Ainda em resposta à reportagem de Lucas Figueiredo, vamos
continuar vasculhando o Orvil
Origem da ALN
Antigo militante do PCB e membro do Comitê Central,
eleito sucessivamente, nos Congressos de 1954 e 1960, Carlos
Marighela constituía-se num dos maiores líderes da Corrente
Revolucionária, que tentava radicalizar a linha política do
PCB. Sua maior influência era em São Paulo e seus
correligionários diziam pertencer à “ Ala Marighela”.
Em 10 de dezembro de 1966, Marighela já havia enviado uma
carta à Executiva do PCB, na qual renunciava à Comissão
Executiva e declarava-se a favor de uma postura
revolucionária
Convidado em caráter especial e sem pedir autorização ao
Comitê Central do PCB, Marighela compareceu à I Conferência
da OLAS - Organização Latino- Americana de Solidariedade,
realizada em Havana em julho/agosto de 1967.Tomando Ciência
de sua viagem, o PCB enviou nota ao PC de Cuba, afirmando
que Marighela não estava autorizado a comparecer.
Imediatamente, ainda de Havana , Marighela enviou uma carta
à Comissão Executiva do PCB na qual afirmava:
“É evidente que compareci sem pedir permissão ao
Comitê Central primeiro porque não tenho que pedir licença
para praticar atos revolucionários, segundo porque não
reconheço nenhuma autoridade revolucionária, neste Comitê
Central, para determinar o que devo, ou não, fazer.”
“(... ) prosseguirei pelo caminho da luta armada,
reafirmando minha atitude revolucionária (...) “
Ao retornar ao Brasil, impregnado das
concepções foquistas ( teoria cubana de pequenos grupos de
guerrilheiros agindo em várias partes e com certa
independência) e contando com os dólares cubanos, Marighela
denominou o seu grupo, a “Ala Marighela", de Agrupamento
Comunista de São Paulo – AC/SP, que iria dar origem a Ação
Libertadora Nacional – ALN
Em setembro de 1967, Marighela enviou a primeira turma
de militantes para fazer curso de guerrilha em Cuba, o
chamado, posteriormente, I Exército da ALN.
Componentes do I Exército da ALN:
José Nonato Mendes*, Adilson Ferreira
da Silva, Aton Fon Filho, Epitácio Remígio de Araújo, Hans
Rudolf Jacob Menz, Otávio Ângelo e Vírgilio Gomes da Silva.
A escolha do “Partidão” ( PCB), de tomada do poder pela
linha pacífica, tornou o AC/SP um pólo de atração para os
grupos dissidentes que tinham feito opção da tomada do
poder pela luta armada . A organização ganhou adeptos entre
os dissidentes do PCB e de grupos de jovens marxistas
oriundos do meio estudantil.
Em fevereiro de 1968, Marighela expunha suas diretrizes
no documento “Pronunciamento do Agrupamento
Comunista de São Paulo “
A guerrilha, segundo o documento seria o
“embrião do Exército revolucionário”
O trabalho inicial seria nas cidades mas, o movimento
para se tornar vitorioso teria de se estender ao campo para
criar o apoio do núcleo armado operário e camponês.
Três seriam os princípios básicos adotados pelos
revolucionários :
a- O dever de todo revolucionário é fazer a revolução;
b- Não se pede licença para praticar atos
revolucionários; e
c- A organização só tem compromisso com a revolução.
Esta seria a semente de uma das organizações mais
violentas que atuariam no Brasil nas décadas de 60 e 70.
Em março de 1968, seguindo suas próprias diretrizes,
Marighela chefiou o assalto ao carro pagador do Banco
Francês e Italiano, na avenida Santo Amaro, em São Paulo.
A partir de julho de 1968 os militantes ( I Exército da
ALN) retornavam de Cuba, depois de fazer o curso de
guerrilha e iniciavam , já treinados militarmente, suas
ações criminosas. Marighela investia em sua organização. À
mesma época , iniciava-se o envio de mais um grupo ( II
Exército da ALN), que reunido em Cuba, realizaria o
treinamento militar entre março e setembro de 1969.
Faziam parte do II Exército da ALN :
Agostinho Fiordelísio, Alex de Paula Xavier Pereira,
Antonio Carlos Bicalho Lana, ,Antônio Espiridião Neto,
Benjamin de Oliveira Torres Neto, Darcy Toshiko Miaki,
Guilherme Otávio Lessin Rodrigues, Isis Dias de Oliveira,
José Júlio de Araújo, José Luiz Paz Fernandes, José da
Silva Tavares, Luiz Almeida de Araújo, Luiz José da Cunha,
Márcio Leite Toledo, Maria Amélia de Araújo Silva, Norberto
Nhering , Paulo de Tarso Celestino, Renato Leonardo
Martinelli, Ricardo Apgaua Paulo Guilherme, Sérgio Ribeiro
Granja, Viriato Xavier de Melo Filho, Waldemar Rodrigues de
Menezes, Washington Adalberto Mastrocinque Martins, Yuri
Xavier Pereira e Zelik Traj Ber.
AÇÔES DA ALN EM 1968
Já em 1968, apoiado pela chegada do primeiro grupo vindo
de Cuba, Marighela liderou alguns assaltos, todos na área de
São Paulo.
São da autoria do Agrupamento Comunista de São Paulo
-AC/SP As seguintes ações:
- Assalto ao Banco Comércio e Indústria, Av. São
Gabriel, 191:
- Assalto à Agência Bradesco da Alameda Barros com
avenida Angélica;
- Assalto ao trem pagador da Estrada de Ferro Santos –
Jundiaí;
- Assalto ao carro pagador da Massey Ferguson, Alto de
Pinheiros ;
- Assalto à casa de um colecionador de
armas, Alameda Ribeirão Preto;
- Atentado contra um carro pertencente a um elemento do
Dops de São Paulo, Avenida Marginal;
- Atentado a bomba contra a casa de um diretor da Contel.
- Assalto `a Indústria Rochester de Armas e Explosivos,
em Mogi das Cruzes.
Esta última ação foi a mais audaciosa desse período, onde
cerca de trinta militantes , em treze carros, levaram 23
caixas de dinamite, 21 bananas de gelatina explosiva e 4
sacos de clorato de potássio.
- Em 12 de outubro de 1968, prosseguindo a escalada de
violência , foi assassinado em São Paulo, o Capitão do
Exército dos Estados Unidos Charles Rodney Chandler, por
Marco Antônio Brás de Carvalho ( Marquito) , homem de
confiança de Marighela, juntamente com outros elementos da
VPR .
As ações do AC/SP, em 1968, limitaram-se a São Paulo e
renderam mais de 530mil cruzeiros novos, além de terem
acrescentado armas e explosivos ao arsenal da organização.
Participaram dessas ações os seguintes militantes:
Aton Fon Filho, Manoel Cyrilo de Oliveira, Denison Luiz
de Oliveira, Josef Alprim Filho ,Miguel Nakamura, Francisco
Gomes da Silva, Ayrton Medeiros Caldeville, Maria Aparecida
da Costa, João Leonardo da Silva Rocha, Takao Amano, Ney da
Costa Falcão, Vinicius Medeiros Caldeville, Carlos Henrique
Knapp, Eliane Toscano Samikhowski, Boanerges de Souza Massa,
Itobi Alves de Correia Júnior, Caio Venâncio Martins, Ana de
Cerqueira Cesar Corbisier Mateus, Carlos Marighela, Marco
Antônio Brás de Carvalho, Arno Press, Virgílio Gomes da
Silva, Sérgio Roberto Correia, João Carlos Cavalcanti Reis,
Aylton Adalberto Mortati, Celso Antunes Horta, Carlos
Eduardo Pires Fleury e Lauriberto José Reyes.
Lucas Figueiredo, como pode um homem com a experiência
de José Nonato Mendes*, escolhido para
fazer curso em Cuba, contratar um caseiro desconhecido,
do qual não sabia nem o estado de origem, para tomar
conta de um sítio onde os militantes de organizações, como a
ALN e a VPR, íam treinar tiro, explodir bombas e esconder
armas?
