RECORDANDO A HISTÓRIA

                                    O SEQÜESTRO DO EMBAIXADOR DA SUÍÇA

          Em meados de outubro de 1970, a “frente” composta pelas seguintes cinco organizações subversivas, Ação Libertadora Nacional (ALN), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) e Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), estava em plena euforia, fruto da perspectiva de sucesso das ações que havia planejado executar em conjunto, na semana do 1º aniversário da morte de Carlos Marighella, em 04 de novembro. Dentre essas ações, a VPR planejava ativamente o seqüestro que iria executar na então Guanabara, o do embaixador da Suíça, Giovanni Enrico Bucher, um dos três diplomatas que ainda pretendia seqüestrar.
          A morte, em 23 de outubro, de Joaquim Câmara Ferreira (“Toledo”, “Velho”, “Valter”, “Azevedo”), então líder máximo da ALN, e a sucessão de prisões que atingiu o PCBR, em Recife e em Salvador, arrefeceram os ânimos da “frente”, embalada, apenas, pelas ações de propaganda armada que havia planejado realizar alguns dias antes das eleições de 15 de novembro.
          A VPR, entretanto, debruçava-se inteiramente nos preparativos para o seqüestro. Em 01 de novembro, Carlos Lamarca (“Renato”, “Célio”, “Sylas”, “João”, “César”, “Cid”, “Cláudio”, “Cirilo”) enviou o documento “Recorrência da VPR à Frente”, no qual questionava a quantidade de presos da VPR e da ALN que deveriam ser soltos em troca das vidas dos três embaixadores a serem seqüestrados. Num total de 200 presos, dentre os quais 25 do PCBR, 15 do MR-8, 7 do MRT e 43 de outras organizações, a VPR não concordava com os 40 que a ela haviam sido propostos, em comparação com os 70 da ALN. Numa linguagem agressiva, talvez por não ter que enfrentar “Toledo”, Lamarca propõe a inversão dos números: 70 para a VPR e 40 para a ALN. “De qualquer modo”, afirma Lamarca, a VPR “tem como questão fechada que o número de militantes da VPR e da ALN deve ser o mesmo”.
          Alguns dias depois, a ALN, o MR-8 e o MRT enviam o documento “Ao Comando da VPR”, no qual decidem reabrir as discussões em torno do número de presos a ser pedido “no seqüestro”, fazendo, entretanto, severas críticas ao procedimento da VPR, que questionava os números estabelecidos numa reunião conjunta, à qual ela mesma havia comparecido. Sem que Lamarca percebesse, já estava embutido, no documento, a posição de “recuo”: em vez de “seqüestros”, a palavra vinha no singular.
          O fracasso das ações de propaganda armada na “Campanha pelo Voto Nulo”, ocasionando choques trágicos com a polícia e pouco rendimento, precipitou o “recuo” da “frente”.
          Numa reunião realizada alguns dias depois das eleições, no “aparelho” de Joaquim Alencar de Seixas (“Roque, “Velho, “Felipe”), do MRT, à qual compareceram Herbert Eustáquio de Carvalho (“Daniel”, “David”, “Ezequiel”, “Geraldo”, “Isaac”, “Isaias”, “Marcelo”, “Olimpio”, “Tampinha”) e Yoshitane Fujimore (“Antenor”, “Clóvis”, “Cristóvão”, “Edgar”, “Japonês”, “Joel”), pela VPR, o MR-8, representado por Carlos Alberto Vieira Muniz (“Assis”, “Adriano”, “João”, “Pedro”, “Janjão”) apresentou a proposta de suspensão, por tempo indeterminado, dos três seqüestros, até que fossem preparadas melhores condições de segurança, com “aparelhos”, dinheiro, armas, documentação, esquema médico, etc. Para o MR-8, havia que se montar, antes, uma infra-estrutura eficiente que assegurasse o sucesso das ações. Era a posição de “recuo” - a “infra” antes da ação, que a VPR já havia discutido há poucos meses e deliberado contra.
