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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino
“Tudo que é preciso para o triunfo do mal é que as pessoas de bem nada
façam.” (Edmund Burke)
Aécio Neves pulou fora da corrida presidencial de 2010. Agora é praticamente
oficial: José Serra e Dilma Rousseff são as duas opções viáveis nas próximas
eleições. Em quem votar? Esse é um artigo que eu não gostaria de ter que
escrever, mas me sinto na obrigação de fazê-lo. Afinal, o futuro da
liberdade está em jogo, sob grande ameaça. Nenhuma das opções é atraente.
Nenhum dos candidatos representa uma escolha decente para aqueles que
defendem as liberdades individuais. Será que há necessidade de optar? Ou
será que o voto nulo representa a única alternativa?
Tais questões me levaram à lembrança do excelente livro O Sonho de
Cipião, de Iain Pears, uma leitura densa que desperta boas reflexões
sobre o neoplatonismo. Quando a civilização está em xeque, até onde as
pessoas de bem podem ir, na tentativa de salvá-la da barbárie completa? Nas
palavras do autor: “Usamos os bárbaros para controlar a barbárie? Podemos
explorá-los de modo que preservem os valores civilizados ao invés de
destruí-los? Os antigos atenienses tinham razão ao dizerem que assumir
qualquer lado é melhor do que não assumir nenhum?”
Permanecer na “torre de marfim”, preservando uma visão ideal de mundo, sem
sujar as mãos com um voto infame, sem dúvida traz conforto. Manter a paz da
consciência tem seus grandes benefícios individuais. Além disso, o voto nulo
tem seu papel pragmático também: ele representa a única arma de protesto
político contra todos que estão aí, contra o sistema podre atual. Somente no
dia em que houver mais votos nulos do que votos em candidatos o recado das
urnas será ouvido como um brado retumbante, alertando que é chegada a hora
de mudanças estruturais. Os eleitos sempre abusam do respaldo das urnas, dos
milhões de eleitores que deram seu aval ao programa de governo do vencedor,
ainda que muitas vezes tal voto seja fruto do desespero, da escolha no
“menos pior”.
Mas existem momentos tão delicados e extremos, onde o que resta das
liberdades individuais está pendurado por um fio, que talvez essa postura
idealista e de longo prazo não seja razoável. Será que não valeria a pena
ter fechado o nariz e eliminado o Partido dos Trabalhadores
Nacional-Socialista em 1933 na Alemanha, antes que Hitler pudesse chegar ao
poder? Será que o fim de eliminar Hugo Chávez justificaria o meio deplorável
de eleger um candidato horrível, mas menos louco e autoritário? São questões
filosóficas complexas. Confesso ficar angustiado quando penso nisso.
Voltando à realidade brasileira, temos um verdadeiro monopólio da esquerda
na política nacional. PT e PSDB cada vez mais se parecem. Ambos desejam mais
governo. Ambos rejeitam o livre mercado, o direito de propriedade privada, o
capitalismo liberal. Mas existem algumas diferenças importantes também. O PT
tem mais ranço ideológico, mais sede pelo poder absoluto, mais disposição
para adotar quaisquer meios – os mais abjetos – para tal meta. O PSDB parece
ter mais limites éticos quanto a isso. O PT associou-se aos mais nefastos
ditadores, defende abertamente grupos terroristas, carrega em seu âmago o
DNA socialista. O PSDB não chega a tanto.
Além disso, há um fator relevante de curto prazo: o governo Lula aparelhou a
máquina estatal toda, desde os três poderes, passando pelo Itamaraty, STF,
Polícia Federal, as ONGs, as estatais, as agências reguladoras, tudo! O
projeto de poder do PT é aquele seguido por Chávez na Venezuela, Evo Morales
na Bolívia, Rafael Correa no Equador, enfim, todos os comparsas do Foro de
São Paulo. Se o avanço rumo ao socialismo não foi maior no Brasil, isso se
deve aos freios institucionais, mais sólidos aqui, e não ao desejo do
próprio governo. A simbiose entre Estado e governo na gestão Lula foi
enorme. O estrago será duradouro. Mas quanto antes for abortado, melhor
será: haverá menos sofrimento no processo de ajuste.
Justamente por isso acredito que os liberais devem olhar para este aspecto
fundamental, e ignorar um pouco as semelhanças entre Serra e Dilma. Sim,
Serra tem forte viés autoritário, apresenta indícios fascistas em sua gestão
no governo de São Paulo, deseja controlar a economia como um czar faria,
estou de acordo com isso tudo. Serra representa um perigo para as
liberdades, isso é fato. Mas uma continuação da gestão petista através de
Dilma é um tiro certo rumo ao pior. Dilma é tão autoritária ou mais que
Serra, com o agravante de ter sido uma terrorista na juventude comunista,
lutando não contra a ditadura, mas sim por outra ainda pior, aquela
existente em Cuba ainda hoje. Ela nunca se arrependeu de seu passado
vergonhoso; pelo contrário, sente orgulho. Seu grupo Colina planejou
diversos assaltos. Como anular o voto sabendo que esta senhora
poderá ser nossa próxima presidente?! Como virar a cara sabendo que isso
pode significar passos mais acelerados em direção ao socialismo
“bolivariano”?
Entendo que para os defensores da liberdade individual, escolher entre Dilma
e Serra é como uma escolha de Sofia: a derrota está anunciada antes mesmo da
decisão. Mesmo o resultado “desejado” será uma vitória de Pirro. Algo como
escolher entre um soco na cara ou no estômago. Mas situações extremas
demandam medidas extremas, e infelizmente colocam certos valores puristas em
xeque. Anular o voto, desta vez, pode significar o triunfo definitivo do
mal. Em vez de soco na cara ou no estômago, podemos acabar com um tiro na
nuca.
Dito isso, assumo que votarei em Serra, mas não sem antes tomar um Engov.
Meu voto é anti-PT acima de qualquer coisa. Meu voto é contra o Lula, contra
o Chávez, que já declarou abertamente apoio a Dilma. Meu voto não é a favor
de Serra. E, no dia seguinte da eleição, já serei um crítico tão duro ao
governo Serra como sou hoje ao governo Lula. Mas, antes é preciso retirar a
corja que está no poder. Antes é preciso desarmar a quadrilha que tomou
conta de Brasília. Ainda que depois ela seja substituída por outra parecida
em muitos aspectos. Só o desaparelhamento de petistas do Estado já seria um
ganho para a liberdade, ainda que momentâneo.
Respeito meus colegas liberais que discordam de mim e pretendem anular o
voto. Mas espero ter sido convincente de que o momento pede um pacto
temporário com a barbárie, como única chance de salvar o que resta da
civilização – o que não é muito.