Capítulo III - ALN
Em abril de 1968, o Agrupamento Comunista de São Paulo -
AC/SP lançou o primeiro número do jornal “ O Guerrilheiro”,
que tinha como objetivo principal difundir mensagens sobre a
guerrilha brasileira. Constavam da publicação o “
Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo” e a “
Declaração Geral da I Conferência da Olas “, textos de
Marighela, que constituíam a ideologia do AC/SP, e sua linha
política.
O editorial desse jornal afirmava que, no núcleo armado
operário e camponês, existia espaço para o movimento
estudantil e demais forças interessadas na revolução.
Afirmava, também, que “ o grande objetivo”, era a tomada do
poder, que ficaria caracterizada pela destruição do aparelho
burocrático militar do Estado e a sua substituição pelo povo
armado.
Em 1968 foi difundido também, o documento “Algumas
questões sobre as guerrilhas no Brasil “ de autoria de
Carlos Marighela. O texto inseria a revolução cubana
dentro da revolução mundial, apresentando-a como exemplo
da conquista do poder, por meio da guerra de guerrilha.
No texto, Marighela estabelecia três fases principais
para a implantação e o sucesso da guerra de guerrilha:
1º - planejamento e preparação da guerrilha;
2º - lançamento e sobrevivência da guerrilha; e
3º - crescimento e sua transformação em guerra de
manobra.
Em fins de 1968, Marighela difundiu entre os membros do
AC/SP, o documento “Questões de Organização”
O documento anunciava a criação de um centro de
aperfeiçoamento, uma escola de formação de
guerrilheiros. Preconizava também três frentes de
atividades: A Frente Guerrilheira, a Frente de Massas e
a Rede de Sustentação.
Caberia à Frente Guerrilheira , dentro da fixação de
Marighela pela ação terrorista, atuar em todas as partes
do país . A Frente de Massa teria uma atuação semelhante
à Frente Guerrilheira e atuaria nos setores estudantil,
operário, camponês e eclesiásticos, e deveria
desenvolver ações armadas .
Participação dos Frades Dominicanos no AC/SP
No início de 1968, Frei Augusto de Rezende Júnior
liderou diversas reuniões dentro do Convento dos
Dominicanos, na Rua Caiubi, 126, em São Paulo.
Participavam das reuniões:
frei Carlos Alberto Libânio Christo ( frei
Beto);
frei Fernando de Brito ( frei Timóteo Martins );
frei João Antônio Caldas Valença( frei Maurício );
frei Tito de Alencar Ramos;
frei Luiz Felipe Ratton;
frei Magno José Vilela; e
frei Francisco Pereira Araújo ( frei Chico).
Essas reuniões visavam uma tomada de posição política,
que levou à adesão de vários religiosos ao AC/SP.
O clero já começara a se entrosar com as organizações
subversivo-terroristas antes dessas reuniões. Além do
AC/SP, frei Beto, um dos mais atuantes dominicanos no
apoio à luta armada já entrara em contato com a
Vanguarda Popular Revolucionária - VPR , por meio de
Dulce de Souza Maia.
O apoio dos religiosos para com as organizações
subversivo-terroristas era o resultado de um longo
processo da penetração do marxismo-leninismo no meio da
igreja.
O engajamento dos dominicanos foi total. Frei Osvaldo,
frei Ivo, frei Ratton, frei Tito e frei Fernando fizeram
levantamentos em áreas onde havia atritos fundiários e
onde os subversivos pudessem acirrar os conflitos e a
luta de classe no campo.
Por medidas de segurança, o trabalho de cada um passou a
ser compartimentado. Frei Ivo , “ Pedro”, passou a
exercer as funções de motorista de Frei Osvaldo,
“Sérgio” ou “Gaspar I” , nos contatos com Marighela;
frei Magno, “ Leonardo”, mantinha contato com Joaquim
Câmara Ferreira, o “Toledo”; e frei Beto, “Vitor” ou
“Ronaldo”, ficou com o sistema de imprensa ( O
Guerrilheiro)
Participação do Movimento Estudantil no AC/SP
Rapidamente as idéias de Marighela foram penetrando no
meio estudantil e ganhamndo adeptos em várias cidades .
Inúmeras lideranças surgiram.
A partir de março de 1968 o AC/SP estabeleceu contato
com o Grupo Corrente, de Minas Gerais, liderado por
Mário Roberto Galhardo Zanconato , o “ Xuxu”, Em
Brasília, em torno de Luís Werneck de Castro Filho e
José Carlos Vidal, o “Juca” que fora apresentado a
Marighela por Flávio Tavares que já era seu contato, no
Rio de Janeiro .
As atividades criminosas do grupo, iniciadas no começo
de 1968, encerrariam o ano no dia 17 de dezembro, com
uma bomba que explodiu, às 2 horas da madrugada, no
Monumento dos Aviadores da 2ª Guerra Mundial, na Praça
14-Bis, em São Paulo. No local foi deixado um suplemento
do Jornal “O guerrilheiro”, com uma “Mensagem aos
Brasileiros”, assinada por Carlos Marighela.
Muitos estudantes, ligados ao AC/SP , alguns já com
curso de técnicas de guerrilha em Cuba, largaram as
passeatas, as escaramuças de rua, as invasões de
faculdades , os quebra-quebras , trocaram os livros
pelas armas e explosivos e passaram a fazer parte de um
dos grupos ( eram cerca de 29 as organizações ) mais
violentos que atuaram na luta armada, a Ação Libertadora
Nacional - ALN .
Capítulo IV
AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL – ALN
Em janeiro de 1969, o Agrupamento Comunista de São Paulo - AC/SP- , usaria pela
primeira vez o nome de Ação Libertadora Nacional - ALN-, no documento “Sobre
Problemas e Princípios Estratégicos”. Este seria o nome utilizado a partir daí
pela organização orientada por Marighela. Neste ano a ALN procurou, por meio
de vários documentos fixar estratégias, táticas e transmitir técnicas de
guerrilha a toda sua estrutura a nível nacional.
Marighela, em seus documentos considerava que todos os grupos ou
revolucionários isolados, que defendessem os princípios básicos da ALN ,
seriam considerados vinculados à organização, embora fossem livres para
executar os atos revolucionários que planejassem.
As operações mais complexas, que exigissem um efetivo maior, seriam
articuladas pela Coordenação, que planejaria a atuação em conjunto com outro
grupo da própria ALN ou “em frente” com outras organizações terroristas.
Criticava as organizações que buscavam evoluir na base do proselitismo e,
pregava sua evolução, sustentada pela ação. Em maio , foi difundido o documento
“ O papel da Ação Revolucionária na Organização” ,onde se lia o seguinte:
(...) “ sendo nosso caminho o da violência, do radicalismo e do terrorismo,
os que afluem à nossa organização não virão enganados, e sim, atraídos pela
violência que nos caracteriza.” (...)
Em agosto, Marighela difundiu “ O Minimanual do Guerrilheiro Urbano “ , que
se tornou o livro de cabeceira dos terrorista brasileiros e do mundo inteiro.
Em meados de 1969, o coordenador da ALN era Joaquim Ferreira Câmara, o “
Toledo”, visto que Carlos Marighela viajava, com freqüência, para coordenar o
estabelecimento de áreas estratégicas pelo interior do país.
Estava estruturada e bem organizada a ALN que passaria a agir com grupos
independentes entre si, mas que seguiam os princípios básicos estratégicos do
minimanual escrito por Marighela, o ideólogo do terror.
ASCENSÃO TERRORISTA EM SÃO PAULO
No início de 1969, a ALN sofreria importantes perdas em São Paulo. Em 26 de
janeiro, morria em tiroteio com a polícia um dos principais assessores de
Marighela, o coordenador do Grupo Tático Armado ( GTA), Marco Antônio Brás de
Carvalho, o “Marquito”, que foi quem metralhou o capitão americano Charles
Chandler, na frente de seus filhos. Ainda em janeiro, foram presos Argonauta
Pacheco da Silva, coordenador do curso de explosivos e João Leonardo da Silva
Rocha, membro do mesmo Grupo Armado.
