Revanchismo

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A Mídia infestada de esquerdistas, com vergonha de ter apoiado a Contra-revolução de 1964 e , em seguida ter se aproveitado dos  governos militares para  ajudas no pagamento de suas  dividas, não quer saber de conciliação nacional ! Quer ver o "circo pegar fogo" ! Esquecem-se  do fato de que em caso de incêndio, eles também estão debaixo da lona !

Revista Oficina Brasil
Arquivo - Quinta-feira, 28 de outubro de 2004
A nota do Centro de Comunicação Social do Exército (Cecomsex) que defendeu o golpe militar de 1964 e seus métodos de repressão

A CONCILIAÇÃO PERIGOSA
O conhecido colunista político Sebastião Nery explica o fato com uma piada. Ele diz que o general Antônio Gabriel Esper, o comandante do Centro de Comunicação Social do Exército, foi vítima de uma confusão mental. O general Esper é o responsável pela nota quase inacreditavelmente reacionária com que a força respondeu ao Correio Braziliense a propósito de uma matéria sobre o famoso caso Wladimir Herzog. Segundo Nery, Esper tinha caído num sono profundo durante a ditadura e acordado em 2004. Ao ver tudo igual, imaginou que a ditadura militar continuava – e mandou brasa...

A nota foi escrita a próposito de uma trapalhada. Dois jornalistas estavam vasculhando os arquivos da Comissão de Direitos Humanos da Câmara e encontraram fotos que imaginaram ser do jornalista Wladimir Herzog, nu, numa cela de prisão. Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, morreu há 25 anos, em São Paulo, sob a guarda do DOI-CODI, uma instituição de repressão e torturas do Exercito. Como os jornalistas imaginavam que as fotos eram inéditas, como a morte de Herzog estava completando um quarto de século e, mais ainda, como elas mostravam que ainda existem muitos documentos oficiais inéditos sobre a repressão – ao contrário do que propagam os responsáveis pelas Forças Armadas – a matéria foi publicada no Correio Braziliense no dia 17 de outubro, com destaque. Clarice Herzog, mulher do jornalista na época, foi ouvida pelo jornal e reconheceu o marido numa das três fotos publicadas.

A matéria foi preparada pelo Correio ao longo da semana. Na quinta, dia 14, o jornal ouviu o general Esper. O comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, estava ausente, fora do país. Todos os relatos publicados até agora, por vários jornalistas – e não desmentidos sequer pelo Ministro da Defesa, José Viegas, quando perguntado diretamente sobre o caso –, dão conta de que, mesmo ausente, Albuquerque foi consultado sobre a nota com a qual o Cecomsex respondeu ao jornal. Quem a concebeu, dizem os mesmos relatos, foi o chefe do Estado Maior do Exército, general Antônio Apparício Ignácio Domingues.

O general Apparício está indo para o Superior Tribunal Militar. Em meados do mês, o presidente encaminhara o seu nome ao Congresso para aprovação, a partir de relatório do senador Aloísio Mercadante. Ele é um “dinossauro da linha dura”, diz o jornalista Luiz Costa Pinto, da IstoÉ; esteve em funções no QG do 2º Exército em meados dos anos 70; foi adido militar na embaixada do Brasil no Chile da época do general Augusto Pinochet.

O jornal O Estado de S. Paulo, tem uma outra explicação para a nota do Cecomsex, diferente da de Nery. Para o jornal, em editorial de 21 de outubro, a nota foi “uma reação burocrática, que consistiu no desengavetamento de uma resposta padrão, que era usada quando o Exército se sentia atingido institucionalmente por denúncias de torturas”. Mesmo que essa extravagante hipótese fosse verdadeira – ou seja, que existisse, até agora, 20 anos depois do encerramento formal da ditadura com a eleição da dupla de civis Tancredo Neves-José Sarney para o governo em 1984, uma avaliação padrão do Exército sobre os dramáticos eventos do pós 64 – é incrível examinar o que diz o documento divulgado pelo órgão de comunicação social do Exército brasileiro. A nota do Cecomsex pode ser vista na íntegra na seção de Fatos, deste site, na data de 19 de outubro. Entre outras coisas, ela justifica o golpe militar que derrubou o presidente eleito Jango Goulart em 1964; diz que a força de repressão criada pelos militares depois do golpe atendeu a amplos clamores populares; defende o DOI-CODI, mesmo sem mencionar o órgão explicitamente; repete o argumento de que o Regime Militar foi um grande benefício para o país; chega a sugerir que uma instituição como o DOI-CODI hoje é apenas desnecessária; repete a tese de que não há documentos históricos que provem que pessoas teriam sido mortas pelos aparatos de repressão; e diz, finalmente, que o Exército Brasileiro não mudou de posição em relação à sua participação no golpe de 1964, nem sobre o que fez no período da ditadura.