          A maioria optou pelo “recuo” e a VPR comprometeu-se a não realizar o seqüestro até à próxima reunião da “frente”, prevista para ser realizada em dois meses. Lamarca, na Guanabara, consultou as bases. Favoráveis à ação, a VPR decidiu executá-la usando a sua autonomia e à revelia da “frente”.
         Bem que o MR-8 tentou atrasar o seqüestro, lançando a idéia de executar uma ação que iria render 20 metralhadoras. Como precisavam de fardas da PM e para provar que essa ação já estava em andamento, o MR-8 assaltou os dois policiais-militares que davam guarda no Mirante Dona Marta, em Botafogo, em 27 de novembro. Chegou mesmo a pensar em não devolver uma metralhadora que a VPR lhe havia emprestado, necessária para o seqüestro. Depois de acirradas discussões, concluiu que seria “oportunismo demais” e devolveu a “matraca”.
           Nada mais faltava à VPR. Os levantamentos já estavam prontos, realizados pela Unidade de Combate “Juarez Guimarães de Brito” (UC/JGB), comandada por Gerson Theodoro de Oliveira (“Anibal”, “Fritz”, “Hans”, “Ivan”, “Mateus”, “Ruivo”).
           O esquema médico já havia sido montado por Inês Etienne Romeu (“Alda”, “Isabel”, “Leda”, “Nadia”, “Olga”, “Tania”), que combinara com o Dr. Edson Medeiros, ex-vereador cassado em 1964 e então amante da militante Eline Mittoso de Mello, para aguardar um telefonema até às 1300h do dia aprazado. Se houvesse feridos, eles seriam recebidos por Walter Ribeiro Novaes (“Careca”, “Dico”, “Jonas”, “Jô”, “Natur”, “Tito”), que estaria aguardando com um Volks estacionado na Rua Costa Bastos, em Santa Teresa. Daí, seriam levados para um sítio na Estrada do Guerenguê, na Taquara, alugado por Sinfrônio Mesaneto (“Lucio”), onde seriam recebidos pelo caseiro Honório Amorim Bezerra (“José”, “Zumbi”), ex-militante da Ala Vermelha e da Var-Palmares.
           Os carros para a ação já haviam sido conseguidos. No dia 22 de novembro, às 0600h, Alex Polari de Alverga (“Bartô”, “João”, “Rafael”, “Samuel”, “Tomás”, “Virgulino”), José Roberto Gonçalves de Rezende (“Bigode”, “Eraldo”, “Flávio”, “Nelson”, “Rodolfo”, “Ronaldo”), Alfredo Hélio Sirkis (“Alberto”, “Camilo”, “Carlos”, “Felipe”, “Gabriel”, “Manoel”, “Vitor”), Maurício Guilherme da Silveira (“Honório”, “Benê”) e Tereza Ângelo (“Chica”, “Helga”, “Luiza”, “Mariana”, “Miriam”, “Solange”, “Telma”) assaltaram a garagem e parqueamento localizada na Rua de Bonsucesso, 500, de onde levaram três Volks - dois azuis e um branco, além de dois pares de placas e um revólver INA calibre .38. Às 0530h de 30 de novembro, esses mesmos militantes, com a exceção de Tereza Ângelo e com o acréscimo de Gerson Theodoro de Oliveira, Adair Gonçalves Reis (“Elber”, “Leônidas”, “Robson”, “Sorriso”, “Van”), Ivan Mota Dias (“Abel”, “Afonso”, “Cabana”, “Cururu”, “Eli”, “Marcos”, “Reginaldo”, “Tibério”) e Lúcia Maurício de Alverga (“Adriana”, “Mirna”, “Mônica”, “Stela”), assaltaram, pela 2ª vez, a garagem “Todos os Santos”, localizada na Avenida Amaro Cavalcanti, 511, no Encantado, perto de um depósito da Brahma, de onde levaram um Aero-Willys cinza-claro e dois Volks, um branco e o outro azul-turquesa.