No início de maio, a ALN realizou uma série de ações violentas.
No dia 7/5/1969 foi assaltado a Agência de Suzano, da União de Bancos
Brasileiros. Durante a fuga, os assaltantes travaram intenso tiroteio com a
polícia, com o saldo de 4 vítimas: morreu o investigador José de Carvalho, e
ficaram feridos os civis Antônio Maria Comenda Belchior e Ferdinando Eiamini que
passavam pelo local. O assaltante Takao Amano, ferido na coxa foi operado por
Boanerges Massa na casa do casal Carlos Henrique Knapp e Eliane Toscano
Zamikhoski, todos militantes da rede de apóio da ALN , em São Paulo.
Participaram desse assalto: Virgílio Gomes da Silva, Manoel Cyrillo de Oliveira,
Aton Fon Filho, Takao Amano, Ney da Costa Falcão e João Batista Zeferino Sales
Vani.
Ainda em maio, a ALN realizou um atentado a bomba na empresa “Allis-Chalmers”
, na Av. Água Branca, e um assalto à Joalheria Majô, na Alameda Jaú.
No dia 27 de maio, com a finalidade de realizar uma ação que ao mesmo tempo
buscava desmoralizar as forças de segurança, aumentar o arsenal da organização
e fazer propaganda da guerrilha, foi feita uma ação contra o 15º Batalhão da
Força Pública de SP , na Avenida Cruzeiro do Sul. Na ação morreu o soldado
Naum José Mantovani que se encontrava de guarda, fuzilado pelos terroristas, que
feriram também o soldado Nicácio Conceição Pupo. Atingido na cabeça pelos
disparos , o soldado Nicácio teve o cérebro atingido e ficou com seqüelas
serissimas. Participaram da ação: Celso Antunes Horta , Vírgilio Gomes
da Silva, Aton Fon Filho, Carlos Eduardo Pires Fleury, Maria Aparecida da Costa
e Ana Maria de Cerqueira César Corbisier.
Em 04 de Junho ,no assalto ao Banco Tonzan, na Avenida Penha de França,
durante a fuga dos terroristas, o soldado da Força Pública de São Paulo - FPESP
- Boaventura Rodrigues da Silva, foi morto a tiros e teve sua metralhadora
roubada.
Na ação o terrorista Francisco Gomes da Silva saiu ferido com um tiro nas
costas. Depois de ser atendido na casa de Carlos Knapp, devido a gravidade do
ferimento foi deixado pelos companheiros no hospital Boa Esperança, na estrada
de Itapecerica da Serra. A equipe médica de plantão , verificando que o
ferimento era a bala, resolveu denunciar o fato à polícia. Foi , no entanto
resgatado por Boanerges Massa , auxiliado por Eliana Toscano Zamikhoski e Paulo
de Tarso Venceslau. Os três roubaram uma ambulância, renderam os médicos e
retiraram o ferido , levando-o para a casa de praia da militante Sandra Brizola,
em Santos.
Continuando a série de ações criminosa, a ALN realizou uma série de assaltos
a bancos, supermercados, empresas de transporte coletivo e vários atentados a
bomba.
No dia 19 de setembro, a ALN realizou mais uma ação de propaganda armada,
desta feita contra a guarnição da rádio patrulha nº 21, que habitualmente
permanecia estacionada no Conjunto Nacional , na Avenida Paulista, SP. A
guarnição da RP era constituída de dois homens e nas suas proximidades ficava um
guarda-civil do policiamento ostensivo. Por volta das 22horas, após saltarem do
carro dirigido por Aton fon Filho , Virgílio Gomes da Silva, o comandante da
ação, Denison Luis de Oliveira e Manoel Cyrillo de Oliveira Neto dirigiram-se
para a viatura como se fossem solicitar uma informação. Ao mesmo tempo, Takao
Amano aproximava-se do guarda-civil. Takao, num gesto desnecessário de
prepotência rendeu o guarda e obrigou-o a colocar-se de joelhos à sua frente,
humilhando-o, ao exigir que lhe pedisse clemência. A trinca que se ocupava da
Rádio Patrulha ao imaginar ou pressentir uma tentativa de reação, disparou suas
armas para o interior da viatura. O soldado da FPESP Pedro Fernandes da Silva ,
atingido por vários disparos , um deles na coluna, ficou aleijado. Denílson e
Virgílio recolheram uma metralhadora e dois revólveres .38, enquanto Takao
recolhia um revólver .38 do tripudiado guarda-civil.
Para complementar a “ação revolucionária”, os dois primeiros espalharam
gasolina e incendiaram a Rádio Patrulha. Esta seria uma das últimas ações da ALN
em São Paulo, no ano de 1969.
Outras ações da ALN em 1969
16/06 - Atentado a bomba nos elevadores da CBI ;
23/06 – Assalto à empresa de ônibus Viação Leste-Oeste;
26/06 – Atentado à bomba contra uma subestação da Light, em Piquete;
08/07 – Assalto à agência do Banco do Brasil, Santo André.
12/07 – Assalto simultâneo ao União de Bancos Brasileiros e à Caixa Econômica
Federal, na Av. Guarapira, em Jaçanan;
15/07 – Primeiro assalto à Agência Bradesco na Rua Major Diogo;
24/07 – Assalto contra a União Cultural Brasil- estados Unidos, na Rua Oscar
Porto;
Final de julho – assalto ao Supermercado Pão de Açúcar , no bairro Pinheiros;
18/08 – Assalto à Agência do Banco Comércio e Indústria, av. São Gabriel;
24/08 – Atentado a Bomba contra agência da Light;
24/08 – metralhada a vitrina da loja Mappin, que expunha material alusivo à
semana do Exército;
29/08 – Assalto à Empresa Instrumental Berse Ltda, rua Agostinho Gomes;
06/09 - Atentado a bomba no Palácio Episcopal;
09/09 – Assalto à Agência do Banco Itaú-América, rua Pamplona;
22/09- Segundo assalto à Agência do Bradesco, na Rua Major Diogo
23/01 - Vasculhando o Orvil - Capítulo V
Atuação da Igreja junto à ALN / Guerra
Psicológica
Em 1969, a ALN cada vez mais se estruturava para expandir a
guerrilha por todo território nacional e para isso contava com o apoio
de setores do meio estudantil, operário e de alguns membros da
Igreja. Já dispunha de uma rede de atendimento médico, de uma casa de
recuperação no litoral, de área de homizio em Ribeirão Preto. Uma
dessas bases de apoio era a casa do industrial francês Jacques Emile
Frederic Breyton, na Rua Souza Ramos, 17, Vila Mariana, que era usada
para reuniões do comando da organização e festinhas de confraternização.
Já era grande o número de militantes que praticavam ações armadas
(assaltos, atentados a bomba, “justiçamentos”, seqüestros) e, simpatizantes,
que davam apoio aos subversivos (esconderijo, entrega de correspondência,
transporte de armas, tratamento de feridos, local para reuniões, etc).
Entre essas redes de apoio e sustentação os dominicanos do Convento
das Perdizes desempenhavam importante papel . O contato entre a ALN e os
frades era feito por Paulo de Tarso Venceslau, que acumulava as funções de
coordenador do setor logístico com essa função.
|
| Frei Beto |
Frei
Beto e a Subversão
Entre os dominicanos , Frei Beto era um dos mais atuantes na rede de
apoio à guerrilha. Tinha livre trânsito entre algumas organizações
subversivas ( Vanguarda Popular Revolucionária – VPR -, Movimento Armado
Revolucionário – MAR - e Aliança Libertadora Nacional – ALN-). Bastante
comprometido com a subversão, ao ser preso um militante da VPR, Frei
Beto, por medida de segurança, abandonou sua residência e com o
beneplácito do Provincial da Ordem , Frei Domingos Maia Leite, foi
transferido para o Seminário Dominicano Christo Rei, em São Leopoldo, no Rio
Grande do Sul, onde logo Marighela lhe determinaria novas missões. Seria o
encarregado do esquema de fuga e passagem de militantes clandestinos pela
fronteira para o Uruguai.
