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MOVIMENTO DE AÇÃO REVOLUCIONÁRIA (MAR)
1. 1968 - O SURGIMENTO DO
MOVIMENTO DE AÇÃO REVOLUCIONÁRIA (MAR)
2. 1969 - OS PREPARATIVOS PARA A
FUGA
3. 1969 - A FUGA DA
PENITENCIÁRIA LEMOS DE BRITO
4. 1969 - AS AÇÕES DO MAR
5. 1969 - A DESARTICULAÇÃO DO
MAR
1. 1968 - O SURGIMENTO DO
MOVIMENTO DE AÇÃO REVOLUCIONÁRIA (MAR)
Em 1968, o conjunto penitenciário da Rua Frei Caneca, na cidade do Rio de Janeiro,
abrigava, em sua população carcerária, vários ex-militares que haviam sido condenados
por fomentarem a indisciplina e a insubordinação nos tumultuados dias que antecederam a
Revolução de 1964.
A lembrança dos fatos que lhes granjearam notoriedade, como quando carregaram nos
ombros o ex-Almirante Aragão, e a efervescência das agitações de rua, que marcaram o
ano de 1968, embalavam os sonhos daqueles que buscavam sair do anonimato.
Aproveitando-se da liberalidade a que ficavam sujeitos os presos políticos na
Penitenciária Lemos de Brito, o ex-marinheiro Marco Antonio da Silva Lima
("Horacio", "Humberto"), que estava cumprindo pena, iniciou
articulações e criou, junto com os outros presos, Avelino Bioni Capitani
("Julio", "Roberto Pietro Capitani", "Armando Fonseca",
"Alvaro", "Joel", "Ruivo", "Andre",
"Capita", "Paulo"), Antonio Duarte dos Santos ("Sergio"),
José Adeildo Ramos ("Francisco", "Chico", "João",
"Joaozinho", "Toinho", "Lino", "Patriota",
"José Luiz da Costa", "Zé Augusto", "Waldemaro Rocha dos
Santos") e Pedro França Viegas ("Otavio"), ex-marinheiros, e Antonio
Prestes de Paula ("José"), ex-sargento da FAB, um grupo que visava à luta
contra o regime.
Os conspiradores trabalhavam em setores-chave na penitenciária. Marco Antonio e
José Adeildo trabalhavam na seção jurídica da Divisão Legal, em contato direto com
funcionários, guardas, estagiários, advogados e visitantes, muitos deles subversivos
ex-presidiários. Avelino Capitani e Antonio Duarte ocupavam-se dos serviços sociais do
sistema penitenciário e do hospital, respectivamente. Prestes de Paula trabalhava no
Serviço de Bio-Psicologia da Penitenciária Dias Moreira.
Para aumentar o círculo de influência, esse grupo contatou e doutrinou presos
comuns, oferecendo-lhes a possibilidade de uma fuga. Alguns desses aliciados foram José
André Borges ("Ricardo"), que trabalhava na portaria, Roberto Cietto
("Simão"), do almoxarifado, José Michel Godoy, da alfaiataria do hospital, e
Benedito Alves Ramos, do ambulatório, que aderiram aos conspiradores.
Mas o movimento não restringiu-se, somente, às articulações intramuros. Fora da
prisão, estruturou-se um "grupo externo", através das ligações com Flavio
Aristides de Freitas Tavares ("Felix", "Feliciano"), mais conhecido,
simplesmente, como "Flavio Tavares", jornalista da "Última Hora", que
estava respondendo, em liberdade, ao processo da frustrada "Guerrilha do Triângulo
Mineiro", de inspiração brizolista. Flávio Tavares e os ex-marinheiros José
Duarte dos Santos ("Índio", "Vitor") e Edvaldo Celestino da Silva
("Pedro"), conjuravam e ligavam-se a outros grupos, no sentido de trazer
sustentação ao projeto sedicioso. Para José Duarte, uma outra motivação impelia-o
para uma tentativa de fuga, já que seu irmão, Antonio Duarte, era um dos presos.