        Como desinformação, Paulo Brandi de Barros Cachapuz (“Aldo”, “Bruno”, “Paulinho”) daria, logo após o seqüestro, diversos telefonemas para rádios e delegacias, fornecendo falsas pistas à polícia.
         O “aparelho” escolhido para a guarda do embaixador seria, do mesmo modo que o do alemão, a residência do “casal” Gerson e Tereza, que haviam alugado, desde julho, uma casa de três quartos na Rua Tacaratu, uma ladeira que começava em Rocha Miranda, onde havia um quartel da PM, e terminava em Honório Gurgel.
          O esquema para o envio das mensagens às autoridades também já estava pronto, com “pontos” anteriormente marcados entre os três “legais” do “aparelho”, Gerson, Tereza e Herbert - este apresentado à vizinhança como irmão de Tereza -, e Ivan Mota Dias e Zenaide Machado (“Andréia”, “Elisa”, “Neusa”, “Noêmia”, “Núria”, “Raquel”), que os deixariam em cinco diferentes locais, avisando, logo depois, aos órgãos de comunicação social.
          Os levantamentos executados sobre os hábitos do embaixador haviam mostrado que ele saía diariamente, por volta das 0845h, de sua residência na Rua Campo Belo, 199, em Laranjeiras, e dirigia-se no seu Buick azul de chapa diplomática para os escritórios da embaixada, na Rua Cândido Mendes, 157, na Glória. Não havia carro de segurança; o embaixador desprezava as sugestões da Polícia Federal nesse sentido. Para ele, o seqüestro do embaixador alemão mostrara que esse carro não impediria a ação de elementos determinados. Do mesmo modo, desprezava a recomendação de variar seu itinerário: de sua residência, no Campo Belo, passava pelas ruas Pereira da Silva, das Laranjeiras, Ipiranga e Conde de Baependi, chegando à Praça José de Alencar, ao Catete e, daí, atingindo a Glória. Para ele, o seqüestro de um embaixador suíço era improvável: o pequenino e neutro país não traria dividendos políticos aos seqüestradores. Portanto, diariamente, entre 0850 e 0900h, passava na Rua Conde de Baependi, uma via estreita, de mão única, que ligava Laranjeiras ao Flamengo. Com ele, no Buick azul, seguiam o motorista, desarmado, e um Agente da Polícia Federal (APF), com uma pistola 7,65 mm.
         Depois de dois adiamentos, Carlos Lamarca, então adotando o novo codinome de “Paulista”, marcou a ação para o dia 03 de dezembro. Tudo pronto, com os militantes em seus postos, o comandante da ação não apareceu: Sirkis havia-se esquecido de entregar, ao “Paulista”, a chave do Volks que o levaria, e a Gerson, ao local determinado.
        Entre 0850 e 0855h do dia 07 de dezembro de 1970, uma segunda-feira, consumou-se o seqüestro.
        O embaixador Giovanni Enrico Bucher, de 57 anos, saiu de sua residência na hora prevista, com o motorista Hercílio Geraldo e o APF Hélio Carvalho de Araújo. Um pouco antes do Buick azul entrar na Rua Conde de Baependi, o “olheiro” Adair Gonçalves Reis fez um sinal para Gerson Theodoro de Oliveira e saiu, a pé, da área. Gerson, por sua vez, sinalizou a Alex Polari de Alverga que ligou o motor de seu Aero-Willys cinza-claro, estacionado na calçada da esquerda, perpendicularmente à rua, na altura do nº 63. Segundos depois, avançou em direção à contra-mão, chegando a tocar com o pára-choque do seu carro com o do Buick. Ao mesmo tempo, Inês Etienne Romeu, num Volks azul estacionado junto à calçada da direita, deu marcha-à-ré, impedindo a fuga do Buick por este lado. Enquanto isso, Maurício Guilherme da Silveira, dirigindo um Volks branco, simulava uma pane na esquina da Rua Senador Correia, impedindo o acesso de outros veículos à Conde de Baependi, e Herbert Eustáquio de Carvalho dava segurança à operação.