A reação do governo à nota praticamente a explica: mostra que o governo teme as forças armadas e que as manteve intocadas, com uma cultura que vem da época da ditadura. O jurista Fábio Konder Comparato, presidente da Comissão de Defesa da República e da Democracia da Ordem dos Advogados do Brasil, disse que o presidente da República deveria ter “demitido e punido exemplarmente” os oficiais responsáveis pela "despudorada nota” que fazia “a apologia do regime militar” e justificava “os abomináveis crimes cometidos pelos governantes da época”, por ela ser “um agravo frontal à ordem republicana e democrática”. Pelo artigo 78 da Constituição, disse ele, cabe ao presidente da República, a quem o artigo 142 da mesma Carta dá a autoridade suprema sobre as Forças Armadas, a responsabilidade de “manter, defender e cumprir a Constituição”.

A ação do presidente, no entanto, foi de contenção e apaziguamento. A repercussão da matéria do Correio, mais especialmente da nota foi imediata e já no domingo o ministro da Defesa, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, o presidente Lula e outros integrantes da cúpula governista mergulharam num debate e na investigação do problema. Logo Viegas descobriu que o comandante do Exército aprovara a nota e foi encarregado por Lula e Dirceu de cobrar dele uma retificação. O general Albuquerque consultou o Alto Comando do Exército para fazer mudanças nos termos da nota e torná-la aceitável. Pelo menos uma versão foi recusada, o que prova que a cúpula militar defendeu a nota.

Na segunda-feira, o presidente foi ao Paraná, por compromissos ligados à campanha eleitoral, e as negociações do Palácio do Planalto com o Exército a respeito do texto final não foram fechadas. Na terça, dia 19, o presidente voltou e, já no aeroporto militar, em Brasília, ainda insatisfeito, pediu correções na versão do texto que o general Albuquerque afinal divulgou no mesmo dia, com sua assinatura.

A nota do comandante do Exército é um exemplo de contorcionismo. Não diz que a nota do Cecomsex estava errada: diz que ela não foi “apropriada” e não foi “condizente com o momento histórico atual”; e por vias transversas, para dizer o que aparentemente o presidente queria – que o Exército estava empenhado na consolidação da democracia – diz que a força sempre foi uma instituição democrática: o Exército brasileiro “é uma instituição que prima pela consolidação do poder da democracia brasileira” e “não foge aos seus compromissos de fortalecimento da democracia brasileira”, diz a nota.

Para alguns no governo, no entanto, mesmo essa nota aguada já tinha sido excessiva afronta aos militares. O governo fez então mais três manobras de conciliação:

1) No final da quinta-feira, dia 21, o secretário de Direitos Humanos do governo, Nilmario Miranda, divulgou nota oficial na qual disse que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) lhe havia comunicado que as fotos publicadas pelo Correio Braziliense como sendo de Herzog de fato não seriam do jornalista, mas de uma outra história, resultante de uma investigação ilegal feita pelo antigo Serviço Nacional de Informações em 1974 e que envolveria pessoas cujo nome ele não deveria revelar, em virtude da ilegalidade da investigação.

Para corroborar essa afirmação, aparentemente, os serviços de informação do governo mostraram à Folha de S. Paulo uma série de fotos de um homem parecido com Herzog, supostamente o padre canadense Leopoldo d'Astous, que viveu no Brasil por dez anos. Com essas fotos, o antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) teria querido mostrar que o padre tivera caso com uma mulher, supostamente Terezinha de Sales, de Brasília, e que aparece numa das três fotos do Correio. 2) O ministro José Dirceu foi ao QG do Exército na quinta-feira, onde foi recebido pelo comandante Albuquerque e almoçou com o Alto Comando; e 3) Por último, no final da sexta-feira, o presidente Lula e o Ministro Antônio Palocci foram ao baile do Dia do Aviador, no Clube da Aeronáutica, onde estavam os três comandantes das Forças Armadas e onde ficaram até a madrugada em confraternização.

O presidente foi recebido por um sucesso da Jovem Guarda, dos idos dos anos 60, de Eduardo Araújo, cujo refrão é: "Ele é o bom, é o bom, é o bom...". Segundo O Estado de S. Paulo, na festa, além de dançar muito, o presidente tranqüilizou os comandantes das três armas – Exército, Marinha e Aeronáutica. “Lula vai a festa de militares e diz que não quer abrir arquivos secretos”, foi a manchete do jornal.

O presidente pode considerar que foi muito hábil e que o essencial no episódio era evitar uma crise militar. De fato, a demissão do comandante do Exército e mais alguns oficiais, no contexto em que ela teria ocorrido, não passaria sem uma crise. O perigoso preço pago pela conciliação que se fez, no entanto, é o de deixar as forças armadas brasileiras na cultura retrógrada, antidemocrática em que parecem mergulhadas há anos.

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