Em novembro de 1968, Flávio Tavares conseguiu o apoio de quatro elementos que
vieram de São Paulo para ativar a guerrilha urbana na Guanabara. Compunham o "Grupo
de São Paulo" os ex-marinheiros Elio Ferreira Rego ("Chico Baixinho") e
Antonio Geraldo da Costa ("Neguinho", "Rocha"), o professor Wilson
Nascimento Barbosa ("Negão") e o estudante de Economia Leôncio Queiroz Maia
("Macedo"), que faziam parte do grupo de ex-militares da POLOP que foram
constituir a VPR, em março desse ano.
Através do ex-presidiário José Gonçalves de Lima, os
"revolucionários" da Lemos de Brito conseguiram a adesão de uma célula
comunista que atuava na Companhia de Transportes Coletivos (CTC) da Guanabara. Essa
célula, conhecida como "Grupo de Mallet" (as reuniões ocorriam na Rua Mallet,
em Magalhães Bastos), era chefiada pelo comunista José Ferreira Cardoso (residente na
casa) e integrada por José Leonardo Sobrinho, Sílvio de Souza Gomes, José Gonçalves de
Lima, Francisco de Oliveira Rodrigues e Luiz Mario Neri.
Enquanto isso, no interior da Lemos de Brito, Marco Antonio da Silva Lima utilizava
a seção jurídica da Divisão Legal como uma verdadeira sede do movimento que, naquela
altura, já tinha sido batizado com o pomposo nome de Movimento de Ação Revolucionária
(MAR). Nesse local, sucediam-se os encontros dos participantes do movimento, inclusive,
regados a cafezinhos e usando, abertamente, o telefone da prisão.
O objetivo do MAR era, com o reforço dos fugitivos, implantar um foco de guerrilha
na Região de Conceição de Jacareí, próximo a Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.
O indulto concedido a Pedro França Viegas, em 18 de dezembro de 1968, e as
facilidades concedidas ao estagiário de Direito, Sergio Lucio de Oliveira e Cruz
("Alvaro"), intensificaram as primeiras iniciativas e preparativos para a
concretização do plano de fuga.
2. 1969 - OS PREPARATIVOS PARA A
FUGA
Decidida a fuga da Penitenciária Lemos de Brito, o grupo externo do MAR resolveu
realizar expropriações para financiá-la.
O primeiro assalto foi realizado no às 1630h do dia 19 de março de 1969. O alvo
foi o Banco da Lavoura da Minas Gerais em Realengo, tendo sido roubados mais de 37 mil
cruzeiros novos. Participaram da ação Flávio Tavares, José Duarte dos Santos, Edvaldo
Celestino da Silva, Wilson Nascimento Barbosa, Leôncio Queiroz Maia, Antonio Geraldo da
Costa e Elio Ferreira Rego. Os assaltantes deixaram dentro do banco panfletos com o
título "Exército libertador para libertar o país". Essa ação foi precedida,
na noite de 17 de março, do roubo do Aero-Willys utilizado no assalto, praticado por
Wilson, Leôncio e Elio.
O dinheiro expropriado ficou com Elio Ferreira Rego que destinou metade para as
despesas do MAR, com suas atividades no Rio de Janeiro, e metade para um "Grupo de
Estudo" de São Paulo, que estava sob a liderança de Carlos Marighella.
Enquanto a organização comemorava o sucesso de sua primeira ação armada,
prosseguiam em ritmo acelerado as reuniões de planejamento da fuga da penitenciária.
Pedro França Viegas, quando ainda estava preso, costumava fazer contatos na
Divisão Legal com estagiários e funcionários da penitenciária, conseguindo aliciar
alguns para participar e facilitar a fuga. O acadêmico de Direito Júlio Cesar Bueno
Brandão concordou em ceder sua camioneta Rural Willys para o transbordo dos presos, após
a fuga. Da mesma forma, o também acadêmico Júlio Cesar Senra Barros
("Adauto", "Augusto", "Jorge Ferreira Neto", "Marco
Antonio Flores Jaques") começou a colaborar com o movimento cedendo, a partir de
janeiro de 1969, seu apartamento na Ilha do Governador, para homiziar José Duarte dos
Santos e para realizar reuniões de planejamento da fuga. Um terceiro acadêmico de
Direito, Antonio Sergio de Mattos ("Uns e Outros", "Hermes",
"Moreno", "Gilberto Souza de Almeida"), também ingressou no MAR e
auxiliou no planejamento da fuga.