          Lamarca, de cavanhaque, terno e gravata, e Gerson, com metralhadora, aproximaram-se pela direita do Buick. O “Paulista” bateu no vidro da janela do agente de segurança e abriu a porta, desfechando-lhe dois tiros com um revólver “Smith & Wesson” calibre .38, cano longo, a uma distância de um metro: o 1º atingiu o teto do carro e o 2º as costas do agente, que, por instinto de defesa, se virara (o APF Hélio Carvalho de Araújo, com a medula totalmente seccionada pelo projetil, viria a falecer às 0200h do dia 10 de dezembro de 1970, no Hospital Miguel Couto).
          Alex retirou o motorista, Hercílio Geraldo, obrigando-o a deitar-se de bruços na calçada. Aproveitando um descuido, Hercílio fugiu, saindo correndo por entre as obras de um prédio em construção. O apavorado embaixador, retirado do carro, foi levado por Inês a um Volks azul-turquesa, dirigido por José Roberto Gonçalves de Rezende. Alex, Herbert e Inês fugiram no Volks branco de Maurício, que saiu na contra-mão sendo, posteriormente, abandonado numa transversal da Rua Riachuelo. Lamarca e Gerson, com o embaixador, fugiram no Volks de José Roberto.
         Toda a ação durou pouco mais de 30 segundos. Na fuga, Bucher pôde vislumbrar dois soldados da PM que corriam para o local dos tiros, vindos da Praça José de Alencar, onde atendiam a um acidente de trânsito, a 100 metros do local do seqüestro.
         Abandonados na Conde de Baependi, ficaram o Aero-Willys e o Volks usados para fechar o Buick. Dentro deste, inclusive sobre o corpo ensangüentado do agente, panfletos do “Comando Juarez Guimarães de Brito” da VPR tentavam justificar a “Operação Joaquim Câmara Ferreira” e afirmavam, abusadamente, que “Deste instante em diante, a vida do Sr. Embaixador está sob inteira responsabilidade do governo”. Na realidade, era mais um crime cometido em nome da “revolução brasileira”.
          Cerca de 15 minutos depois, após ultrapassar o Túnel Santa Bárbara, José Roberto deixou Lamarca, Gerson e Bucher na Rua Miguel de Paiva, onde embarcaram no Volks branco de Sirkis. Subiram um pouco por Santa Tereza, desceram para o Rio Comprido e passaram, sucessivamente, pela Tijuca, pelo Engenho Novo e por Cascadura, onde trocaram as placas. Seguindo por Madureira, atingiram  o “aparelho” da Rua Paracatu, em Rocha Miranda, às 0945h, onde já os esperava Tereza Ângelo. Para a entrada no “aparelho”, Bucher foi vestido com um macacão de operário e um boné.
         Nesse período, os órgãos policiais desencadeavam operações de bloqueio em diversas saídas da Guanabara. Entretanto, os telefonemas dados por Paulo Brandi de Barros Cachapuz conduziam o grosso das forças para as matas da Floresta da Tijuca e desviavam sua atenção dos subúrbios da Leopoldina.
        Alguns momentos depois da chegada no “aparelho”, Bucher pediu que seus seqüestradores queimassem um documento que fora encontrado em sua pasta - uma análise da situação brasileira - no que foi atendido (em suas declarações depois de solto, o embaixador, obviamente, esqueceu-se deste detalhe).
          Durante os 40 dias que duraram as negociações, cinco militantes cuidaram do embaixador: Lamarca, Herbert, Gerson, Tereza e Sirkis. Foi bem tratado, chegando a receber duas bermudas, duas camisas, chinelos, cigarros, remédios e, até, um ventilador para enfrentar o forte calor do verão carioca. Constantemente, jogava “biriba” em parceria com seus seqüestradores e tomava banho de sol no pequeno quintal dos fundos. Chegou a ser fotografado e respondeu, num gravador, a uma dezena de perguntas que lhe haviam sido enviadas pela revista alemã “STERN”. Inicialmente de capuzes, uma semana depois os cinco militantes ficaram com os rostos descobertos (mais tarde, Bucher diria que seus seqüestradores ficaram de capuzes o tempo todo; naquela época, com as fotos existentes nos arquivos dos órgãos de segurança, os cinco militantes poderiam ter sido identificados).