O sistema funcionou. Frei Beto recebia ligações telefônicas de São
Paulo, feitas por Frei Fernando, avisando-o que ia ser contatado. Usando
senhas combinadas, encontrava o militante em São Leopoldo e o alojava na
Igreja da Piedade. De São Leopoldo era transportado para Santana do
Livramento, fronteira com o Uruguai, de onde seguia para Montevidéu .
Por lá, apoiados por Frei Beto, sairam do Brasil : fugitivos; militantes
que iam fazer curso de guerrilha em Cuba; e guerrilheiros que iam manter
contatos com outros militantes em países da América do Sul - Chile,
Argentina -, para que novas operações fossem planejadas e realizadas na
volta ao Brasil.
Com esse apoio foram retirados do país, entre outros: José Roberto
Arantes Almeida, Carlos Henrique Knapp, Eliane Toscano Zamikhowski, Joaquim
Câmara Ferreira, Ana Maria Soares Palmeira, Sebastião Mendes Filho e Arno
Preiss. Uma operação dessas que não deu certo foi a de Joseph Berthold
Calvert que foi preso na fronteira, em 26 de outubro, não conseguindo
atingir o Uruguai.
Muitos foram os religiosos, ligados aos dominicanos, que se
envolveram com a luta armada, entre eles, além dos já citados:
Frei Osvaldo
Frei Ivo
Frei Bernardo Catão
Frei Giorgio Calegari
Frei João Antonio de Caldas Valença
Frei Roberto Romano
Frei Tito de Alencar Lima
Padre Veríssimo
Padre Manoel Vasconcellos Valiente
Padre Marcelo Pinto Carvalheira
Seminarista Francisco Castro
|
| Marighella |
Ações psicológicas
Marighela tentava despistar o financiamento vindo de Cuba, e justificava
os recursos da organização, como conseguidos unicamente por meio de
assaltos a bancos.
Usando a tática da guerra psicológica, com o objetivo de atemorizar a
população e desmoralizar as forças de repressão, eram freqüentes os ataques
a sentinelas de quartéis, viaturas e radiopatrulhas. Embora esses soldados
e policiais militares estivessem em dupla, apanhados de surpresa, era fácil
desarmá-los, queimar as viaturas, tomar-lhes as armas e humilhá-los na
frente da população. Algumas vezes, num requinte de crueldade, alguns
eram mortos, depois de desarmados. A repercussão desses fatos, inexistentes
naquela época, visava criar o medo e a demonstrar o poder da organização
subversiva e a ineficiência dos meios de repressão. Essas ações não tinham
objetivo maior do que a propaganda da luta armada.
Bombas explodiam frequentemente. No dia 25 de junho, foi colocada uma
bomba na barraca do Exército, instalada na feira do livro, na Praça Saens
Peña, no Rio de Janeiro. Felizmente, para a multidão de inocentes que
visitava a feira, por uma falha no mecanismo, a bomba não detonou.
Continuando a guerra psicológica, em 15 de agosto, um comando da ALN, de
doze elementos, tomou de assalto os transmissores da Rádio Nacional, em
Piraporinha, no município de Diadema, SP. Nessa ação, além de tomarem o
revólver do guarda Raymundo Salustiano de Souza, espancaram o operador
chefe Libório Schuck. Na ação os terroristas colocaram no ar uma fita
gravada por Gilberto Luciano Beloque, com um manifesto de Marighela. Na
mensagem, Marighela conclamava os militantes para o prosseguimento e
intensificação das ações terroristas na cidade. Segundo sua teoria, se as
tropas se mantivessem ocupadas desviariam a atenção da zona rural, onde a
guerrilha começava a ser implantada.
Ainda em agosto, a vitrine do Mappin foi metralhada , por expor uma
homenagem ao Exército.
Prosseguindo suas atividades de guerra psicológica, a ALN enviou às
autoridades de São Paulo, dias antes do 7 de setembro, um manifesto
exigindo que fossem suspensas todas as solenidades da Semana da Pátria no
Vale do Anhangabaú. A organização ameaçava realizar atos terroristas contra
a população, responsabilizando as autoridades pelo que ocorresse.
Era raro o dia em que, em São Paulo , uma ou outra organização não
praticasse atos de terrorismo ( ataques a ônibus , viaturas militares,
depredação de bens públicos, atentados a bombas , panfletagem armada em
favelas, universidades, etc.). A população , acostumada com a tranqüilidade
daquelas décadas, estava atemorizada.
Os jornais, defrontando-se com essa nova situação de insegurança,
publicavam editoriais , como o transcrito abaixo :
“Consciência Geral
O desvario terrorista não mede conseqüências. Pouco lhe
importa as vítimas que vai deixando pelo caminho, desde que atinja os seus
objetivos imediatos de precário rendimento contestatório. Este é um dos seus
aspectos mais cruéis: a insensibilidade com que, nos seus transbordamentos,
envolve, de repente, o homem de rua, o transeunte pacato, a mãe que leva o
filho consigo.
A ação terrorista não se limita a entrechoques eventuais com
agentes da lei. É uma guerra declarada à sociedade, na medida em que,
criando um clima geral de insegurança, arrisca vidas anônimas.
O repúdio da família brasileira ao terrorismo, manifestado
desde seus primórdios no País, não a isenta, infelizmente, de uma
participação maior no quadro geral das responsabilidades convocadas para
combatê-lo. Da mesma forma, não a impede de, eventualmente, sofrer na
própria pele os efeitos dessa luta.
No momento em que as ruas se transformam em palco de
escaramuças sangrentas, com o sacrifício até de crianças e mães de família
habituadas a uma paz de espírito agora ameaçada, cabe a todos nós reforçar
conceitos de deveres e responsabilidades em função da tranqüilidade
coletiva. A consciência geral terá de despertar com urgência para a triste
constatação de que está diante de uma ação alucinada de grupos minoritários
que requer medidas especiais de resguardo.
A família brasileira precisa colocar-se à altura desse
instante inquietador que não deve e não pode perdurar, não obstante a soma
atual de maus presságios. E somente será digna dessa nova convocação quando
começar no ambiente dos seus lares a tarefa geral de pacificação dos
espíritos e desarme das atitudes radicais fundamentadas no ódio.”
Jornal do Brasil - 14/03/1970.
Fontes: Orvil e
A Verdade Sufocada - A história que a esquerda não quer que o Brasil conheça
10/02 - VASCULHANDO O ORVIL - Capítulo VI
Expansão da ALN - 1969
Em 1969 a ALN já atuava no Rio de Janeiro (Guanabara), em Ribeirão
Preto, no Ceará, Recife , Goiás e Distrito Federal. O projeto da
organização era expandir os focos de guerrilha por todo o Brasil. Em
Ribeirão Preto e no Ceará, inicialmente, os grupos que aderiram à ALN,
não obtiveram muito sucesso. Em Ribeirão Preto, alguns atentados a bomba
e assaltos a banco foram frustrados. O grupo não conseguiu desenvolver
nenhuma ação de vulto e no início de novembro, com prisões em São Paulo,
Ribeirão e cidades vizinhas, foi desbaratado. No Ceará a ALN
estruturou-se a partir da dissensão de militantes do PCB. Esse grupo,
inicialmente, também, não obteve muito sucesso.
Atuação da ALN em Brasília e Goiânia
Desde
o segundo semestre de 1968, Edmur Péricles de Carvalho foi enviado para o
Distrito Federal, por Marighela,
com a finalidade de ser o responsável pelo levantamento de áreas para
implantação da guerrilha rural nos estados de Goiás e Minas Gerais. No
início de 1969, os levantamentos no campo já estavam prontos e Edmur
aguardava instruções da direção da ALN para o prosseguimento das atividades
ligadas à guerrilha rural.