Ressentindo-se da falta de recursos e tendo em vista a proximidade da ação de
fuga, o MAR realizou, às 1350h de 05 de maio 69, o seu segundo assalto, expropriando, em
mais de 19 mil cruzeiros novos, o Banco Nacional Brasileiro, agência de Piedade. O bando
assaltante era o mesmo da ação anterior, acrescido de Jarbas da Silva Marques
("Silva"), estudante de Economia de Brasília, que havia sido ganho pelo MAR por
Flávio Tavares, com quem estava envolvido no processo da "Guerrilha do Triângulo
Mineiro".
Os preparativos para a fuga foram intensificados.
Pedro França Viegas, já em liberdade e em ligação com o "Grupo
Mallet", conseguiu encontrar uma área favorável ao homizio dos fugitivos e à
implantação do foco guerrilheiro. Luiz Mario Neri, além de emprestar uma Kombi para o
transbordo dos fugitivos, seria o responsável pela condução deles para o local
escolhido. A área ficava na região da Serra de Jacareí, com entrada pela estrada que
liga Angra dos Reis aos Estaleiros Verolme. Benedito Luiz Antunes, guarda da
penitenciária Lemos de Brito e recrutado pelo "Grupo de Mallet", esteve, a
pedido de Marco Antonio da Silva Lima, reconhecendo as trilhas que conduziam ao domínio
da guerrilha, com a finalidade de apoiar o grupo depois de instalado.
José Ferreira Cardoso realizava reuniões em sua residência com as presenças de
José Duarte dos Santos e Pedro França Viegas, com o objetivo de aliciar novos elementos
para o treinamento de guerrilha.
A guarda penitenciária Naterça Passos, em função de escriturária na Divisão
Legal, já tinha sido aliciada por Marco Antonio e seria a encarregada de passar as armas
para os fugitivos.
Flora Frisch ("Tulipa"), trabalhando num escritório de advocacia, tinha
se tornado amante de Avelino Bioni Capitani e estava integrada no esquema de fuga.
Conseguiu, através de simpatizantes, roupas para que os fugitivos se trocassem para
facilitar a evasão. As roupas foram entregues ao estagiário Sergio Lucio de Oliveira e
Cruz e a José Duarte dos Santos. A prima de Flora, Jeny Waitsman, tinha se tornado amante
de Antonio Duarte dos Santos e também participava dos preparativos da fuga.
Murilo Mello, ex-bancário do Banco do Brasil e foragido da Justiça, tinha sido
contatado por seu antigo companheiro do Movimento Estudantil, Wilson Nascimento Barbosa, e
encontrava-se em ligação com Flávio Tavares.
Os planos iam sendo delineados em reuniões no apartamento de Flavio Tavares na Rua
Paissandu. Sergio Lucio e Edvaldo Celestino da Silva, designados para serem os motoristas
da fuga, foram orientados sobre os itinerários a seguir. O "Grupo de São
Paulo" recebeu a incumbência de eliminar o soldado da PM que permanecia armado de
metralhadora na calçada do presídio. Murilo Mello, em seu Volkswagen, teria a
incumbência de resgatar esse grupo após a eliminação do guarda.
Todo estava pronto para a fuga, o que viria a ocorrer em 26 de maio de 1969,
infelizmente, com a perda de uma vida humana, ferimentos em mais duas e a mutilação de
um inocente.
3. 1969 - A FUGA DA
PENITENCIÁRIA LEMOS DE BRITO
Finalmente, chegou o dia previsto para a fuga, o 26 de maio de 1969, uma
segunda-feira.
