Nos Estados Unidos, a
nova geração é historicamente revisionista. Compreendem-se as
críticas às guerras contra o Vietnã e o Iraque. No primeiro, porque,
após o fim da Segunda Guerra Mundial e o tempo que durou a Guerra
Fria, as perdas de vidas humanas comprometeram a estratégia de
adotar a fronteira ideológica, em vez da geográfica, e em Bagdá por
julgar Saddam Hussein portador de armas de destruição em massa, além
de envolvimento com o terrorismo da Al-Qaeda.
No caso das fronteiras
ideológicas, a política externa americana visava a tentar impedir o
crescimento da expansão do comunismo no mundo. Por isso, as guerras
da Coréia e Vietnã, a despeito de estarem geograficamente a milhares
de quilômetros dos lindes americanos. Preponderou o medo do efeito
dominó, segundo o qual se o Vietnã caísse levaria de roldão o
Camboja, a Tailândia e todo o sudeste da Ásia. Os Estados Unidos
passaram a ser chamados de polícia do mundo e, inevitavelmente,
formaram um império pelo que estão pagando alto preço.
Mas o Brasil nunca
aspirou a ter política hegemônica. A projeção do Brasil no âmbito da
América do Sul é a conseqüência natural da sua superfície e do seu
PIB. Nada tem com a teoria de Gramsci, que está em moda citar, como
estratégia de domínio a partir da hegemonia. Logo, não cabe a
motivação hostil que leva alguns de nossos vizinhos a nos atribuir
ações imperialistas.
O Brasil disso está
sendo injustamente acusado pelos vizinhos esquerdistas companheiros
de Lula de 1990, do Fórum Socialista de São Paulo. O guru de Hugo
Chávez, o general Alberto Muller Rojas, que lhe ensinou geopolítica
na Escola Militar, descobriu que somos imperialistas “desde o
Tratado de Tordesilhas de 1494” . É tão bom professor que desconhece
resultarem nossas fronteiras de arbitragens e não de guerras de
conquista. A única que travamos foi para nos defender de um
megalômano.
Supostos historiadores
revisionistas, muito piedosos, que nos acusam de ter esmagado o
Paraguai e quase exterminado sua população, admitem justa, sob a
influência da ideologia, a necessidade de rever acordos econômicos
contemporâneos, ditos espoliativos, que assinamos com países mais
fracos. Quanto à guerra de cinco anos, Solano Lopez tinha um
exército de 80 mil homens e nós apenas 16 mil dispersos em todo o
Império. De início levou a melhor, dada a superior correlação de
forças. Ocupou Uruguaiana, que só foi reconquistada quase um ano
depois, e Mato Grosso, até Corumbá, retomado ao fim da guerra que,
de fato, rarefez a população masculina. Mas não responsabilizam
Solano Lopez por isso. Impávido, jamais admitiu a rendição, mesmo
quando seu exército estava reduzido a cerca de 400 homens, contando
adolescentes e crianças, que nos combatiam com galhardia,
sacrificando corajosamente a própria vida.
A revisão dos acordos
celebrados com o governo da Bolívia para fornecimento de gás e o de
energia elétrica de Itaipu, com o Paraguai, são uma deselegância se
não um insulto ao nosso passado próximo, como se fossem impostos
pelo Brasil, em detrimento dos interesses não defendidos pelos mais
fracos, no estilo dos imperialistas, implicitamente confessado nas
palavras de nosso presidente: “É preciso ajudar os mais pobres”. Evo
Morales já conseguiu rever, a despeito de altamente favorável à
Bolívia, o contrato com a Petrobras.
O Brasil concordou em
pagar preço maior pelo gás. Construímos o gasoduto, financiamos a
pesquisa de novos poços e pela leonina cláusula do take or pay. Em
1993, só consumíamos 10 milhões de metros cúbicos de gás, mas
pagamos pelos 30 milhões contratados. Agora, não tendo os 30 milhões
que já consome nossa indústria, a Bolívia, que fez outros contratos,
inclusive com a Argentina, não tem como honrá-los, já que prometeu
vender o que não tem. Então, pediu ao Brasil que diminuísse dos 30
milhões a quantidade de gás necessária à Argentina, que enfrenta uma
crise energética, o que foi negado.
Como chamar de
imperialista uma negociação dessa natureza? Mas Evo já tinha uma
vitória anterior: expropriou, militarmente, duas refinarias
brasileiras. Fez doutrina. O candidato favorito à presidência do
Paraguai nele inspirou-se para tentar forçar o Brasil a rever o
contrato que temos com o Paraguai, reclamando aumento do preço da
energia gerada em Itaipu. O senhor Lugo, que trocou as vestes
clericais de bispo católico pela política, veio ao Brasil para gerar
efeito eleitoral. Disse levar a “promessa de Lula a formar uma mesa
de técnicos para analisar o contrato de Itaipu”. Do êxito de Evo
Morales, disse, antes, aos eleitores: “Se Evo conseguiu vencer o
enfrentamento com o Brasil, por que não nós?” Voltou ex-bispo e bom
latinista repetindo César: “Veni, vidi, vice”. A “bolsa ditadura” da
cientista política Lúcia Hipólito é internacional.