Leio a manchete da primeira
página do Correio Braziliense: “O espetáculo do crescimento chega com o
PAC”. Qual crescimento? Perguntei-me a mim mesmo. Recordei-me de já ter
o presidente anunciado, com seu entusiasmo habitual, o “espetáculo do
crescimento”, no mês de julho de 2005. Nunca “neste país” haveríamos de
ter, segundo nosso moderado presidente, na traiçoeira profissão de
profeta, crescimento igualável.
A filósofa Marilena Chauí,
festejada pelas esquerdas, erudita especialista em Spinosa, num momento
de empolgação usara a famosa expressão: “Quando Lula fala, o mundo se
ilumina”, mas ao cabo de 2005, o PIB — como um direitista incorrigível —
não se iluminou. O IBGE, dependendo de quem o dirige, tanto pode ser
comparável às sinistras revelações da caixa de Pandora, como, ao
contrário, ao otimismo de um usuário dos óculos de Pangloss. A maldade
de Pandora vencera antes, mas a esperança, que Pandora não pôde impedir
de entrar na caixa, tranqüilizou os desesperados.
Embora longe do “espetáculo
do crescimento”, o PIB crescera 2,2%, no ano seguinte. Nada de
espetacular, mas o suficiente para ter sido, dentre todos os países das
Américas, só maior que o do Haiti que, como todos sabem, é a jóia
industrializada do Caribe e seu povo desfruta renda per capita que gera
inveja à Suécia. A cintilante frase da filósofa parece tornar-se verdade
a partir do PAC milagroso já, infelizmente, ameaçado pela perda dos R$
40 bilhões devidos à CPMF, extinta pelo capricho da oposição.
Entrementes, uma excelente
surpresa nos provocou euforia inesperada. O Banco Mundial — informa o
governo — mudou o critério anterior de cálculo do crescimento, que
residia no valor do PIB, como dividendo e a população, como divisor.
Passou a fazê-lo segundo o poder de compra da moeda de cada país, o
dólar batendo todos os recordes de desvalorização. Pelo novo critério,
saltamos (aí sim, espetacularmente) para a sexta economia do mundo,
ultrapassando alguns dos sete países mais ricos do planeta. Com o poder
de compra tão favorável, chegará uma multidão de turistas em navios
soberbos, muito diversos do Santa Maria, Pinta e Nina do almirante
Cabral, seguindo as instruções da Corte Portuguesa, certa da existência
do que viria a chamar-se Brasil, ou devido a uma calmaria que jamais
ocorreu igual.
Nada obstante todos os
precedentes de corrupção, mensalão, sanguessugas, superfaturamento de
obras públicas, abandono de estradas, apagão aéreo interminável,
assistencialismo sem crescimento, distributivismo precoce, a sociedade
está feliz. O Fome Zero fracassou, mas a Bolsa Família (aumento dos
pré-existentes, Bolsa Escola, vale gás, auxílio alimentação etc.) fez
saltar, pelo poder de compra aumentado, milhares de miseráveis (que
viviam com a renda de US$ 1 por dia) para o nível imediatamente
superior: o da pobreza, e todos os brasileiros se passaram a
alimentar-se três vezes ao dia.
Aquilo que Lula, quando
oposição, chamava de esmola é agora bendito assistencialismo, não
importando que as estradas sejam esburacadas. A cada tapa-buraco, o
presidente, que não construíra ou mantivera nenhuma rodovia, dele fazia
com sua inegável eloqüência, um comício às vésperas de eleições. Pouco
se lhe dava que o tapa-buraco resistisse apenas por seis meses. Nem
qualquer usina térmica precisou ser construída, de qualquer obra de
infra-estrutura se tem notícia, mas a arrecadação comemora sucessivas
proezas.
A sociedade está feliz, como
nunca, “neste país”. Só não comemoram os puritanos, que acham dever de
cada político, cada negociante, cada governante ser um modelo de ética
em tudo. No passado recente a sociedade se revoltou vendo o que faziam
os mercadores de Veneza, capitaneados pelos hierarcas do PT. Ardilosos,
esconderam do presidente a ladroagem. Ele nada sabia, coitado, do que
faziam os “companheiros” à sua volta, não nas “caladas das noites”, mas
no alarido dos dias, liderados por um êmulo do rei Midas, que chamou os
milhões, surrupiados através de licitações fraudadas, de “valores não
contabilizados”.
Contaram, desde logo, com um
criminalista de notório talento de alquimista, que rebatizou os milhões
de reais “não contabilizados” de “sobras de campanha”. Prestigioso, o
penalista aproveitou-se da distância que medeia Brasília da cidade luz,
onde o presidente Lula nos representava. Fê-lo aderir à tese das “sobras
de campanha”. Brilhava o ministro da Justiça dentre os 38 ministros de
Estado, mais as secretarias com status de ministério. Uma delas, por
sinal, cintilantemente chefiada por alguém que, pouco acima de 25 anos
de idade, já galvanizava os estudantes de direito da Universidade de
Harvard, de onde guarda um delicioso sotaque saxônio, que ajuda a causar
maior admiração. Pena que se dedique a grandes realizações do futuro,
confirmando o que Stepan Zweig profetizou para o Brasil.
O presidente, para
felicidade de seus “companheiros”, perdoa, generoso, os inveterados
conjugadores do verbo rapio, bem como seus agressores do passado.
Trouxe-os para a sua intimidade, Seu partido, gonfaleiro ou
porta-bandeira da ética política, acaba de eleger, na sua recente
Convenção, muitos deles para os postos principais da Executiva do PT.
A
nação está feliz. Nas pesquisas, 65% aprovam o presidente. Não se pode
culpar o tronco sadio das árvores quando suas folhas caem, no outono.