Jarbas Passarinho foi ministro de Estado, governador e senador
Abro o jornal e leio duas
notícias que me chamam a atenção. Uma, das eleições no nosso vizinho
Paraguai. A outra, sobre a cerimônia de posse do egrégio ministro Gilmar
Mendes, no Supremo. Sugerem reflexão não exatamente profunda, mas algo
pitoresca também. Uma é ilustrada com a figura do monsenhor Fernando
Lugo, que venceu as eleições para presidente do Paraguai. Um grupo de
admiradores (que certamente será bem maior daqui para frente) festejava
a vitória. Considerado bispo rebelde, pelo Vaticano, e por isso
suspenso, uma das primeiras homenagens que recebeu foi a do núncio,
levando-lhe um presente em nome papa. Todos em riso franco, o que é
natural, os braços levantados ao alto, a maioria de punhos fechados. A
mão direita do novo presidente, o piedoso ex-bispo, era a que mostrava
os punhos mais cerrados, acompanhado de um riso largo como de todo
candidato ungido pelas urnas, e particularmente porque selava o fim de
uma oligarquia do Partido Colorado, que mandou no país de Solano Lopez
seis décadas.
O saudoso Franco Montoro,
quando liderava o Partido Democrata Cristão, costumava, nos comícios,
levantar a mão direita, punho fechado e a mão esquerda imóvel ladeando o
corpo rijo em completa imobilidade, em conexão com esta frase: “Nem o
punho cerrado do ódio comunista, nem a indiferença dos conservadores
causadores da injustiça social, mas o braço da fraternidade”. Terminava
pondo a mão esquerda no tórax, acima do lugar do coração, sob aplausos
dos presentes, até de ainda não correligionários tocados pela mensagem
de amor cristão. Já o punho cerrado da mão direita era a saudação
universal dos partidários do emblema foice e martelo, pelo menos nos
idos da Terceira Internacional, a leninista. Daí o tropo oral de efeito
ideológico de Montoro e a nossa reflexão sobre o gesto de Sua
Excelência, o monsenhor Lugo, que nega ter intimidade com a obra famosa
de Marx. Chega a acrescentar que também não aspira a partilhar as idéias
do neo-comunista, o caudilho venezuelano Chávez.
Tanto isso faz sentido que
teve o monsenhor o apoio da ultra-direita paraguaia, que faz dele o
vencedor do “imperialismo” brasileiro, objetivando mudar o Tratado de
Itaipu. Na campanha foram dele as seguintes palavras: “Vamos imitar o
Evo, que enfrentou o Brasil e comemorou a vitória”. Já disse um
historiador altamente polêmico (o que por si próprio nega a neutralidade
histórica), que se Lula fosse presidente na República Velha “teria dado
o Brasil à Bolívia e Santa Catarina à Argentina”. O historiador não
conhece que a amizade que liga os “companheiros”, desde 1980, na América
Latina, no Foro de São Paulo, é feita de inabalável solidariedade.
Naquela altura propunham-se (era o lema deles) “fazer dar certo o que
não deu na Europa Oriental”, ou seja, um comunismo onde o Muro de Berlim
não desabasse. Solidários, sim, embora uns mais pragmáticos, como Lula,
que logo expulsou do PT os radicais de esquerda, e já é reconhecedor dos
méritos de Médici e Geisel, justificando-se, perante a surpresa dos
repórteres, “que não se pode julgar os homens por fatos isolados, mas
por tudo que fizeram” (a frase não é literal, mas publicada).
O eminente monsenhor traz
como flâmula de sua tropa não a revolução armada, mas a da pressão para
multiplicar por oito, ou no mínimo por seis, os US$ 380 milhões por ano
que o Brasil paga pela eletricidade que importa do sócio paraguaio. Um
belo negócio para o país amigo que, na construção da maior hidrelétrica
do mundo, só entrou com a metade da água do Rio Paraguai. Mas os jornais
já noticiam, louvados na declaração extemporânea e peremptória do
ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que o Brasil vai ceder
ao pleito do monsenhor Lugo. Lula (com seu complexo de livrar-se do
“passado imperialista” dos militares) repetirá o que fez com Evo,
travestido de Davi para combater o Golias brasileiro. Entregou-lhe as
refinarias da Petrobras e aumentou o preço que pagamos pelo gás
boliviano.
A outra foto só a nós diz
respeito, pois é uma lição brasileira de democracia e de civilidade dos
que o jornal chama de “caciques da política brasileira desfilando na
Corte Suprema”. O fotógrafo conseguiu a maravilha de pôr os supostos
caciques em pose reverencial, lado a lado, certamente flagrados ao
sentarem-se. José Sarney, bigode e cabelos negros, sóbrio e
circunspecto, compatível com a solenidade. Atrás, Fernando Collor,
entremostrando o começo dos cabelos grisalhos no parietal, contendo um
leve sorriso, e à sua esquerda, um Fernando Henrique Cardoso
envelhecido, sério e sugerindo ser o mais idoso de todos. O exemplo
democrático está no esquecimento recíproco. De Sarney, a quem Collor
dizia que, ao sucedê-lo, mandaria prendê-lo no mesmo dia. De Collor, ao
olvidar os esforços de Sarney para o seu impeachment, com discutível
pena acessória de direitos políticos por oito anos. De FHC, ao lado de
Collor, cabelos totalmente grisalhos, acentuadamente cabisbaixo,
ministro das Relações Exteriores ou da Fazenda, do governo em que se deu
o impedimento de Collor.
Do poeta Carlos Ayres de
Brito, tenho citado filosófico e belo verso: “O tempo não é solidário
com o relógio que pára”.