          Algumas horas depois do seqüestro, a VPR enviou o “Comunicado nº 1”, um “Manifesto ao Povo       Brasileiro”, uma “Carta Aberta à Embaixada Suíça” e uma carta de Bucher, de próprio punho. Dentre as diversas exigências, três destacavam-se:

                         -  a  divulgação do “Manifesto ao Povo Brasileiro” por dois dias consecutivos na primeira página dos jornais e em todas as rádios e TV do País, às 0600, 1200, 1800 e 2030 horas;
                                     - a cessão de passagens gratuitas nos trens suburbanos da Central e da Leopoldina, durante dois dias; e
                                     - a libertação de 70 presos para o Chile, a Argélia ou o México.
        Ao meio-dia do dia 09 de dezembro, uma nota oficial do Ministro da Justiça afirmava que “o Governo Brasileiro no empenho de preservar a vida e a liberdade do Embaixador da Suíça” estava aguardando uma carta de próprio punho do embaixador e a “relação nominal dos terroristas presos”. Nessa mesma tarde, a VPR expediu o “Comunicado nº 2”, dizendo que só divulgaria a lista dos 70 presos após cumpridas as exigências. Quatro dias depois, novamente a VPR cobrou essas exigências, através do “Comunicado nº 3”, e, no dia 16, com o “Comunicado nº 4”.
         Por esses dias, instaurara-se uma verdadeira confusão nos órgãos de segurança, abarrotados por falsas denúncias anônimas, falsas exigências e falsos comunicados. Peritos grafotécnicos eram chamados para verificar a autenticidade dos comunicados. Apesar dos verdadeiros terem sido encaminhados com a assinatura do embaixador, alguns outros já apareciam com essa assinatura e só a perícia pôde demonstrar a falsificação.
         No dia 17, o Governo deu a garantia da libertação dos presos e, no dia seguinte, a VPR enviou o “Comunicado nº 5”, com a lista dos 70.
         Na segunda-feira, 21 de dezembro, o Governo respondeu que aceitava libertar 51 da lista. Não concordava, entretanto, com os outros 19, pelos seguintes motivos: 6 eram autores de seqüestros, 4 condenados à prisão perpétua ou penas elevadas, 3 haviam cometido homicídios, 1 não estava identificado, 1 não queria ir e 4 já estavam em liberdade.
          A partir desse momento, o “Comando Juarez Guimarães de Brito” entrou numa série de discussões para ver se matavam ou não o embaixador. No dia seguinte, Lamarca enviou um “Comunicado Especial” não aceitando a preterição dos 13 e concordando com a substituição dos 6 seguintes. Redigido em forma de ultimato, o final do comunicado trazia a sombria advertência de que estavam “firmes no propósito de executar a sentença de morte”. Ao mesmo tempo, Lamarca determinou que os militantes das duas bases enviassem, por escrito, a respectiva posição.

         No documento de Adair Gonçalves Reis, datado de 24 de dezembro, aparece:
                     “Propomos a marcação imediata da data e horário para o justiçamento, com comunicado à     ditadura. Prazo mínimo de 48 horas e máximo de 72 horas, tomando as 18 horas da tarde como horário básico”.

          Em 26 de dezembro, Zenaide Machado afirma:
                     “A saída é pagar o preço alto e carregar um defunto que irá muito nos incomodar”.