Nessa manhã, o estagiário Julio Cesar Senra Barros entregou à funcionária
Naterça Barros um pacote contendo três revólveres calibre .38, conseguidos por Élio
Ferreira Rego e Antonio Geraldo da Costa. Sem levantar suspeitas, Naterça entregou as
armas a Marco Antonio que permaneceu com uma e distribuiu as demais para Antonio Prestes
de Paula e para Avelino Bioni Capitani. Todos os envolvidos foram alertados de que a fuga
dar-se-ia às 1730h.
O dia transcorreu normalmente e a tensão da espectativa não transpareceu aos
demais habitantes da penitenciária.
Pouco antes do horário previsto, aproveitando-se do trânsito livre dentro da
penitenciária, já estavam reunidos, na Divisão Legal, os nove presos e militantes do
MAR prontos para iniciar a ação.
Pontualmente, às 1730h, estacionou em frente à entrada de pedestres um
Aero-Willys dirigido por Edvaldo Celestino da Silva. Esse auto tinha sido roubado por
Wilson Nascimento Barbosa, Leôncio de Queiroz Maia e José Duarte dos Santos para
transportar os fugitivos.
A um sinal de Marco Antonio, o grupo dirigiu-se para a portaria, onde José André
Borges já havia ajeitado as coisas para facilitar a fuga. Ao atingir a passagem de
pedestres, o grupo defrontou-se com o guarda penitenciário Ailton de Oliveira, que tentou
sacar sua arma, sendo baleado por Avelino Bioni Capitani, com um tiro na cabeça e outro
no braço, vindo a falecer cinco dias depois. Em socorro de Ailton, veio o guarda
penitenciário Jorge Felix Barbosa que, lotado no Sanatório Penal de Bangu, estava
escoltando vários presos. Mesmo desarmado, pois deixara sua arma no controle de entrada
do hospital, Jorge Felix Barbosa foi também baleado por Capitani, com um tiro na nuca,
atrás da orelha direita, com um ferimento, felizmente, não fatal.
Um outro guarda penitenciário, Valter de Oliveira Pereira, foi ferido com várias
coronhadas na cabeça, desfechadas por Roberto Cietto.
Os nove fugitivos acotovelaram-se dentro do Aero-Willys e, antes de partirem,
Antonio Duarte dos Santos apanhou o revólver .38 do motorista Edvaldo e descarregou sua
arma na direção da portaria.
A fuga causou mais uma vítima, desta vez, inocente. O funcionário da Light, João
Dias Pereira, que, casualmente, passava pela calçada da penitenciária, foi atingido no
abdómen por um dos disparos dos fugitivos, tendo ficado inutilizado.
Edvaldo arrancou em disparada com o Aero-Willys. Sangrando, permaneceram quatro
corpos, testemunhos da violência da premeditada ação do MAR.
Um acidente preservou, pelo menos, mais uma vida. O soldado da PM que estava em sua
guarita, na calçada do outro lado da rua, ao tentar engatilhar sua metralhadora observou,
assustado, que o carregador da INA caíra. Foi sua sorte. Os quatro terroristas que
compunham o "Grupo de São Paulo" estavam postados em pontos estratégicos,
prontos para eliminarem o soldado e apossarem-se de sua arma.
Foram conduzidos por Edvaldo para a parte de trás do Hospital de São Francisco de
Assis, onde já os aguardava Pedro França Viegas, com a camioneta Rural Willys - de Julio
Cesar Bueno Brandão, e Sergio Lucio de Oliveira e Cruz ao volante da Kombi de Luiz Mario
Neri. Feito o transbordo e abandonado o Aero-Willys, o grupo dirigiu-se para a região de
Conceição de Jacareí, onde chegou nessa mesma noite. Além dos dois motoristas,
compunham o grupo Pedro França Viegas e José Duarte dos Santos.
Ao atingirem um local previamente reconhecido, os fugitivos saltaram das viaturas e
embrenharam-se na mata, guiados por Luiz Mario Neri. Os motoristas retornaram para o Rio
de Janeiro sem problemas, conduzindo José Duarte dos Santos, que havia seguido para
coordenar as ações.