Em
agosto de 1969, Jeová Assis Gomes foi enviado de São Paulo a Brasília, por
Joaquim Câmara Ferreira, “Toledo” - segundo homem da organização -, para
contatar com José Carlos Vidal. Nesses contatos ficou decidido o
deslocamento do grupo para Goiânia e Anápolis. A idéia inicial era formar
uma rede de apoio para a futura guerrilha rural.
Marighela, enviou dinheiro e Jeová arrendou a Fazenda Imbira, na rodovia
Goiânia - Neropólis, onde o grupo realizava treinamento de tiro e de
guerrilha.
A
adesão do soldado do Exército Paulo César Lopes da Silva Rodrigues ao grupo
que atuava em Brasília, rendeu dividendos à ALN. Ao desligar-se do Batalhão
de Polícia do Exército de Brasília, Paulo César retirou duas metralhadoras
INA , que foram aumentar o arsenal da organização subversiva. Foram
entregues, também por ele, à organização subversiva, uma relação de nomes de
oficiais do BPEB e um croquis da unidade.
Em
setembro e outubro, em função das investigações sobre o desaparecimento do
menor Carlos Gustavo do Nascimento, foi descoberta a trama subversiva e foi
desmantelada a ALN em Brasília e em Goiânia. Ficou constatado que o menor
estava, em Brasília, na casa de um diplomata que, na ocasião, servia na
embaixada do Brasil na Romênia. Na realidade o menor estava homiziado nessa
casa , que servia de “aparelho” para a ALN. Com as diligências foram presos
Marcos Estelita Lins de Salvo Coimbra, Gastão Estelita Lins de Salvo
Coimbra, Benedito José Cabral e Ricardo Moreira Pena. O grupo preso tinha
em seu poder uma metralhadora INA e 10 revólveres de diversos calibres, que
eram utilizados nos treinamentos, além de munição.
Esse
fato ocasionou outras prisões em Brasília. Dentre os presos, apenas um
jornalista - Flávio Tavares - e um pedreiro. O restante, jovens
universitários egressos da UNB. Com eles, foi apreendido farto armamento O
plano do grupo era desencadear ações de guerrilha no norte de Goiás,
enquanto São Paulo era mantido como área prioritária para as ações de
guerrilha urbana.
As ações da ALN na Guanabara ( atual Rio de Janeiro )
No
Rio de Janeiro ( Guanabara), os militantes da ALN iniciaram a preparação
para a guerrilha. Do início do ano até abril, limitaram-se a treinamentos e
distribuição de textos de Marighela.
Em
função da ligação que tinham com o líder da ALN, João Batista e Zilda de
Paula Xavier Pereira eram considerados os coordenadores da organização na
Guanabara.
Em
março, um grupo de estudantes, liderados por Carlos Eduardo Fayal de Lira,
resolveu ingressar na ALN. Faziam parte desse grupo: Ronaldo Dutra Machado,
Newton Leão Duarte, Flávio de Carvalho Molina, Frederico Eduardo Mayr, Jorge
Wilson Fayal de Lira e Jorge Raimundo Júnior.
A
primeira ação da ALN na Guanabara foi um assalto ao Cine Ópera, em Botafogo,
em 27 de abril de 1969. A tentativa foi frustrada pelo guarda Antônio
Guedes de Moraes que reagiu , dando início a intenso tiroteio. Surpreendidos
com a reação, os cinco terroristas fugiram sem conseguir efetuar o roubo,
deixando o guarda seriamente ferido.
O
fracasso da ação provocou a ida de Frei Oswaldo Augusto de Rezende Júnior (
“Cláudio”) , orientador dos dominicanos em São Paulo, para o Rio de Janeiro,
com a finalidade de estruturar a organização. Com o reforço de Fayal e o
assessoramento de frei Oswaldo, a ALN/GB reiniciou suas atividades. Já mais
preparados, no dia 12 de junho, assaltaram a agência Uruguai, do Banco Boa
Vista. O levantamento, a título de ensinamento, foi feito pelo próprio Frei
Osvaldo, assessorado por Valentim Ferreira. O assalto, comandado por
Domingos Fernandes, foi um sucesso.
Confiantes, a partir dessa ação, a ALN/GB realizou os seguintes assaltos no
ano de 1969:
08/07 - A agência São Cristóvão do Banco de Crédito Territorial, Rua Bela
Vista, 597;
12/07
- Agência de automóveis Novocar, Rua Uruguai, 234;
29/07 - Agência Sans Peña do Banco do Estado de Minas Gerais, Rua Carlos de
Vasconcelos;
Faziam parte do bando assaltante: Dulce Chaves Pandolfi, Carlos Roberto
Nolasco Ferreira e Nelson Luis Lott de Morais Costa.
As
prisão de Newton Leão Duarte e Jorge Wilson Fayal de Lira geraram uma crise
de insegurança na regional da ALN. O caminho escolhido foi a
clandestinidade. O grupo conseguiu um “aparelho” na rua Mourão do Vale, em
São Cristóvão , que além de servir de esconderijo para os militantes, era
usado como depósito de armas da organização.
No
rastro da ALN, a polícia chegou a Zilda de Paula Xavier Pereira, que, presa
e posteriormente internada no Hospital Pinel, acabou fugindo para o
exterior.
Os
militantes, “ queimados “ em suas áreas de atuação eram constantemente
transferidos, para não serem presos. Do Rio foram, transferidos para São
Paulo: Sebastião Mendes Filho e Joseph Berthold Calvert. Este último,
posteriormente, foi transferido para São Leopoldo, de onde seria retirado
do país, mas foi preso na fronteira com o Uruguai. De São Paulo vieram para
o Rio, Aton Fon Filho e Maria Aparecida Costa.
"As ações de violência , praticadas por 29
organizações diferentes, atemorizavam a população, mas já não causavam o
impacto desejado, pela freqüência com que aconteciam.
Franklin de Souza Martins, da direção da
Dissidência da Guanabara (DI/GB), propôs uma ação inédita. Sugeriu
um seqüestro.
Estudados os alvos, concluiu-se que o de maior
repercussão seria o de um embaixador. A idéia foi logo aprovada por Cid
Queiroz Benjamin, da Frente de Trabalho Armado (FTA), um dos setores da
DI/GB.
Após reuniões, decidiram que o alvo ideal, que
teria repercussão nacional e internacional, seria o embaixador dos EUA,
Charles Burke Elbrick. O objetivo principal do seqüestro, além de destacar a
guerra revolucionária por meio da propaganda e de tentar a desmoralização do
governo, era libertar os principais líderes do movimento estudantil que se
encontravam presos.
Franklin de Souza Martins estivera preso com
Vladimir Gracindo Soares Palmeira (Marcos), José Dirceu de Oliveira e Silva
(Daniel), militante da ALN, e Luíz Gonzaga Travassos da Rosa, militante da
AP.
A direção da DI/GB, após os planejamentos
iniciais, concluiu que seria necessária a participação de outra organização,
com maior experiência, para apoiá-la nessa empreitada. A ALN, dispondo de
gente com treinamento em Cuba, já que os seus primeiros militantes haviam
regressado ao Brasil - tendo realizado cerca de trinta assaltos a bancos e
carros pagadores, duas dezenas de atentados a bombas, roubos de armas,
“justiçamentos”, ataques a quartéis e radiopatrulhas -, foi considerada pela
direção da DI/GB como a parceira ideal para tão audaciosa ação. Ajudava
muito na decisão pela ALN a figura de Marighella que, pelos seus textos,
incentivando a iniciativa e a violência, os levava a supor que conseguiriam
o seu apoio para o seqüestro.
Em julho de 1969, Cláudio Torres da Silva (Pedro
ou Geraldo), também membro da FTA, recebeu a incumbência da direção da DI/GB
de contatar com Joaquim Câmara Ferreira (Toledo ou Velho), segundo homem na
hierarquia da ALN, para conseguir o seu apoio. Toledo aprovou a idéia
imediatamente.
O período escolhido foi a Semana da Pátria, para
esvaziar as comemorações do Sete de Setembro.
