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Opinião - Degradação venerável
Olavo de Carvalho
Num artigo publicado semanas
atrás (www.olavodecarvalho.org/sema na/080314dce.html) expliquei que
muitas incoerências aparentes da política oficial não são incoerências:
são a aplicação de técnicas consagradas de estimulação contraditória,
planejadas para induzir o público a um estado de estupor, de passividade
atônita, de obediência robótica.
Não digo que haja sempre
nisso premeditação maquiavélica. O emprego dessas técnicas é tão antigo
e disseminado no movimento revolucionário, e tão bem amoldado aos
hábitos do pensamento dialético, que em muitos líderes e ativistas elas
se tornam uma rotina banal. O discurso duplo jorra das suas bocas, a
conduta desnorteante flui das suas pessoas com a naturalidade de um
bocejo, de um suspiro, de um pum.
Reduzem as Forças Armadas à
míngua e alardeiam planos ambiciosos de defesa regional. Cortejam o
apoio dos militares ao mesmo tempo que fomentam campanhas de ódio contra
eles e engordam terroristas com indenizações milionárias.
Pavoneiam-se de uma
grandiosa “política de segurança pública” e dão ajuda a organizações
subversivas aliadas a quadrilhas de narcotraficantes, seqüestradores e
assassinos.
Arrotam anti-imperialismo e
entregam fatias inteiras do território nacional à administração
estrangeira.
Asseguram que o Foro de São
Paulo é um inofensivo clube de debates, enquanto seu líder máximo se
gaba das vitórias políticas continentais dessa organização.
Em nenhum desses desempenhos
tentam sequer camuflar a incongruência. Ostentam-na cinicamente,
inibindo nos aparvalhados espectadores não só a coragem de denunciá-la,
mas o desejo de percebê-la. Habituando-se a reprimir a própria
consciência, o povo se perverte junto com seus governantes e acaba por
atribuir a eles uma importância e uma autoridade infinitamente
superiores a seus méritos reais.
Um contraste especialmente
perturbador – tão contundente que o próprio Hitler o adotou no seu
repertório de histrionismos – é a coexistência forçada do risível com o
solene, da conduta grotesca com a exigência de consideração e respeito.
Ostentam amor xenófobo à
língua pátria enquanto louvam o presidente que a destrói implacavelmente
a cada novo discurso.
Dão apoio oficial ao deboche
anticristão, e ao mesmo tempo querem ser tratados como pessoas
digníssimas e santas, dando a entender que são mais respeitáveis que
Jesus Cristo – pretensão demencial que o próprio senhor presidente
ilustra em atos ao declarar-se homem sem pecado no instante mesmo em que
comete sacrilégio com a cara mais bisonha do mundo.
Uma vez elevados a essas
alturas celestes ao lado do seu chefe, um governador se esfrega em
público na esposa de um ministro, enquanto outro ministro beija um
cantor na boca, como se não lhe bastasse já ter desfilado de collant
transparente num baile gay, encarnando triunfalmente aquilo que entende
como cultura nacional.
São esses mesmos os que
seguida se reúnem para decidir, como anciãos veneráveis, os destinos do
povo. E o povo, reverente, acata seus mandamentos.
O rei da fábula desfilava nu
porque não sabia que estava sem roupa. Nossos reizinhos despem-se de
propósito, pelo prazer sádico de forçar a multidão a prosternar-se ante
a solenidade do ridículo, ante a majestade do desprezível.
A cada vez que repetem a
performance, rebaixam e atrofiam na população não só o senso moral, mas
o respeito por si próprio e a capacidade de discernimento. Aviltam e
estupidificam a nação inteira, e tiram proveito da ruína geral das
consciências para aumentar o poder e a riqueza do seu partido, do seu
grupo, da sua corja.
Só uma coisa pode
libertar-nos da hipnose, da escravidão mental abjeta que esses bandidos
impuseram ao país: recusar-lhes toda manifestação de respeito, mesmo
casual e discreta, mesmo puramente formal e hipócrita. Conceder-lhes, no
máximo, a obediência externa que as leis impõem e a força garante.
Respeitá-los, nunca. Se querem deleitar-se na baixeza, na mentira e no
crime, que o façam. Mas não precisamos ajudá-los a fingir que são muito
louváveis por isso.
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