         Nessa mesma data, Ivan Mota Dias declara:
                     “Demorando a resposta da ditadura ao comunicado especial, damos um “ultimatum” que se não for aceito nos levará a fechar o cara. Havendo resposta negativa ao comunicado especial, pode-se pensar em negociar com o Feller (1). Eu penso que 6 ou 8 milhões de dólares seriam possíveis de serem obtidos, e parte desse tutu poderia ser entregue ao Jamil (2) na Europa, através dos contatos suíços em Genebra (os caras daquela liga de Direitos Humanos). O pessoal de lá teria tutu para voltar e para comprar equipamentos interessantes para a luta aqui, inclusive armas”.
                                    (1)  Max Feller, embaixador substituto.
                                    (2)   “Jamil” era o codinome de Ladislas Dowbor.

        Ubajara Silveira Roriz (“Nando”, “Otávio”, “Paulo”, “Salomão”), o mesmo estranho militante que aventara a idéia de soltar milhares de ratos nas cidades siderúrgicas, defendia “fazer a ditadura levar o cadáver do embaixador atravessado na garganta, nas suas andanças pelo mundo”.
        Nas respostas, somente Alfredo Hélio Sirkis e José Roberto Gonçalves de Rezende não viram dividendos políticos na morte do embaixador. Dentre os cinco militantes confinados no “aparelho” da Tacaratu, inicialmente, Sirkis ficou isolado, numa posição absolutamente minoritária. Com as respostas e o passar dos dias, Lamarca mudou a sua posição. Mesmo assim, eram cerca de 15 votos contra 3, a favor da execução. Lamarca, como comandante-em-chefe da VPR, exerceu o seu poder de veto, sustou a execução e enviou uma lista substituindo os 13.
        Sem o saber, Bucher nunca estivera tão perto da morte como naqueles dias de Natal do ano de 1970.
        No dia 28, o Governo informou que, da nova lista, muitos também não poderiam ser libertados, pelos mesmos motivos anteriores; outros, inclusive, não desejavam sair do país. No dia 30, a VPR enviou nova lista.
        Já aliviados pela decisão de negociar, os seqüestradores resolveram fazer uma festa na passagem do ano, com o comparecimento dos vizinhos; no quarto dos fundos, escondidos, só ficaram Sirkis e o embaixador.
        No dia 04 de janeiro, o Governo informou a preterição de mais 9 presos, no dia seguinte substituídos por nova lista enviada pela VPR. No dia 06, nova preterição de mais 4 e, no dia seguinte, nova lista substituindo esses 4.
        No dia 11, uma nota do Ministro da Justiça informou que condicionava o embarque de 70 presos (já reunidos na Guanabara) a um comunicado da VPR comprometendo-se a liberar o embaixador, comprometimento esse enviado no dia seguinte.
        Às 2400h de 13 de janeiro de 1971, os 70 presos escoltados por três agentes da Polícia Federal decolavam do Galeão num Boeing da VARIG, aterrando, às 0415h no aeroporto de Pudahuel, em Santiago do Chile, sendo fotografados ao lado do avião com os braços erguidos e os punhos cerrados. Era a saudação dos “vitoriosos” comunistas às dezenas de militantes que os aguardavam nas varandas do aeroporto, com faixas e cantos dos hinos nacionais do Brasil e do Chile, entremeados pelo hino da Internacional Comunista, por sambas brasileiros e pelo coro de “assassinos filhos da puta”, dirigido ao avião.
        Um dos agentes da Polícia Federal desceu do avião para colher a assinatura das autoridades chilenas pelo recebimento dos banidos. Ao dizer que tinha uma correspondência para o Adido Militar brasileiro, o Comissário Hugo Toro, afirmando que “aqui quem manda sou eu”, arrebatou-lhe o documento diplomático, rasgou o envelope e saiu a fim de lê-lo. Depois de ficar 2 horas guardado por agentes chilenos armados, o APF foi liberado. Às 0645h, o avião decolou e, quatro horas depois, aterrisava no Galeão.