Após marcharem durante três noites, chegaram em um barraco onde os esperava José
Sabino Gomes Barbosa ("Adão"), antigo conhecido de José Ferreira Cardoso. Com
base nesse barraco, denominado de "Cabana do Jacu", os fugitivos articularam-se
na região e iniciaram seus treinamentos de guerrilha. A idéia de deflagrar a Guerra
Revolucionária através de um foco guerrilheiro norteava o MAR, desde o início de sua
articulação, na penitenciária.
Como resumo da ação de fuga, chegamos ao número de 34 pessoas que direta ou
indiretamente dela participaram:
- 9 fugitivos: Antonio Duarte dos Santos, Antonio Prestes de Paula, Avelino Bioni
Capitani, Benedito Alves Ramos, José Adeildo Ramos, José André Borges, José Michel
Godoy, Marco Antonio da Silva Lima e Roberto Cietto;
- 4 do "Grupo de São Paulo";
- 6 do "Grupo Mallet";
- 13 do "Grupo Externo" do MAR;
- 2 guardas penitenciários.
Lamentou-se a existência de quatro vítimas: um morto (Ailton de Oliveira) e três
feridos graves (Jorge Felix Barbosa, Valter de Oliveira Pereira e João Dias Pereira).
4. 1969 - AS AÇÕES DO MAR
Marco Antonio da Silva Lima havia realizado um curso de guerrilha em Cuba e tinha
retornado ao Brasil impregnado pelas diretrizes emanadas da 1ª Conferência da OLAS. A
idéia do foco era a grande novidade das esquerdas, inclusive dentro da penitenciária.
A adoção da estratégia da luta armada através do foco sofreu decisiva
influência de Marighella. O líder da ALN, em suas constantes visitas ao Rio de Janeiro,
contatava com Flavio Tavares e orientava as atividades do MAR no sentido de que ele
estabelecesse, como prioridade fundamental, a guerrilha rural. As atividades na cidade
deveriam ter caráter tático e visariam, apenas, a criar condições para o lançamento
da luta armada no campo. Apenas como diferença de conceituação, o MAR referia-se ao
"foco", enquanto que Marighella referia-se à guerra no campo como
"guerrilha rural", com caráter essencialmente móvel.
Naquela ocasião, Flavio Tavares já tinha aliciado para o movimento o estudante de
Medicina Adail Ivan de Lemos, que passou a usar o codinome de "Magalhães".
Estabelecido com sucesso o "embrião do foco guerrilheiro", em
Conceição de Jacareí, o MAR prosseguiu realizando seus assaltos a bancos para poder
sustentar sua estrutura clandestina. Para isso, criou um "Grupo de Ação",
constituído pelos seguinte nove militantes (em alusão aos nove fugitivos da
penitenciária): Flavio Tavares, José Duarte dos Santos, Edvaldo Celestino da Silva,
Wilson Nascimento Barbosa, Leôncio Queiroz Maia, Antonio Geraldo da Costa, Elio Ferreira
Rego, Jarbas da Silva Marques e o novato Adail Ivan de Lemos.
Em 10 de junho de 1969, o Grupo de Ação do MAR praticou o seu 3º assalto a
bancos, cujo alvo foi a agência Ramos do União de Bancos Brasileiros, com o roubo de
mais de 33 mil cruzeiros novos.
Naquela altura, o apoio logístico aos guerrilheiros da "Cabana do Jacu"
era prestado pelo "Grupo de Mallet", que utilizava a Kombi de Luiz Mario Neri,
dirigida por Geraldo Simões de Araujo, para levar gêneros e roupas.
A vida dura e desconfortável de "guerrilheiro" causou, logo no início,
três defecções: Antonio Prestes de Paula e Roberto Cietto não se adaptaram à vida
cigana e retornaram à cidade e aos assaltos a bancos. José André Borges perdeu-se na
mata e resolveu retornar ao Rio de Janeiro, integrando-se ao grupo de assaltos a bancos.
