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O verdadeiro Che Guevara – e os idiotas úteis que o idolatram
por Paulo Zamboni em 5 de junho de 2009 Análise - Resenhas

Ernesto Guevara: ícone dos pobres, mas de relógio Rolex no pulso, claro
Transformado ao longo dos anos numa espécie de “Jesus Cristo revolucionário”
graças aos esforços incansáveis da esquerda mundial, o argentino Ernesto Guevara
é objeto de autêntico culto a personalidade em todo o mundo.
Entretanto, a leitura do livro do cubano-americano Humberto Fontova, O
verdadeiro Che Guevara, e os idiotas úteis que o idolatram (Editora É
Realizações, São Paulo, 287 páginas), deixa claro que, embora Guevara seja um
inegável sucesso de marketing político e comercial – com sua imagem estampando
desde camisetas para bebes até biquíni vestido pela supermodelo Gisele Bündchen
– na vida real pode ser considerado um fracasso.
Lançando mão de muitas fontes bibliográficas e orais, especialmente de
ex-companheiros de Guevara, Fontova relata, de maneira impiedosa e irônica, como
o argentino, muito longe do homem perfeito idealizado pela mitologia
esquerdista, era uma pessoa ressentida, vingativa, incompetente e responsável
direto pelo assassinato de centenas de pessoas absolutamente inocentes de
qualquer tipo de crime.
Vindo de uma desestruturada família burguesa argentina simpatizante do
comunismo, Guevara seria considerado, sob qualquer aspecto, um vagabundo, um
andarilho perdido no mundo. Seu envolvimento com exilados cubanos no México após
uma passagem pela Guatemala acabou levando-o para aventuras em Cuba, no seio do
movimento armado contra o ditador Fulgêncio Batista.
A luta contra Batista é um capítulo a parte, que revela muito do modus operandi
de Guevara e Fidel Castro. Diferente do senso comum, segundo o qual Batista foi
derrotado por uma série de intensas batalhas movidas por guerrilheiros
audaciosos, o que menos houve na derrocada de Batista foi luta armada. Castro
operava, sobretudo, no terreno da propaganda, angariando dinheiro em grande
quantidade, especialmente das elites cubanas, cansadas do regime de Batista, e
as simpatias internacionais, em particular nos Estados Unidos, através da mídia
que se encarregou de forjar a imagem de valorosos revolucionários para Fidel
Castro e Che Guevara – que, aliás, nessa época era apenas mais um dentre vários
colaboradores da revolução.
O regime de Batista caiu principalmente pela corrupção de suas forças, que
aceitavam dinheiro de Fidel Castro para retirar-se sem luta, cansaço das elites
cubanas e dos americanos em tolerar os métodos de Batista, e, em especial, a
crença em que Castro e seus homens eram realmente democratas e honestos em seus
objetivos.
Após a vitória na luta contra Batista, em pouco tempo a verdadeira face do
regime revelou-se: violência, assassinatos, tortura e prisões. E Guevara teve
papel fundamental nisso.

Castro e Guevara: senhor e vassalo no reinado de terror imposto aos cubanos
Neste ponto, Fontova faz uma clara distinção entre Castro e Guevara. Enquanto
Fidel Castro era muito mais hábil, utilizando a violência como meio para atingir
um fim, Guevara parecia ver na brutalidade e assassinatos um fim em si mesmo.
Guevara acreditava que a “violência revolucionária” – leia-se, a morte sem
piedade de todos os inimigos, reais ou imaginários – era a melhor forma de
controlar o poder. Assim, desde o começo, Guevara ligou-se ao aparato repressivo
do bloco soviético, transportando seus métodos para o cenário cubano.
Talvez o mais chocante para os fás de Guevara que por ventura lerem o relato de
Fontova, seja a imensa distância sobre o significado que lhe é atribuído – um
ícone da liberdade e igualdade – e sua real figura. Assim, um homem que é
cultuado por líderes de minorias raciais, hippies, alternativos e jovens, tinha,
na verdade, uma mentalidade racista, patriarcal, despótica e arrogante,
desprezando negros, jovens, “cabeludos”, música – enfim, tudo aquilo que, dizem
as esquerdas e desinformados em geral, Guevara simbolizaria.
