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17/12/06
Caro Sr. deputado (Aldo Rebelo):

Li sua argumentação justificando o aumento do salário dos parlamentares. Nela, o Sr. alega que o aumento não trará ônus para o Erário, já que será coberto por economias oriundas de práticas administrativas no Congresso. Ora, Sr. deputado, o cerne da questão não está aí. A questão tem um fundo profundamente ético e moral. O Sr. não está na Inglaterra ou na Finlândia, onde tal tema teria outro enfoque. O Sr. é parlamentar do Brasil, de um país eivado de desequilíbrio social e econômico. Os parlamentos, no mundo, são tidos como local onde deveriam borbulhar valores exemplares para a população. Entretanto, aqui, na figura da sua pessoa, na sua conduta e na dos seus pares, essa premissa é violentamente distorcida. O exemplo que o Sr. e seus pares passam para a população que representam, é o pior possível. Minha leitura, com essa medida, é que são um grupo egoísta, abusado, mesquinho, insensível e, desculpe-me a dureza da franqueza, cínico. Esse último rótulo lhe é dado pelo Sr. mesmo e seus pares, principalmente pelo Sr., ao desviar o cerne do assunto para uma simples questão de "economizar" para gastar, quando, na verdade trata-se de correção de conduta. Além disso, parece que o Sr. e seus pares não sabem que esse aumento trará ao nosso combalido país uma gastança sem igual quando colocarmos no trem que o Sr. encabeça os funcionários do Congresso, os deputados estaduais e vereadores, cujos salários, o Sr. deveria saber muito bem, são balizados pela Casa federal. De onde virá o recurso para bancar o gasto que será derivado?

Certa vez li que os parlamentares brasileiros são gente que não gosta de trabalhar (têm expediente normal, mas faltam, sem restrições); ganham mais do que merecem (o total do que apuram por mês é de cerca de $100.000, sem o aumento recente); e se aproveitam da posição para beneficiar a si próprio e a seus amigos e familiares (é só ler os jornais). Apesar de ser idealista ao pensar no Congresso como uma necessidade e tentar rejeitar essa pecha que a população lhes impõe, fico numa situação vazia de argumento para defendê-los quando procedem dessa maneira, irresponsáveis. Seu comportamento cala qualquer idealista democrata.

Os parlamentares brasileiros são privilegiados, nessa questão, em três aspectos, ao examinarmos o contexto da sociedade brasileira. Primeiro, a cidade onde se concentram é Brasília, uma cidade de funcionários públicos e de estatais, diretamente beneficiados por essa lamentável medida; ela é fora do principal circuito sócio-cultural-econômico do país, que é a região Sul-Sudeste; por mais que a raiva dos contribuintes, aqui em São Paulo, esteja em cada mesa de bar da cidade, em cada ponto de ônibus, em cada vagão de metrô, em cada padaria, etc, jamais ocorrerá uma caravana de ônibus com contrariados, panelas na mão, em direção à Praça dos 3 Poderes para protestar como os Srs. merecem; ademais, não temos tempo para isso, pois, diferentemente dos parlamentares, não podemos faltar ao nosso trabalho, sob pena de punição, temos de trabalhar para conseguir o nosso sustento. Em segundo lugar vem a nossa índole bonachona, pacata, pouco irascível, que nos faz distintos dos argentinos e franceses, que reagem violentamente contra seus políticos abusados: somos complacentes. Em terceiro, o Sr. é parlamentar de um país de maioria de ignorantes, de analfabetos funcionais, gente que lê, mas não entende, apolitizada, que não lê jornal ou revista com colunistas críticos, formadores letrados de opinião. Essa gente, deputado, se vê pária dessa situação que o privilegia; pensa que os Srs. podem tudo e se conforma.

Finalmente, fiquei espantado com a coragem que os Srs. tiveram de se concederem esse aumento, em face do péssimo currículo que o Congresso nos apresentou com essa legislatura, "a pior da História", nas palavras de um seu colega. O grupo que o Sr. lidera nos apresentou dezenas de nomes de gente da pior espécie, do baixo-clero ao ex-presidente da Câmara, passando pela Mesa, gente corrupta, "sub-júdice", protegida pelo corporativismo que impera na Casa. Infelizmente, não podemos dizer que estamos diante de uma instituição íntegra, com honestidade de propósitos, cheia de moral, de "ilibada reputação". Os Srs. mesmos atraem esse julgamento negativo.

Grato pela sua atenção.

Zander Nogueira Martins