Na implantação do foco guerrilheiro, destacou-se Avelino Bioni Capitani, pela
aptidão demonstrada para a vida no campo, adquirida com sua participação na fracassada
"Frente de Caparaó" de Brizola.
Prosseguindo na busca de solução para seus problemas financeiros, os nove
militantes do Grupo de Ação realizaram o 4º assalto do MAR, no dia 18 de junho de 1969,
à agência Ramos do Banco de Comércio e Indústria de São Paulo, com um saldo positivo
de mais de 43 mil cruzeiros novos.
Após esse assalto, o grupo resolveu intensificar as ações armadas. Elio Ferreira
Rego conseguiu, com uma parenta de Jorge Medeiros do Vale ("Bom Burguês"), um
lote de carabinas .30 M1. Inicialmente, essas armas foram guardadas na Rua Jorge Rudge, em
Vila Isabel, na casa de Paulo José Villani de Andrade, namorado de Frida Hissler,
funcionária da biblioteca da Petrobrás e colega da irmã do "Bom Burguês",
Rosenês Vale Veras.
Posteriormente, Adail Ivan de Lemos transportou em seu jipe o armamento da Rua
Jorge Rudge para a Rua Adalgisa Aleixo, em Bento Ribeiro, aparelho ocupado por Jarbas da
Silva Marques.
Paralelamente a esses acontecimentos, Flavio Tavares contatou o ex-coronel cassado
Nicolau José de Seixas e conseguiu algumas metralhadoras de mão utilizadas na 2ª Guerra
Mundial, na campanha da FEB. As armas tinham sido enterradas no quintal da casa do
coronel, em Niterói, pela própria irmã do militar.
Esse armamento reforçou as ações contra os bancos e aumentou o poder de fogo do
"foco guerrilheiro". José Duarte dos Santos, por orientação de Flavio
Tavares, retirou quatro carabinas M1, um fuzil Mauser e uma carabina Winchester .22,
transportando-as da Rua Adalgisa Aleixo, 653, para a casa de José Ferreira Cardoso.
Posteriormente, esse armamento foi conduzido por Edvaldo e José Duarte para Conceição
de Jacareí e entregue aos "guerrilheiros da Cabana do Jacu".
Reforçados por Antonio Prestes de Paula e Roberto Cietto, que substituiam Elio
Ferreira Rego e Antonio Geraldo da Costa, o Grupo de Ação, ainda com nove militantes,
assaltou, pela segunda vez, a agência Piedade do Banco Nacional Brasileiro, em 18 de
julho de 1969, com o roubo de mais de 19 mil cruzeiros novos. Foi o 5º assalto do MAR.
Após esse assalto, o "Grupo de São Paulo" (quatro militantes)
desligou-se do MAR e seguiu para o Uruguai. Leoncio Queiroz Maia, com outros, seguiria
para a Itália. Wilson Nascimento Barbosa seria preso no Uruguai, em setembro de 1969, em
companhia do comunista uruguaio Milton Julio Valenzuela; foi devolvido ao Brasil pelas
autoridades uruguaias e mais tarde, em Mar 70, banido em troca do embaixador suíço.
Enquanto isso, continuava o treinamento de guerrilha em Conceição de Jacareí.
Liderados por Marco Antonio da Silva Lima e por Avelino Bioni Capitani, os guerrilheiros
montavam e trocavam freqüentemente de acampamento, e realizavam exercícios de tiro e
marchas.
Confiantes com o sucesso até então alcançado por suas ações armadas, Flavio
Tavares e José Duarte dos Santos, em contato com parentes do "Bom Burguês",
iniciaram o planejamento de uma ação espetacular.
Pretendiam libertar o "Bom Burguês", que se encontrava preso, pelas
autoridades da Marinha, na Ilha das Flores. Para a consecução da ação, realizaram a
transferência de parte do armamento do aparelho da Rua Adalgisa Aleixo para os aparelhos
de José Duarte dos Santos e de Flavio Tavares situados, respectivamente, na Rua Barata
Ribeiro, 211/606, e Rua Paissandu, 156/1105. O transporte, mais uma vez, foi realizado
pelo jipe de Adail.
