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Correio  Braziliense, 04 Mar

Ética, moral e política

Jarbas Passarinho

Foi ministro de Estado, governador e senador

 

O pedido de demissão do embaixador Marcílio Marques Moreira da presidência da Comissão de Ética enseja reflexões sobre o papel da ética, da moral e da política. Os filósofos distinguem ética de moral. A primeira é ciência normativa, que emite juízos de valor em função do discernimento entre o bem e o mal. Moral é um código de conduta variável com os costumes ao longo dos tempos. Os iniciados em sociologia política e em ciência política sabem que moral e política não têm o mesmo fim. Uma responde a uma exigência interior, segundo a retidão dos atos pessoais quanto à norma dos deveres, enquanto a outra é acima de tudo ação social. Aristóteles distingue o cidadão (vertu civica) do homem de bem (virtu moral). O ideal é o homem associar as duas virtudes, “mas pode ser bom cidadão sem possuir as virtudes de um homem de bem”.

O embaixador, ou melhor, a Comissão, que é órgão do governo, acha que o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, fere a ética, acumulando função de ministro e presidente do PDT, seu partido. Seria um bom político, mas não um homem de bem. Suscita dúvida de isenção nos convênios com entidades ou indicações de políticos. Lembra a velha história da rejeição de Pompéia, mulher de César, porque não bastava ser honesta, precisava mostrar que o era. Havendo liberado R$14,7 milhões a duas entidades sindicais e mais R$ 50 milhões para convênios do Ministério do Trabalho destinados a pessoas ou associações ligadas a políticos de seu partido, o PDT, recusou prestar informação a respeito.

Reforçou a dúvida que assaltou César, tanto que se obrigou a anular os convênios, 12 no total de 16, destinados a prefeituras do PDT, e um para uma ONG de asilo de idosos presidida por um colega de partido. A Comissão de Ética, que é do governo, não tem poder coercitivo, e se o tivesse, não o usaria, pois o presidente Lula elogia publicamente o ministro, atribuindo-lhe “procedimento republicano”, cuja significação me escapa, no caso. Quando não lhe convém “fulanizar” (ouvi esse verbo pela primeira vez pronunciado pelo ínclito senador Marco Maciel), a mídia usa Palácio como um sujeito coletivo, mas indefinido: “Marcílio vem sendo duramente criticado pelo Planalto”.

Houve tempo em que partidos políticos fundavam os grupos da ética na política. Não duraram muito, logo decepcionados por identificarem intramuros a falta de ética dos que, fantasiados de Catão, o censor, não observavam os 7º e 9º mandamentos que Deus deu a Moisés, no Sinai. Churchill levou em consideração a qualidade ética da política: “Político é aquele que pensa na próxima eleição, e estadista é o que pensa na próxima geração”. Não direi que no passado nossas gerações eram éticas e as que lhes sucederam são antiéticas. Refiro-me ao gênero humano, capaz de todas as virtudes e de todos os vícios. Sentindo, porém, o peso dos anos, entristece-me o Brasil em que viverão meus bisnetos, porque os netos já o vivem hoje.

Leio amargurado que a ONU nos classificou, depois de pesquisa que diz insuscetível de erro, como um dos mais corruptos países da sua constelação. Também nos inclui entre as polícias mais corrompidas e violentas do mundo. É uma ofensa, mas será descabida? O governo Lula protege os pobres — o que é justo — por louvável sentimento humanitário e de justiça social (palavras que Hayek odiava), ou talvez mais como político, estocando votos garantidos, do que como estadista. Justo é reconhecer que até antes fracassamos na distribuição da renda e nestes cinco anos milhões de paupérrimos atingiram o limite inferior da classe média. Mas o estado moral da sociedade infere-se da resposta de uma senhora cadastrada no Bolsa-Família, ao repórter que a ouvia: “Sei que há ladrões, sei que há quadrilhas, mas meus filhos já não passam fome”. Não leu o preceito bíblico: “Nem só do pão vive o homem”.

Os escândalos sucedem-se ininterruptamente, desde o imoral mensalão até o mais recente dos cartões corporativos. Cícero, nas suas verrinas célebres contra Catilina, defensor dos pobres, mas lascivo, demagogo e assassino, bradava furibundo: “O tempora, O mores” (Ó tempos, Ó costumes). Não contamos com Cíceros. A economia, que vai bem, asfixia “a santa indignação” de que falava Bobbio. A todos os delinqüentes, Lula perdoa ou justifica. Ao revés, o íntegro procurador-geral da República os indicia e o Supremo abre processos cujo destino é a prescrição. Traficantes de droga também se beneficiarão da prescrição, graças à lentidão proposital (de até oito anos), da sentença de um magistrado que os julga.

A corrupção se espraia. Ora são centenas de prefeitos municipais acusados até de apropriação indébita de verbas federais destinadas à educação, ora é o ministro da Agricultura denunciando fraude de pecuaristas e frigoríficos, comprometendo a credibilidade do Brasil na exportação de carne. Em seu desabafo, o presidente demissionário da Comissão de Ética disse não ter meios de obrigar o ministro a submeter-se à sanção: “Só temos nossa consciência e nossa autoridade moral”. Mas no Brasil de hoje a moral está anestesiada e a consciência asfixiada.