Li sua argumentação justificando o aumento do salário dos
parlamentares. Nela, o Sr. alega que o aumento não trará ônus para o
Erário, já que será coberto por economias oriundas de práticas
administrativas no Congresso. Ora, Sr. deputado, o cerne da questão
não está aí. A questão tem um fundo profundamente ético e moral. O
Sr. não está na Inglaterra ou na Finlândia, onde tal tema teria
outro enfoque. O Sr. é parlamentar do Brasil, de um país eivado de
desequilíbrio social e econômico. Os parlamentos, no mundo, são
tidos como local onde deveriam borbulhar valores exemplares para a
população. Entretanto, aqui, na figura da sua pessoa, na sua conduta
e na dos seus pares, essa premissa é violentamente distorcida. O
exemplo que o Sr. e seus pares passam para a população que
representam, é o pior possível. Minha leitura, com essa medida, é
que são um grupo egoísta, abusado, mesquinho, insensível e,
desculpe-me a dureza da franqueza, cínico. Esse último rótulo lhe é
dado pelo Sr. mesmo e seus pares, principalmente pelo Sr., ao
desviar o cerne do assunto para uma simples questão de "economizar"
para gastar, quando, na verdade trata-se de correção de conduta.
Além disso, parece que o Sr. e seus pares não sabem que esse aumento
trará ao nosso combalido país uma gastança sem igual quando
colocarmos no trem que o Sr. encabeça os funcionários do Congresso,
os deputados estaduais e vereadores, cujos salários, o Sr. deveria
saber muito bem, são balizados pela Casa federal. De onde virá o
recurso para bancar o gasto que será derivado?
Certa vez li que os parlamentares brasileiros são gente que não
gosta de trabalhar (têm expediente normal, mas faltam, sem
restrições); ganham mais do que merecem (o total do que apuram por
mês é de cerca de $100.000, sem o aumento recente); e se aproveitam
da posição para beneficiar a si próprio e a seus amigos e familiares
(é só ler os jornais). Apesar de ser idealista ao pensar no
Congresso como uma necessidade e tentar rejeitar essa pecha que a
população lhes impõe, fico numa situação vazia de argumento para
defendê-los quando procedem dessa maneira, irresponsáveis. Seu
comportamento cala qualquer idealista democrata.
Os parlamentares brasileiros são privilegiados, nessa questão, em
três aspectos, ao examinarmos o contexto da sociedade brasileira.
Primeiro, a cidade onde se concentram é Brasília, uma cidade de
funcionários públicos e de estatais, diretamente beneficiados por
essa lamentável medida; ela é fora do principal circuito
sócio-cultural-econômico do país, que é a região Sul-Sudeste; por
mais que a raiva dos contribuintes, aqui em São Paulo, esteja em
cada mesa de bar da cidade, em cada ponto de ônibus, em cada vagão
de metrô, em cada padaria, etc, jamais ocorrerá uma caravana de
ônibus com contrariados, panelas na mão, em direção à Praça dos 3
Poderes para protestar como os Srs. merecem; ademais, não temos
tempo para isso, pois, diferentemente dos parlamentares, não podemos
faltar ao nosso trabalho, sob pena de punição, temos de trabalhar
para conseguir o nosso sustento. Em segundo lugar vem a nossa índole
bonachona, pacata, pouco irascível, que nos faz distintos dos
argentinos e franceses, que reagem violentamente contra seus
políticos abusados: somos complacentes. Em terceiro, o Sr. é
parlamentar de um país de maioria de ignorantes, de analfabetos
funcionais, gente que lê, mas não entende, apolitizada, que não lê
jornal ou revista com colunistas críticos, formadores letrados de
opinião. Essa gente, deputado, se vê pária dessa situação que o
privilegia; pensa que os Srs. podem tudo e se conforma.
Finalmente, fiquei espantado com a coragem que os Srs. tiveram de
se concederem esse aumento, em face do péssimo currículo que o
Congresso nos apresentou com essa legislatura, "a pior da História",
nas palavras de um seu colega. O grupo que o Sr. lidera nos
apresentou dezenas de nomes de gente da pior espécie, do baixo-clero
ao ex-presidente da Câmara, passando pela Mesa, gente corrupta, "sub-júdice",
protegida pelo corporativismo que impera na Casa. Infelizmente, não
podemos dizer que estamos diante de uma instituição íntegra, com
honestidade de propósitos, cheia de moral, de "ilibada reputação".
Os Srs. mesmos atraem esse julgamento negativo.
Grato pela sua atenção.
Zander Nogueira Martins