A ação acabou não sendo realizada, em virtude da desarticulação do MAR pelos
órgãos de segurança a partir do seu próximo e último assalto.
5. 1969 - A DESARTICULAÇÃO DO
MAR
Em 07 de agosto de 1969, o MAR realizou seu 6º assalto a banco, na agência Vista
Alegre do Banco Nacional de São Paulo, localizada na Avenida Brás de Pina, com roubo de
cerca de 50 mil cruzeiros novos. Participaram da ação Flavio Tavares, Edvaldo, José
Duarte, Antonio Prestes de Paula, Jarbas da Silva Marques, Roberto Cietto e José André
Borges. Quebrando a mística dos nove, os sete participantes da ação só tiveram sucesso
no roubo da agência.
Durante a fuga, o Volks dirigido por Flavio Tavares, no qual seguiam José Duarte e
José André, foi interceptado pela polícia e teve um pneu furado. Flavio Tavares
separou-se de seus dois companheiros e conseguiu fugir. No tiroteio, José Duarte
descarregou sua metralhadora INA contra os policiais. Encurralados, os dois pegaram uma
criança de 4 anos como refém e a ameaçaram de morte caso a polícia se aproximasse.
Momentos depois, desgastados moral e psicologicamente, devolveram a criança e
entregaram-se. As declarações de José Duarte dos Santos e de José André Borges deram
início ao fim do MAR.
Flavio Tavares, pressentindo o desastre, solicitou a Paulo Cesar de Lemos, irmão
de Adail, que transportasse uns pacotes de Bento Ribeiro para a Rua Paissandu. Os pacotes
com armamento, apanhados na Rua Adalgisa Aleixo, aparelho de Jarbas da Silva Marques,
foram levados, no dia seguinte, para o aparelho de Flavio Tavares, o apartamento 1105 da
Rua Paissandu, 156.
Flavio Tavares ainda conseguiu homizio na casa do advogado Jorge Antonio de Miranda
Jordão, situada na Rua General Glicério, 114/Cob 01, onde recebeu, nesse 08 de agosto,
uma sacola com 8 mil cruzeiros novos - parte do produto do roubo - das mãos de Maria
Madalena Azevedo, enviada por Antonio Prestes de Paula.
Jorge Antonio de Miranda Jordão, para não se comprometer, viajou para São Paulo,
deixando Flavio Tavares aos cuidados da empregada.
Flavio Tavares seria preso no dia seguinte, 09 de agosto de 1969, na Rua Paissandu,
162, outro aparelho que possuía naquela rua.
José Duarte dos Santos, durante suas declarações à polícia, entregou o local
de treinamento de guerrilha em Conceição de Jacareí. A Marinha realizou o cerco da
área com fuzileiros navais e destruiu as instalações existentes. Durante o cerco, um
dos grupamentos, ao aproximar-se de uma cabana, foi recebido a tiros. No tiroteio, Pedro
França Viegas foi baleado na perna, sendo preso em Lídice, perto de Angra dos Reis, em
12 de agosto. Os demais conseguiram escapar.
Capitani e José Adeildo Ramos ficaram homiziados na Igreja de São Geraldo, em
Olaria, acoitados pelo padre Antonio Lengoen Helmo e, posteriormente, na Igreja de Nossa
Senhora das Cabeças, na Penha, sob os cuidados do padre Pasquali Visconso. Ambos seriam
colocados em contato com o PCBR, ao qual adeririam, por intermédio de Flora Frisch,
amante de Capitani.
Marco Antonio da Silva Lima e Antonio Prestes de Paula também adeririam ao PCBR e,
juntamente com Capitani, no dia 17 de dezembro de 1969, participariam de um assalto ao
Banco Sotto Mayor, na Praça do Carmo, em Brás de Pina, quando Capitani matou o Sargento
da PMEG Joel Nunes.
Antonio Duarte dos Santos conseguiria homiziar-se em Goiânia, com o auxílio de
sua companheira Jeny Waitsman. No 1º semestre de 1970, ambos, juntos com Capitani,
fugiriam para Cuba. Mais tarde, foi para a Suécia, com sua nova companheira Gloria
Ferreira. Em Nov 86, vivia em São Paulo.
