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Artigos
8.04.2008
NÓS E AS FARC
por Maria Lucia Victor Barbosa
A patética foto de Ingrid Betancourt, prisioneira
das Farc, possivelmente correu o mundo. É o retrato da dor, da profunda solidão,
do sofrimento infindo que essa mulher padece há seis anos nas mãos dos
impiedosos e sanguinários terroristas e narcotraficantes das Forças
Revolucionárias da Colômbia – Farc. E aquela face transfigurada pelo padecimento
tornou-se emblemática de tantos que, como ela, foram arrancados do convívio
familiar e amargam no cárcere asfixiante e insalubre da selva a desumanidade dos
que, a principio se investindo de guardiões do paraíso na terra se tornaram os
carrascos do inferno.
Betancourt não sofre sozinha as inenarráveis humilhações que um ser humano é
capaz de suportar antes de enlouquecer. Aproximadamente 700 pessoas dormem
acorrentadas em árvores, não recebem tratamento médico necessário, são obrigadas
a caminhar pela selva mesmo sem condições físicas. No cativeiro das Farc onde a
misericórdia não existe prolifera a mesma essência maléfica dos campos de
concentração, pois em tal miserável sobrevivência homens e mulheres, além dos
agravos físicos, são despidos de sua dignidade.
As Farc seqüestram, torturam, matam os pobres que não têm dinheiro para pagar
resgate, mantêm entre centenas de prisioneiros alguns que, tendo relevância
política podem funcionar como moeda de barganha para libertar os companheiros
capturados pelo Estado Colombiano que tem à frente o presidente Álvaro Uribe, um
estadista, algo raro na América Latina.
Há pouco tempo uma missão médica francesa, apoiada pela Espanha é pela Suíça
esteve na Colômbia na tentativa de socorrer e resgatar Ingrid Betancourt e
outros três reféns cuja saúde precária inspira cuidados. Em vão o presidente
Álvaro Uribe anunciou a suspensão das atividades militares no sudeste do país
para possibilitar a ação da missão médica. Em vão o presidente francês, Nicolas
Sarkozy dirigiu apelo ao chefe das Farc, Manoel Marulanda, para que libertasse a
senadora Ingrid Betancourt, seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002, em plena
campanha para a presidência de República.
Todavia é necessário, é urgente, é imprescindível que a França retome seu
objetivo, insista nele, persista no afã de salvar Ingrid e quantas vítimas puder
das garras de seus algozes.
Aliás, não só a França, a Espanha e a Suíça devem se empenhar nessa meta. A
questão é humanitária e não pertence a esse ou aquele país. Estranhamente os
países sul-americanos permanecem indiferentes diante do horror perpetrado em sua
vizinhança. Parece que o entendimento das Farc como sendo de esquerda dá glamour
ao terrorismo. Exemplo disso é o presidente Lula da Silva, companheiro das Farc
no Foro de São Paulo, que se negou a classificar os bestiais guerrilheiros e
narcotraficantes como terroristas, conforme apelo feito pelo presidente Uribe.
Talvez Lula prefira para as Farc o falso rótulo de “forças insurgentes”. Assim
estaria mais uma vez de acordo com a vontade de outro de seus maiores
companheiros, Hugo Chávez.
Silenciaram os “bons revolucionários” latino-americanos enquanto Chávez, o
ditador de fato da Venezuela, simulou gestos humanitários ao negociar a soltura
de algumas vítimas das Farc, enquanto as financia e lhes dá respaldo político.
Aos demais governantes da América Latina, incluindo o brasileiro, é mais cômodo
culpar o presidente Uribe pela situação, em que pese ele estar fazendo há tempos
todos os esforços para combater aqueles celerados. Condenar Uribe, tática comum
dos esquerdistas que são exímios em alterar, distorcer, manipular fatos, na
verdade equivale a condenar a vítima e absolver os criminosos. Tudo indica que a
esquerda latino-americana aprendeu direitinho a lição com o mestre Stalin.
Em trecho da carta, exigida pelos facínoras para provar que estava viva Ingrid
escreveu:
“A vida aqui não é vida, é um desperdício lúgubre de tempo. Tudo está sempre
pronto para partirmos às pressas. Aqui nada é seu, nada dura, a incerteza e a
precariedade são a única constante. A cada dia resta menos um pouco de mim
mesma”.
No Brasil, o embrião das Farc, o MST, está exacerbando sua violência. O chamado
movimento social agora invade não só terras produtivas, mas propriedades da Vale
do Rio Doce (maior mineradora do mundo), hidroelétricas, Assembléias
Legislativas, agências de Banco, praças de pedágio, além de bloquear estradas. O
flagrante desrespeito ao Estado de Direito, o esbulho da propriedade particular,
o prejuízo causado ao País avançam impunemente sob o olhar complacente das
autoridades constituídas, que até financiam as ricas e vistosas manifestações do
MST.
Como afirmou Edmund Burke: “Tudo que é necessário para que o mal triunfe, é que
os homens de bem nada façam”. |