         Dos 70 comunistas banidos para o Chile, 24 eram militantes da VPR: Antonio Expedito Carvalho Pereira, Antonio Ubaldino Pereira, Aristenes Nogueira de Almeida, Armando Augusto Vargas Dias, Bruno Piola, Christóvão da Silva Ribeiro, Derci Fensterseifer, Encarnación Lopes Peres, Geny Cecília Piola (casada com Bruno, levou suas três filhas menores, Tatiana, Kátia e Bruna), Ismael Antônio de Souza, João Carlos Bona Garcia, Jovelina Tonello do Nascimento, Luiz Alberto Leite Sanz, Manoel Dias do Nascimento, Nelson Chaves dos Santos, Otacílio Pereira da Silva, Pedro Chaves dos Santos, Otacílio Pereira da Silva, Pedro Chaves dos Santos, Roberto Antônio de Fortini, Roberto Cardoso Ferraz do Amaral, Roque Aparecido da Silva, Ubiratan de Souza, Valneri Neves Antunes, Wânio José de Matos e Wellington Moreira Diniz.
         Os outros 46 pertenciam a outras organizações subversivas: Afonso Celso Lana Leite, Afonso Junqueira de Alvarenga, Aluísio Ferreira Palmar, Antônio Rogério Garcia da Silveira, Bruno Dauster Magalhães e Silva, Carlos Bernardo Vainer, Carmela Pezzuti, Conceição Imaculada de Oliveira, Daniel José de Carvalho, Derly José de Carvalho, Edmur Péricles Camargo, Elinor Mendes Brito, Francisco Roberval Mendes, Gustavo Buarque Schiller, Humberto Trigueiros Lima, Irani Campos, Jaime Walwitz Cardoso, Jairo José de Carvalho, Jean Marc Friedrich Charles Van der Weid, João Batista Rita, Joel José de Carvalho, José Duarte dos Santos, Júlio Antônio Bittencourt de Almeida, Lúcio Flávio Uchôa Regueira, Mara Curtiss de Alvarenga, Marco Antônio Maranhão da Costa, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Maria Nazareth Cunha da Rocha, Nancy Mangabeira Unger, Paulo Roberto Alves, Paulo Roberto Telles Franck, Pedro Alves Filho, Pedro Viegas, Pedro Paulo Bretas, Rafael de Falco Neto, Reinaldo Guarany Simões, Reinaldo José de Melo, René Louis Laugery de Carvalho, Samuel Aarão Reis, Sônia Regina Yessin Ramos, Takao Amano, Tito de Alencar Lima, Ubiratan Vatutin Herzcher Borges, Vera Maria Rocha Pereira, Washington Alves da Silva e Wilson Nascimento Barbosa.
         Para a liberação do embaixador, a VPR estava, à semelhança do ocorrido com o alemão, com problemas de carro: o Volks previsto havia sofrido um acidente, quando Walter Ribeiro Novaes entrara na traseira de um caminhão, na Avenida Brasil.
        No dia 15, Lamarca abandonou o aparelho, indo encontrar-se com sua amante Iara Iavelberg (“Célia”, “Cláudia”, “Leda”, “Leila”, “Márcia”, “Norma”, “Rita”, “Gil”, “Liana”), que viera de São Paulo.
        Ao alvorecer de 16 de janeiro de 1971, Sirkis e Gerson, no Volks acidentado, levaram o embaixador até próximo ao penhasco da Igreja da Penha, onde o deixaram às 0505h. Apanhou um táxi e, seguindo rigidamente as instruções de seus seqüestradores, dirigiu-se para a casa de um dos conselheiros da Embaixada, próxima ao Largo do Machado. Logo depois, foi para sua residência, num carro diplomático, nela entrando sem ser percebido pelas dezenas de jornalistas e policiais que aguardavam, há dois dias, a sua chegada num táxi. Ainda nessa manhã, Bucher, acompanhado de sua governanta, foi fotografado sorridente e queimado pelo sol da Paracatu. Depois de quarenta dias, o senhor embaixador voltava para o seu mundo.

                                                                         F. Dumont

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