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Kosovos indígenas
Osmar José de Barros Ribeiro (*)
Por razões que são até hoje desconhecidas, desde o governo Fernando Collor o
Brasil vem, sem maiores questionamentos, cedendo às pressões de ONGs
ambientalistas e indigenistas bem como de governos estrangeiros e de grupos
financeiros internacionais, no sentido de criar um número crescente de reservas
indígenas, particularmente na Região Norte. Nosso meio de comunicação sabe-se lá
a razão, talvez por desconhecimento, talvez por má-fé, engrossam esse coro vindo
do exterior.
Para não irmos muito longe: a questionada e questionável criação da TI (Terra
Indígena) Raposa-Serra do Sol em área contínua, colocou mais de 40% do
território do Estado de Roraima sob a jurisdição de fato do Conselho Indigenista
de Roraima (CIR), órgão ligado a uma série de organizações, como a Cafod
(Agência Católica para o Desenvolvimento, agência oficial da Igreja Católica da
Inglaterra e do País de Gales); Cese (Coordenadoria Ecumênica de Serviços, órgão
do Conselho Mundial de Igrejas, criado e sustentado pela Igreja Anglicana); Cimi
(Conselho Indigenista Missionário, órgão da Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil/CNBB e profundamente infiltrado pelos adeptos da Teologia da Libertação);
CCPY/Comissão Pró-Yanomami (criada em 1978, originalmente denominada Comissão
pela Criação do Parque Yanomami, com forte apoio internacional). Convém ainda
destacar a NORAD/Agência Norueguesa de Cooperação para o Desenvolvimento (ligada
ao Ministério de Negócios Estrangeiros, a qual canaliza fundos substanciais
através ONGs norueguesas e da Rain Forest Foundation, nos EUA e na Noruega); a
Greenpeace, cujas ações de desrespeito à soberania de muitas nações são
sobejamente conhecidas; o Instituto Socio-ambiental (ISA) e outras como a Oxfam
e a Survival International.
Quanto ao ISA, fundado em 22 de abril de 1994, incorporou o patrimônio do Centro
Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI, umbilicalmente ligado ao Conselho
Mundial de Igrejas-CMI) e do Núcleo de Direitos Indígenas (NDI) de Brasília.
Como sucessor do CEDI, promove ativamente a insidiosa tese da “autonomia” dos
povos indígenas. Para tanto, em especial, mas não unicamente na Amazônia, vêm
organizando as “nações indígenas” e mesmo grupos de quilombolas em “uniões”,
“organizações”, “federações”, “coordenações”, etc. Ao fim e ao cabo trata-se,
sem dúvida alguma, de “garantir a preservação do território amazônico para o seu
desfrute pelas grandes civilizações européias, cujas áreas naturais estejam
reduzidas a um limite crítico”, objetivo declarado do já mencionado Conselho
Mundial de Igrejas. A partir de 2002 expandiu as suas atividades, anteriormente
focadas no meio ambiente e nos indígenas, para problemas ligados à posse e
utilização da terra, ligando-se ao Apoio Jurídico Popular (AJUP), à Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), ao MST, à Rede Nacional de
Advogados Populares (RENAP) e à Comissão Pastoral da Terra (CPT), promovendo a
articulação entre as ONGs ambientalistas e os movimentos de luta pela terra.
Dentre as organizações ligadas ao ISA, há que destacar o Instituto Internacional
de Educação do Brasil (IEB), sediado em Brasília, onde desenvolve atividades
voltadas ao “apoio técnico, científico e acadêmico na área de meio ambiente, com
o objetivo de fortalecê-la e promover a sua articulação na Amazônia, Pantanal,
Mata Atlântica e Cerrado”. Para seus programas conta, atualmente, com o apoio da
Embaixada do Reino dos Países Baixos, USAID (sua cooperação com a USAID vem de
1989), Moore Foundation, ProManejo; Delegação da Comissão Européia no Brasil,
World Wildlife Fund (WWF) e outras entidades. Em 1997, teve início a parceria
com o World Wildlife Fund (WWF-US). Em 1998 deu-se a sua formalização como ONG,
face à necessidade de dar forma institucional às ações realizadas pela
cooperação USAID//WWF-US. Em 2000, com a Embaixada do Reino dos Países Baixos,
foi firmada uma parceria para a execução do Programa de Apoio ao Desenvolvimento
Institucional e Sustentável – PADIS. Em 2003, criado o Consórcio ALFA, Aliança
para a Floresta Amazônica e Mata Atlântica, foi um dos três consórcios
selecionados pelo edital da USAID para atuação nos seguintes eixos: manejo
florestal, comunidades e mercados, e planejamento de paisagens. O Consórcio ALFA
é liderado pelo IEB e formado por oito outras organizações com atuação na área
ambiental no Brasil.
A demarcação de TIs, tão defendida por organismos e países estrangeiros,
coincidentemente localizadas sobre ocorrências minerais e dada a lamentável
anuência brasileira à Convenção sobre os Direitos dos Povos Indígenas, vem
trazer uma possível e desastrosa conseqüência para nós: a criação e o
reconhecimento, por parte de alguns países centrais com interesses na região
(por exemplo: Reino Unido, França, Holanda, EUA) de “nações indígenas” nas áreas
ocupadas pelas Reservas situadas em áreas de fronteira, ao norte da calha do
Solimões/Amazonas. Sem dúvida, o primeiro “Kosovo indígena” estaria em Roraima
(mais de 60% da sua área é reserva indígena ou ambiental) e resultaria da união
da Reserva Ianomâmi com a da Raposa-Serra do Sol.
Quem tiver qualquer dúvida quanto ao afirmado, bastará entrar na internet e
consultar os sítios das organizações mencionadas anteriormente. Tomará
conhecimento da aversão das ONGs à presença do Estado Nacional naquela área e da
pressão contra as autoridades brasileiras em fóruns tais como a OEA e a ONU, em
defesa dos direitos das “nações indígenas”.
Espero estar enganado, mas a ser concretizada tal hipótese, bem pouco vai
restar-nos além de inócuos protestos e, então, bem poderão ser aplicadas a nós,
brasileiros, as palavras da mãe do último rei mouro de Granada, em 1492: “Choras
como mulher, o que não soubeste defender como homem”.
(*) Osmar J. B. Ribeiro é tenente-coronel reformado do Exército.
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