No dia 4 de setembro, a nação foi surpreendida com o
primeiro seqüestro no país. “Em frente” com a Dissidência da Guanabara -
DI/GB , que depois do seqüestro passaria a chamar-se MR-8 a ALN praticaria
o primeiro seqüestro de um embaixador. O escolhido Charles Burke Elbrick, dos
Estados Unidos da América."
(Trecho do livro: "A Verdade Sufocada - A história que a esquerda
não quer que o Brasil conheça")
O objetivo foi
plenamente atingido. A imprensa nacional e estrageira deu grande cobertura
ao fato.
No
dia 9 de setembro a ALN realizou mais uma ação audaciosa para
“expropriação” de armas. Nesse dia, em dois Volkswagen, a ALN atacou dois
soldados da Polícia Militar do Estado da Guanabara ( PMEG) que armados de
metralhadora , patrulhavam as dependências da TV Excelsior. Rendidos os
soldados Sérgio Rodrigues Teixeira e Hélio Guimarães Monteiro tiveram suas
metralhadoras roubadas e incorporadas ao arsenal da ALN. O soldado Sérgio
Rodrigues Teixeira foi ferido na cabeça, com violenta coronhada, desferida
por Ronaldo Dutra Machado.
Em
agosto, Ronaldo Dutra Machado recebeu de Marighela a incumbência de fazer
contato com um grupo em Recife e cooptá-lo para a ALN. O contato foi feito
com Francisco Vicente Ferreira, o líder do grupo, e o convenceu a atuar
dentro da orientação de Marighela. Ronaldo voltou ao Rio , mas continuou
como coordenador das atividades no nordeste. Ainda em 1969, a ALN começou a
estruturar-se em Recife, tendo como coordenador Ronaldo Dutra Machado .
Em
outubro novo contato foi feito, no nordeste, por Ronaldo. Os contatos foram
feitos com Rholine Sonde Cavalcanti Silva, Luciano Almeida , Perly Cipriano
e Maurício Anísio de Araújo. Como o grupo aumentava, Ronaldo se
estabeleceu em Recife, junto com Dulce Chaves Pandolfi para impulsionar os
atos criminosos da organização e juntamente com o grupo assaltou a agência
do Banco Financial, em Jaboatão.
No
Rio, foi presa Maria Aparecida Costa, em companhia de Valetim Ferreira.
Valetim, estudante de 18 anos, guardava em sua casa, na rua das Palmeiras
77, casa 4 , um fuzil Mauser , munição, um mimeógrafo e vários estênceis
prontos para rodar. Era o “aparelho “ de imprensa da organização
Em
decorrências dessas prisões, foram presos Aton Fon Filho e Linda Tahyah. Em
dezembro foram presos: Tânia Regina Rodrigues Fernandes, Pedro Henrique e
Alfredo de Miranda Pacheco ( irmãos, que facilitavam a saída, de militantes
que, com nomes falsos , iam fazer curso de guerrilha em Cuba.
A ALN,
em 1969, praticou cerca de 30 assaltos somente no Rio de Janeiro . Entre
eles os seguintes:
27/08
- Agência Catete do Banco Novo Mundo;
25/09
– Agência Bonsucesso do Banco de Crédito Territorial;
15/10
- Agência da Rua Bela vista do Banco da Bahia;
29/11
– Firma Construtora Presidente, Rua Mayrink Veiga
05/12
– Agência Castelo do Banco Bordalo Brenha; e
16/12
– Agência Méier do Banco da Bahia.
Fontes: Orvil
04/03 - VASCULHANDO O ORVIL -
Capítulo VII
ALN – As “quedas” em São Paulo
Pela editoria do site
www.averdadesufocada.com
O início de 1969 foi de prisões e "quedas". No dia
07/05, dia em que assaltava a União de Bancos Brasileiros,
em Suzano, a ALN sofreria três “quedas” . Seriam presos, na
esquina das ruas Mirassol, em São Paulo, os militantes
Rolando Fratti, Alexandre Malavazzi e José Jofre de Farias.
A partir de agosto, a ação dos Órgãos de Segurança
atingiria profundamente a organização, mas ela
continuava com suas ações.
Em agosto, o grupo de José Wilson Lessa Sabag assaltou o
Curso Objetivo, de onde levou 8 mil cruzeiros novos em
dinheiro e 12 mil em cheques, que foram depositados na conta
de "Luiz Rodolfo Goldman" (nome falso de Antenor Meyer).
Para verificar se os cheques haviam sido compensados, e se a
conta falsa funcionava, no início de setembro, os militantes
resolveram comprar um gravador, na loja Lutz Ferrando na
esquina das ruas São Luiz com Ipiranga.
A mercadoria ficou retida na loja, até o cheque de "Luiz
Rodolfo Goldman" ser descontado, podendo ser retirada no dia
seguinte.
O que eles temiam aconteceu: a loja foi comunicada de que
os cheques depositados na conta eram roubados e que se os
compradores voltassem para retirar a mercadoria , a polícia
deveria ser avisada.
Confiando na sorte, no dia seguinte, em um Volks, Antenor
Meyer, José Wilson Lessa Sabag , Francisco José de Oliveira
e Maria Augusta Thomaz resolveram ir buscar o gravador. José
Wilson e Francisco entraram na loja. Antenor ficou ao
volante. Maria Augusta, de pé na calçada. Três guardas
já estavam nas proximidades, em vigilância, aguardando a
possível chegada dos assaltantes. Dizendo que ia apanhar o
gravador no depósito o vendedor alertou os guardas.
Ao dar voz de prisão aos terroristas, foi iniciado
intenso tiroteio. O guarda civil João Szelacsok Neto ficou
ferido na coxa e o funcionário da Lutz Ferrando, José
Getúlio Borba, veio a falecer em conseqüência dos
ferimentos. Maria Augusta fugiu a pé. Sabag, ferido no
braço, e Francisco conseguiram entrar no carro dirigido por
Antenor que arrancou rapidamente em direção à rua da
Consolação.
Retidos em um sinal vermelho, logo foram alcançados. Os
três, abandonaram o carro. Francisco conseguiu fugir do
local. Sabag e Antenor, sempre perseguidos pelos guardas,
que já tinham como reforço um soldado da Força Pública do
Estado de São Paulo, correram para o edifício da Rua
Epitácio Pessoa, nº 162, e se refugiaram no apartamento 46 ,
onde morava Roberto Ricardo Cômodo, apoio de Antenor.
Com o prédio cercado, Antenor propôs a Sabag que se
entregassem, não sendo atendido. José Wilson Lessa Sabag,
fanatizado pelas idéias de Marighela, resolveu resistir até
a morte, como sugeria o Mini Manual do Guerrilheiro Urbano.
Roberto Cômodo tentou fugir, descendo as escadas. Foi preso
sem resistência. Antenor tentou a fuga passando de um
apartamento para outro. Desesperado, ao chegar ao 7º andar,
tentou escapar descendo por um encanamento de água existente
do lado de fora do prédio. No 4º andar, não agüentando o
peso do corpo, estatelou-se na área interna, sendo preso com
uma perna e a bacia fraturada. José Wilson, encurralado,
recebeu a tiros e matou o soldado da FPESP João Guilherme de
Brito, quando o apartamento foi invadido. Ainda tentou furar
o cerco, atirando para todos os lados, sendo morto no local.
Carlos Eduardo Pires Fleury assumiu o controle do grupo
de ação de José Wilson Lessa Sabag.
Mesmo com as "quedas" e a morte de Sabag, a violência
não podia parar. No dia seguinte, 04/09/1969, já estava
planejado um atentado a bomba, de grande vulto, que jamais
se conseguiu saber onde seria executado. Pela manhã, bem
cedo, Ishiro Nagami , que se havia ligado ao grupo de Sabag,
ao conduzir uma poderosa bomba no Volkswagen azul, placa
44-52-77, para mais um atentado, foi surpreendido com a
explosão do petardo, morrendo estraçalhado, junto a outro
terrorista que, desintegrado com a explosão, somente viria a
ser identificado, tempos depois, como Sérgio Roberto
Correa.
A explosão ocorreu às 05.45 horas, em frente ao nº 758 da
Rua da Consolação, esquina com a Rua Maria Antônia.