Humberto Fontova mostra como essas e muitas outras incoerências foram e ainda
são resultado do verdadeiro caso de amor que existe entre os meios intelectual e
midiáticos, especialmente o norte-americano, e a ditadura de Fidel Castro,
citando por exemplo o jornal New York Times, que repetiu com Castro exatamente o
que já tinha feito, na década de 1930, encobrindo os crimes do regime de Stalin.
[*]
A imensa incompetência de Guevara a frente do ministério da economia destruiu a
infraestrutura cubana, desorganizando até hoje um dos países mais prósperos das
Américas, levando o caos e a miséria a uma população cristã e orgulhosa,
favorecendo sua submissão ao projeto de poder totalitário ambicionado por Fidel
Castro. A este respeito, o autor mostra com números e informações detalhadas
como Cuba era econômica e socialmente antes da chegada ao poder de Castro e
Guevara e como ficou depois.
O livro revela episódios pouco conhecidos, como o envolvimento de Guevara em uma
série de atentados terroristas frustrados nos EUA, logo após a chegada ao poder
em Cuba, época em que os americanos ainda tinham ilusões quanto aos objetivos de
Fidel Castro; o real significado da Crise dos Mísseis – que funcionou como um
“sinal verde” para Castro impor seu regime totalitário a Cuba, já que teve a
garantia dos EUA de que sua ditadura não seria incomodada –; a chamada “invasão
da Baía dos Porcos” e a dura repressão contra a revolta popular mantida durante
metade da década de 1960 pela população rural cubana contra o regime de Fidel
Castro, como reação à coletivização forçada.
As aventuras externas de Guevara, primeiro no Congo e depois na Bolívia, em
missões militares permeadas de muita retórica revolucionária vazia e nenhuma
competência até mesmo para assuntos práticos elementares (como, por exemplo, ler
uma bússola para não se perder na selva), resultaram primeiro no descrédito de
Guevara como um líder revolucionário viável, após o fracasso no Congo, e,
depois, em sua morte na Bolívia, encerrando assim sua vida e carreira de
revolucionário que se pretendia genial. Curioso notar que tanto no Congo quanto
na Bolívia Guevara foi confrontado por forças das quais faziam parte cubanos que
haviam deixado seu país após o início dos desmandos do "Che" e Castro, e que
demonstraram muito mais competência militar do que Guevara, cuja tão falada
habilidade tática e estratégica encontra-se guardada junto com seus demais
méritos, ou seja, na propaganda.
Livro de Humberto Fontova: Guevara exposto
O livro de Humberto Fontova é valioso não apenas pelas suas informações, que
inclusive podem ser um ótimo antidoto para os inocentes úteis simpatizantes de
Guevara, mas por ser o único trabalho publicado no Brasil, em muito tempo, a ir
contra o senso comum que transformou um homem medíocre em um deus no templo da
ideologia comunista.
Destaque também para o documentário que acompanha o livro, “Guevara, Anatomia de
um mito”, com imagens e depoimentos sobre Ernesto Guevara desde seus tempos de
desocupado na Guatemala até sua morte na Bolívia, complementando de forma muito
eficiente e sóbria o trabalho de Fontova.
[*] Nota: Um dos maiores biógrafos “chapa-branca” de Guevara citado várias vezes
ao longo do livro de Fontova, o mexicano Jorge Castãneda, antigo esquerdista
radical há alguns anos convertido ao socialismo light de cunho social-democrata
atualmente predominante na política latino-americana e nos EUA, esteve há poucos
dias envolvido num episódio no minimo curioso. Convidado para um evento na
Venezuela, promovido pela oposição ao ditador Hugo Chávez, Castãneda criticou o
fato de que “Chavez estava tentando criar outra Cuba” na América Latina. Para
quem dedicou grande parte de sua vida a incensar o tirano Castro e vassalos do
ditador como Guevara, essa é uma virada e tanto.