Marco Antonio da Silva Lima morreria no dia 13 de janeiro de 1970, num aparelho do
PCBR na Rua Inhangá, 27/608, em Copacabana, ao reagir a tiros à voz de prisão. Sua
então companheira, Angela Camargo Seixas, seria ferida com um tiro no abdómen ao tentar
fazer uso de sua arma. No entrevero, também foram feridos dois sargentos do Exército,
Heraldo Almada e Rubens Gomes Carneiro.
José Michel Godoy foi preso em 02 de setembro de 1969, também na cidade de
Lídice, perto de Angra dos Reis.
Roberto Cietto foi preso no Rio de Janeiro em 04 de setembro de 1969, após sofrer
um acidente automobilístico, tendo cometido suicídio nessa mesma data.
Edvaldo Celestino da Silva, Jarbas da Silva Marques e Adail Ivan Lemos, juntamente
com outras pessoas, envolvidas consciente ou desavisadamente com o MAR, foram detidas e
indiciadas ou arroladas como testemunhas no IPM procedido pelo Almirante Julio de Sá
Bierrenbach.
Do "Grupo de Mallet", foram presos Francisco de Oliveira Rodrigues e Luiz
Mario Neri. José Ferreira Cardoso, José Leonardo Sobrinho e Silvio Souza Gomes pediram
asilo político ao Uruguai. José Gonçalves de Lima continuou foragido.
O dia 7 de agosto de 1969, data do assalto ao Banco Nacional de São Paulo, foi o
dia fatídico para o MAR, início do fim de sua efêmera vida como organização.
O MAR não era orientado por nenhum documento base. Sem tecer avaliações
conjunturais, fazia uma opção espontaneísta pelo "foco guerrilheiro", ao
melhor estilo cubano.
A estrutura da organização, não definida em estatutos, foi esmiuçada por Flavio
Tavares, em suas declarações à polícia. Existia um Grupo de Direção, que coordenava
e supervisionava os trabalhos. O Grupo de Estudos, provavelmente localizado em São Paulo,
dedicava-se ao estudo das ações políticas e militares. O Grupo de Ação era o
encarregado dos assaltos e, mais tarde, encarregar-se-ia do terrorismo. Um Grupo de Apoio
seria responsável pelo suprimento do Grupo Rural, encarregado do treinamento e da
implantação do foco guerrilheiro. Finalmente, o Grupo Legal realizaria as tarefas legais
do movimento, tais como aluguéis dos aparelhos, compras de roupas e suprimentos, etc.
Havia a intenção, por parte do MAR, de radicalizar suas atividades. No aparelho
de José Duarte dos Santos foram encontradas armas, granadas de fabricação caseira e
8.500 gramos de trotil, explosivo de alto poder de destruição.
Foi oportuna e eficiente a atuação das Forças Armadas, através da Marinha e dos
órgãos policiais, ceifando a existência de um movimento que, certamente, enlutaria a
sociedade brasileira no desenvolver de sua "ação revolucionária".
Finalizando, não se pode esquecer da omissão das autoridades que, ungidas de
graves responsabilidades, propiciaram a articulação do MAR ainda dentro do sistema
penitenciário. O Sr Sidney Junqueira Passos, diretor da Divisão Legal da
Superintendência do Sistema Penitenciário (SUSIPE) tinha conhecimento, desde 1968, da
célula comunista liderada por Marco Antonio da Silva Lima; alertado, nenhuma providência
tomou para coibir as ações. Os senhores Alberto Bittencourt Cotrim Neto, Secretário de
Justiça do então Estado da Guanabara, e Antonio Vicente da Costa Júnior,
Superintendente do Sistema Penitenciário, também alertados sobre a livre atuação dos
presos políticos na Frei Caneca, nada fizeram dentro da esfera de suas atribuições.
Quando as autoridades se omitem, cresce a brutalidade.
F. Dumont
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