeada.
Havia um líder, ele mesmo.
Havia as idéias, seus próprios sonhos de poder.
Só faltava algum simples episódio que inflamasse o
povo e que fizesse proliferar os Grupos dos Onze, provocando o surgimento de seu
"Exército Popular de Libertação", na verdade, um pequeno-louco exército de
Brizoleone.
F. Dumont
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