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Artigos
“NADA SERÁ COMO HOJE
AMANHÔ
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA
25/04/2008
Nada dura para sempre, tudo está em constante mudança, mesmo assim, nossa sede
de infinito dá aquela falsa sensação de que viveremos indefinidamente. Os moços
não cogitam da velhice que lhes parece remota. Os velhos não pensam na morte que
se aproxima. Os que estão no poder não imaginam que mais dia menos dia perderão
seu domínio e seus privilégios.
Se não há mal que dure para sempre o bem também não dura. Aliás, o bem traduzido
em termos de felicidade dura menos que o mal que é o locatário do mundo. Basta
observar que a história mundial registra mais déspotas do que governantes
benfazejos, mais tiranias do que democracias.
Ao mesmo tempo, isso parece demonstrar que, apesar da instabilidade das formas
ilusórias da existência há uma essência que traduz a única coisa imutável da
natureza humana: a ignorância com seu séqüito de desgraças tais como o desamor,
a inveja, a ganância, o culto da mentira, o egoísmo, o hedonismo, a ambição
desmedida, enfim, essas características do animal mais evoluído e mais cruel do
planeta: o homem.
Em determinadas épocas os traços negativos da humanidade se acentuam em
determinadas sociedades e, em alguns casos, contaminam o mundo. Esse tipo de
pestilência tem como núcleo certas formas de poder. No século passado, por
exemplo, o mal esteve por excelência não tanto nas duas guerras mundiais, mas
nos totalitarismos representados pelo nazismo e pelo comunismo.
Terminada, porém, a Guerra fria, derrubado o Muro de Berlim, o mal continuou a
despontar aqui e ali com outras formas. Na América Latina, que parecia expurgada
de seu histórico autoritarismo, emergiram populistas sedentos de poder que
pensam durar para sempre no comando arbitrário de seus povos.
Em Cuba, pequenas mudanças já são perceptíveis na medida em que Fidel Castro se
encontra praticamente mumificado. Se isso é bom para os cubanos, não se pense
que o sucessor de Fidel no cenário latino-americano é seu irmão Raúl Castro. O
herdeiro do tirano da Ilha atende pelo nome de Hugo Chávez e este tem seguidores
na Bolívia, no Equador, na Nicarágua, agora no Paraguai e, porque não, na
Argentina e no Brasil. E quanto mais sobe o petróleo, mais Chávez, o bem armado,
amplia sua influência sobre seus comandados e sobre os muy amigos.
Gira o mundo e sinais de mau agouro se desenham no horizonte das transformações.
Em termos políticos, nos Estados Unidos a vitória de Barack Obama, tido por
muitos como anti-semita, mulçumano e de esquerda traria conseqüências
imprevisíveis para o planeta globalizado.
Na economia fala-se em fome mundial, especialmente para os mais pobres,
ressuscitando-se, em pleno século 21, a tese de Malthus segundo a qual o
crescimento populacional seria maior do que a produção de alimentos. Sobe
absurdamente o barril de petróleo. A crise da economia americana turva o céu de
brigadeiro que possibilitou a calmaria, inclusive, dos países subdesenvolvidos.
No Brasil algo começa a mudar na economia, como não poderia deixar de ser. Um
velho filme de terror está sendo reprisado e tem como título a volta da
inflação, que o Plano Real havia eliminado. Inútil se torna a costumeira
manipulação de dados pelo governo, pois o povo já percebe a subida do preço dos
alimentos, sendo que já há previsão de alta da gasolina. Reivindicações do
Paraguai relativas à Itaipu, que possivelmente serão atendidas pelo governo
brasileiro, elevarão ainda mais o preço da energia. E torçamos para que Evo
Morales não resolva fechar de vez a torneira do gás, pois as conseqüências para
nós seriam as piores possíveis.
Para além da economia, outras coisas vão mudando no Brasil, e para melhor.
Significativa e importante foi a opinião do Comandante da Amazônia,
general-de-exército Augusto Heleno Pereira, que durante palestra no Clube
Militar do Rio de Janeiro se declarou contra a demarcação de imensas terras
indígenas na fronteira, portanto, contra a reserva Raposa Serra do Sol, “uma
ameaça a soberania nacional”. O general criticou também a política indigenista
que considera lamentável e caótica, e ainda ousou afirmar, muito
apropriadamente, que o “Exército serve ao Estado e não a governos”. Sua voz
ecoou na mídia e se destacou do coro dos medíocres, dos estultos e dos
acovardados que pululam nas diversas instituições do País.
Também a posse do ministro Gilmar Ferreira Mendes na presidência do STF
ressuscitou a esperança de se encontrar na Justiça a verdadeira e legitima
autoridade, aquela que se faz respeitar ao respeitar as leis. O ministro
criticou o “modelo de edições de medidas provisórias” que paralisa o Congresso,
a ação de movimentos sociais, a idéia do terceiro mandato e ainda defendeu o
papel do Judiciário na consolidação da democracia.
Alguma coisa está, portanto, mudando. Afinal, “nada será como hoje amanhã”.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga
mlucia@sercomtel.com.br
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