O final de setembro seria melancólico para a ALN, em São
Paulo. No dia 24, elementos do Grupo Tático Armado (GTA)
foram surpreendidos na Alameda Campinas, quando iam apanhar
dois carros roubados para praticar ações. A resistência à
prisão foi violenta, como de costume. Após cerrado tiroteio
foram presos, feridos, Takao Amano, Luís Augusto Fogaça
Balboni e Carlos Lichtszejn. Luís Fogaça , levado ao
Hospital das Clínicas, não resistiu aos ferimentos e faleceu
.
Em conseqüência dessas prisões, em uma semana, foi
desbaratado o GTA da ALN e parte do setor de apoio. Foram
presos: João Katsonomu Amano, Francisco Gomes da Silva,
Antônio Carlos Fon e Maria Aparecida dos Santos. O
coordenador do GTA, Virgílio Gomes da Silva, reagiu à
prisão e veio a falecer, em conseqüência dos ferimentos.
Celso Antunes Horta foi preso no dia 29 de setembro ao “
cobrir ponto” com Francisco Gomes da Silva. Também, em 30
de setembro, foram presos por indicação de Francisco: Ilda
Martins da Silva, e Manoel Cyrillo de Oliveira Netto.
Pouco a pouco, foram "caindo". No dia 30 de setembro foi
preso Carlos Eduardo Pires Fleury. O dono da casa onde ele
se homiziava, José Paulo Reis, Oficial R2, também foi preso
e confessou que a casa era um "aparelho" da ALN, onde eram
guardadas armas e munições, além de esconder militantes.
Nesse mesmo dia foram presos José Luiz Novaes Lima e Gontran
Guanaes Netto, ambos do setor de apoio.
Ainda no dia 30 de setembro, Márcio Beck Machado, do
setor de apoio, foi preso na Rua Maria Antônia , em frente
à Universidade Mackenzie. Quando era conduzido para a
viatura policial, três elementos que faziam sua cobertura,
começaram um intenso tiroteio, que feriu o agente Cláudio
Ernesto Canton, que não resistiu aos ferimentos.
Aproveitando a confusão e o momento de atendimento ao
agente, Márcio e os demais militantes aproveitaram para
fugir.
No dia 1º de outubro foram presos Paulo de Tarso
Venceslau, coordenador do setor de apoio, e Abel Bella.
Ainda em outubro também "cairam" : Carlos Alberto Lobão
da Silveira Cunha e Denílson Luiz de Oliveira, remanescentes
do grupo de Takao Amano.
Essas ações fulminantes dos Órgãos de Segurança
resultaram na prisão de 19 terroristas e no “ estouro” de 12
“aparelhos”. O grupo de ação de Takao Amano foi todo preso.
O grupo de Carlos Eduardo Pires Fleury, sem seu líder,
também sofreu muitas “quedas”. Outro grupo desbaratado foi o
de Vírgilio Gomes da Silva, que com sua morte ficou sem sua
indiscutível liderança. Assim , em 1969, a ALN , bastante
desestruturada em São Paulo, levou alguns militantes como
Aton Fon Filho e Maria Aparecida da Costa a fugirem para o
Rio de Janeiro, o que iria reforçar bastante a estrutura da
ALN naquela cidade.
Vários terroristas dos GTA de São Paulo, por problemas
de segurança devido às últimas “quedas”, fugiram para o
Uruguai.
Esses elementos, após esbanjarem o dinheiro dos assaltos
praticados, hospedando-se em hotéis de luxo, e fazendo
turismo, dirigiram-se para Buenos Aires, onde em 04/11/69,
seqüestraram o Boeing 707 da Varig, prefixo PP-VJX, que
fazia o vôo Buenos Aires - Santiago (Chile).
Com nomes falsos, chefiados por Adalberto Mortati, 8
terroristas, entre eles Rui Carlos Vieira Berbet, Maria
Augusta Thomaz, Lauriberto José Reys e Marcílio César Ramos
Krieger obrigaram o piloto a desviar o avião para Cuba.
Durante o seqüestro ameaçaram os passageiros com armas e
bombas e distribuíram panfletos.
Em Cuba, aproveitaram para fazer cursos de guerrilhas,
proporcionado por Fidel Castro aos militantes de
organizações subversivas. Assim voltariam ao Brasil mais
preparados para continuar sua luta insana.
Com as “quedas” do segundo semestre de 1969, foi
desmantelado o restante do setor e chegou-se aos frades
dominicanos. Foram presos: frei Fernando e frei Ivo, frei
Tito e frei Jorge; Carlos Guilherme penafiel, ex-repórter da
Folha da Tarde, responsável pelas fotos para documentos
falsos; João Antônio Caldas Valença , ex- frei Maurício,
responsável pelo setor de imprensa; o casal Luis Roberto
Clauset e Rosemeire Nogueira Clauset, ele ex-diretor da
Folha da Tarde; Roberto de Barros Pereira, engenheiro do
metrô, que registrou um carro da organização em seu nome;
Manoel Carlos Guimarães Morais, engenheiro, que emprestou o
carro para levar Joaquim Câmara, Ferreira "Toledo" ao
Uruguai, depois do seqüestro do embaixador americano; e
Genésio Homem de Oliveira, que emprestava sua casa para
reuniões de “Toledo” e escondia terroristas. Os dominicanos
também entregaram o esquema de fuga para o Uruguai,
propiciando a prisão de frei Beto no Rio Grande do Sul.
Mas a perda pior, da ALN e da própria subversão, de um
modo geral, foi a morte Carlos Marighela, narrada
no Capítulo VIII. Marighela seria substituído no comando
por Joaquim Câmara Ferreira, " Toledo" . A ALN , com novos
elementos, logo voltaria a atuar com força total.
07/04 -
Vasculhando o Orvil - Capítulo VIII
Carlos Marighela nasceu em Salvador, Bahia, em
05/12/1911. Sua trajetória revolucionária remonta à
década de 30. Em 1932 ingressou na Juventude Comunista e
na Federação Vermelha dos Estudantes. Participou
ativamente da Intentona Comunista. Em 1936 abandonou o
curso de engenharia e, cumprindo ordens do partido, foi
para São Paulo reorganizar o Partido Comunista
Brasileiro - PCB.
Em 1939, foi preso pela terceira vez e encaminhado para
Fernando de Noronha. Na prisão, dava aulas de formação
política aos detentos.
Em 1945, a anistia, assinada por Vargas, devolveu a
liberdade aos presos políticos. Marighela, nesse ano, foi
eleito deputado federal. No governo Dutra o Partido
Comunista voltou à ilegalidade e passou a agir
clandestinamente. Em 7 de janeiro de 1948, os mandatos dos
parlamentares do PCB foram cassados.
Na clandestinidade, de 1949 até 1954, Marighela atuou na
área sindical, aumentando a influência do partido, sendo
incluído na Comissão Executiva e no Secretariado Nacional,
órgãos dirigentes do PCB.
No Manifesto de Agosto de 1950, Marighela já pregava a
luta armada, conduzida por um Exército de Libertação
Nacional. Como membro da Executiva chefiou a primeira
delegação de comunistas brasileiros à China, em 1952. Ao
voltar, passou a trabalhar as massas para preparar a futura
revolução brasileira. no país. Insistiu na tese da luta
armada e na formação de um exército de libertação nacional,
tendo como modelo as idéias de Mao Tsé-tung e o Exército
Popular Chinês, que promoveu a revolução de 1949
O passo seguinte seria a penetração no meio estudantil.
Para isso, Marighela infiltrou-se, por meio de contatos, na
Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, onde doutrinava
professores e alunos. As sementes estavam sendo semeadas,
era só aguardar a colheita.
A influência da revolução cubana, que passou a servir de
modelo para muitos comunistas, contrariava as posições do
Movimento Comunista Internacional e do próprio PCB, mas
encantava revolucionários antigos, como Marighela e outros
que, atuando desde a década de 30, não viam como conquistar
o poder com uma luta de longo prazo. A tática de Fidel e Che
Guevara, defensores da estratégia foquista – pequenos focos
guerrilheiros -, passou a ser o modelo ideal para o Brasil.
Após a Contra-Revolução de 1964, Marighela foi preso em
um cinema, no Rio de Janeiro. Solto por um habeas-corpus,
impetrado por Sobral Pinto, passou a pregar abertamente a
adoção da luta armada, doutrinando operários e estudantes.
Em julho de 1967, foi convidado, oficialmente, para
participar da 1ª Conferência da Organização Latino-Americana
de Solidariedade (OLAS), onde se discutiria um caminho para
a difusão da luta armada no continente.
Desautorizado pelo partido e contrariando as linhas de
ação adotadas pelo PCB, Marighela embarcou para Havana com
passaporte falso. O evento reuniu revolucionários do mundo
inteiro. Na ocasião, o slogan era “Um, dois,
três, mil Vietnames”, outro exemplo de
guerrilha que dera certo.
Estando Marighela em Havana, o PCB enviou um telegrama
desautorizando sua participação e ameaçando-o de expulsão.
Em resposta ao telegrama, em 17 de agosto de1967,
Marighela enviou uma carta ao Comitê Central do PCB,
rompendo definitivamente com o partido. Em seguida, em outra
carta, deu total apoio e solidariedade às resoluções
adotadas pela OLAS. Nesse documento ele escrevia:
“No Brasil há forças revolucionárias
convencidas de que o dever de todo o revolucionário é fazer
a revolução. São estas forças que se preparam em meu país e
que jamais me condenariam como faz o Comitê Central só
porque empreendi uma viagem a Cuba e me solidarizei com a
OLAS e com a revolução cubana. A experiência da revolução
cubana ensinou, comprovando o acerto da teoria
marxista-leninista, que a única maneira de resolver os
problemas do povo é a conquista do poder pela violência das
massas, a destruição do aparelho burocrático e militar do
Estado a serviço das classes dominantes e do imperialismo e
a sua substituição pelo povo armado.”
Terminada a conferência, Marighela ficou alguns meses em
Cuba com a certeza do apoio de Fidel a um foco guerrilheiro
no Brasil. Em fins de novembro foi expulso do PCB.
De volta ao Brasil, incentivou a prática de assaltos,
seqüestros e atentados a bomba. Numa audaciosa ação, seus
asseclas ocuparam a Rádio Nacional no Rio de Janeiro, onde
colocaram uma gravação no ar, conclamando os revolucionários
do Brasil, onde quer que estivessem, a iniciar as ações
revolucionárias.
Logo depois, a partir de setembro de 1967, Marighela
iniciou o envio de militantes para curso de guerrilha em
Cuba. Na primeira leva - o chamado “I Exército da ALN” -
seguiram: Adilson Ferreira da Silva (Miguel); Aton Fon Filho
(Marcos); Epitácio Remígio de Araújo (Júlio); Hans Rudolf
Jacob Manz (Juvêncio ou Suíço); José Nonato Mendes (Pele de
Rato ou Pará); Otávio Ângelo (Fermin); Virgílio Gomes da
Silva (Carlos).
Marighela criou, juntamente com Joaquim Câmara Ferreira,
o Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP). O AC/SP ou
“Ala Marighela” expandia-se e atuava em vários estados. As
idéias de Marighela encontram no meio estudantil campo
fértil. Em pouco tempo, a Ala ganhou adeptos e várias
lideranças surgiram durante as agitações do movimento
estudantil. Logo depois, estabeleceu contato com Mário
Roberto Zanconato, líder do Grupo Corrente em Minas Gerais.
Em Brasília, Flávio Tavares, que já conhecia Marighela,
apresentou um membro da Corrente, “Juca”, a George Michel
Sobrinho, que passaria a ser o contato do AC/SP com os
grupos de Brasília. A partir daí, o movimento estudantil de
Brasília passou a agir pelas normas de Marighela.
Esse grupo, ainda em 1968, realizou treinamento de
guerrilha (tiros de revólveres e metralhadora INA e
experiências com explosivos) nas proximidades do Rio São
Bartolomeu. O AC/SP atuava também no Ceará e em Ribeirão
Preto.
Outras adesões viriam. No convento dos dominicanos, na
Rua Caiubi, nº 126, no bairro de Perdizes, São Paulo, vários
religiosos aderiram ao AC/SP. A adesão dos dominicanos ao
AC/SP e depois à ALN foi total. Eles seriam um apoio
importante para a ALN na guerrilha urbana e rural.
Luís Mir, em seu livro A Revolução Impossível, Editora
Best Seller, página 299, transcreve as seguintes palavras
de Frei Lesbaupin que confirmam a intenção desse apoio:
"A Igreja e os dominicanos deveriam entrar no
projeto revolucionário de forma organizada. Seríamos a linha
de apoio logístico para a guerrilha rural. Na cidade,
esconderíamos pessoas, faríamos transferências de armas e
dinheiro.”
Em meados de 1968, receberam a primeira missão dada por
Marighela: levantamento na Belém-Brasília, procurando áreas
estratégicas para instalar focos de guerrilha.
Marighela pregava:
“O princípio básico estratégico da
organização é o de desencadear, tanto nas cidades como no
campo, um volume tal de ações, que o governo se veja
obrigado a transformar a situação política do País em uma
situação militar, destruindo a máquina burocrático- militar
do Estado e substituindo-a pelo povo armado. A guerrilha
urbana exercerá um papel tático em face da guerrilha rural,
servindo de instrumento de inquietação, distração e retenção
das forças armadas, para diminuir a concentração nas
operações repressivas contra a guerrilha rural.”
"O terrorismo é uma arma a que jamais o
revolucionário pode renunciar"
"Ser assaltante ou terrorista é uma condição
que enobrece qualquer homem honrado"
Apoiado pela chegada do “I Exército da ALN”, treinado em
Cuba, Marighela liderou vários assaltos e atentados na área
de São Paulo, ainda em 1968. Intensificaram-se a seguir os
atos de terror: atentados a bomba, assaltos a banco,
seqüestros, assassinatos, “justiçamentos”, ataques a
sentinelas e radio-patrulhas, furtos e roubos de armas dos
quartéis.
Em 1969, Marighela difundiu o Minimanual do Guerrilheiro,
de sua autoria, que passou a ser o livro de cabeceira dos
terroristas brasileiros. O livreto foi traduzido em duas
dezenas de idiomas e usado por terroristas do mundo inteiro.
As Brigadas Vermelhas, na Itália, e o Grupo Baader-Meinhoff,
na Alemanha, seguiam seus ensinamentos.
Claire Sterling, em seu livro, A Rede do Terror - A
Guerra Secreta do Terrorismo Internacional, editora Nórdica,
referiu-se à importância do Minimanual de Marighela em
várias páginas de sua obra. Desse livro, transcrevo alguns
textos onde ela se refere ao Minimanual:
“... não matam com raiva: esse é o sexto dos sete pecados
capitais contra os quais adverte expressamente o Minimanual
de Guerrilha Urbana de Carlos Marighela, a cartilha-padrão
do terrorista. Tampouco matam por impulso: pressa e
improvisação o quinto e sétimo pecados da lista de
Marighela. Matam com naturalidade, pois esta é “a única
razão de ser de um guerrilheiro urbano” segundo reza a
cartilha. O que importa não é a identidade do cadáver, mas
seu impacto sobre o público.”
“... em primeiro lugar, escreveu Marighela, o
guerrilheiro urbano precisa usar a violência revolucionária
para identificar-se com causas populares e assim conseguir
uma base popular. Depois:
O governo não tem alternativa exceto intensificar a
repressão. As batidas policiais, busca em residências,
prisões de pessoas inocentes tornam a vida na cidade
insuportável. O sentimento geral é de que o governo é
injusto, incapaz de solucionar problemas, e recorre pura e
simplesmente à liquidação física de seus opositores.”
Morte de Marighela
Marighela começou a cair com a prisão de um militante de
sua organização, preso no dia 1º de outubro. Os dados
fornecidos