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Correio Braziliense, 08 Jan

Sociedade feliz

Jarbas Passarinho

Foi ministro de Estado, governador e senador

 

Leio a manchete da primeira página do Correio Braziliense: “O espetáculo do crescimento chega com o PAC”. Qual crescimento? Perguntei-me a mim mesmo. Recordei-me de já ter o presidente anunciado, com seu entusiasmo habitual, o “espetáculo do crescimento”, no mês de julho de 2005. Nunca “neste país” haveríamos de ter, segundo nosso moderado presidente, na traiçoeira profissão de profeta, crescimento igualável.

A filósofa Marilena Chauí, festejada pelas esquerdas, erudita especialista em Spinosa, num momento de empolgação usara a famosa expressão: “Quando Lula fala, o mundo se ilumina”, mas ao cabo de 2005, o PIB — como um direitista incorrigível — não se iluminou. O IBGE, dependendo de quem o dirige, tanto pode ser comparável às sinistras revelações da caixa de Pandora, como, ao contrário, ao otimismo de um usuário dos óculos de Pangloss. A maldade de Pandora vencera antes, mas a esperança, que Pandora não pôde impedir de entrar na caixa, tranqüilizou os desesperados.

Embora longe do “espetáculo do crescimento”, o PIB crescera 2,2%, no ano seguinte. Nada de espetacular, mas o suficiente para ter sido, dentre todos os países das Américas, só maior que o do Haiti que, como todos sabem, é a jóia industrializada do Caribe e seu povo desfruta renda per capita que gera inveja à Suécia. A cintilante frase da filósofa parece tornar-se verdade a partir do PAC milagroso já, infelizmente, ameaçado pela perda dos R$ 40 bilhões devidos à CPMF, extinta pelo capricho da oposição.

Entrementes, uma excelente surpresa nos provocou euforia inesperada. O Banco Mundial — informa o governo — mudou o critério anterior de cálculo do crescimento, que residia no valor do PIB, como dividendo e a população, como divisor. Passou a fazê-lo segundo o poder de compra da moeda de cada país, o dólar batendo todos os recordes de desvalorização. Pelo novo critério, saltamos (aí sim, espetacularmente) para a sexta economia do mundo, ultrapassando alguns dos sete países mais ricos do planeta. Com o poder de compra tão favorável, chegará uma multidão de turistas em navios soberbos, muito diversos do Santa Maria, Pinta e Nina do almirante Cabral, seguindo as instruções da Corte Portuguesa, certa da existência do que viria a chamar-se Brasil, ou devido a uma calmaria que jamais ocorreu igual.

Nada obstante todos os precedentes de corrupção, mensalão, sanguessugas, superfaturamento de obras públicas, abandono de estradas, apagão aéreo interminável, assistencialismo sem crescimento, distributivismo precoce, a sociedade está feliz. O Fome Zero fracassou, mas a Bolsa Família (aumento dos pré-existentes, Bolsa Escola, vale gás, auxílio alimentação etc.) fez saltar, pelo poder de compra aumentado, milhares de miseráveis (que viviam com a renda de US$ 1 por dia) para o nível imediatamente superior: o da pobreza, e todos os brasileiros se passaram a alimentar-se três vezes ao dia.

Aquilo que Lula, quando oposição, chamava de esmola é agora bendito assistencialismo, não importando que as estradas sejam esburacadas. A cada tapa-buraco, o presidente, que não construíra ou mantivera nenhuma rodovia, dele fazia com sua inegável eloqüência, um comício às vésperas de eleições. Pouco se lhe dava que o tapa-buraco resistisse apenas por seis meses. Nem qualquer usina térmica precisou ser construída, de qualquer obra de infra-estrutura se tem notícia, mas a arrecadação comemora sucessivas proezas.

A sociedade está feliz, como nunca, “neste país”. Só não comemoram os puritanos, que acham dever de cada político, cada negociante, cada governante ser um modelo de ética em tudo. No passado recente a sociedade se revoltou vendo o que faziam os mercadores de Veneza, capitaneados pelos hierarcas do PT. Ardilosos, esconderam do presidente a ladroagem. Ele nada sabia, coitado, do que faziam os “companheiros” à sua volta, não nas “caladas das noites”, mas no alarido dos dias, liderados por um êmulo do rei Midas, que chamou os milhões, surrupiados através de licitações fraudadas, de “valores não contabilizados”.

Contaram, desde logo, com um criminalista de notório talento de alquimista, que rebatizou os milhões de reais “não contabilizados” de “sobras de campanha”. Prestigioso, o penalista aproveitou-se da distância que medeia Brasília da cidade luz, onde o presidente Lula nos representava. Fê-lo aderir à tese das “sobras de campanha”. Brilhava o ministro da Justiça dentre os 38 ministros de Estado, mais as secretarias com status de ministério. Uma delas, por sinal, cintilantemente chefiada por alguém que, pouco acima de 25 anos de idade, já galvanizava os estudantes de direito da Universidade de Harvard, de onde guarda um delicioso sotaque saxônio, que ajuda a causar maior admiração. Pena que se dedique a grandes realizações do futuro, confirmando o que Stepan Zweig profetizou para o Brasil.

O presidente, para felicidade de seus “companheiros”, perdoa, generoso, os inveterados conjugadores do verbo rapio, bem como seus agressores do passado. Trouxe-os para a sua intimidade, Seu partido, gonfaleiro ou porta-bandeira da ética política, acaba de eleger, na sua recente Convenção, muitos deles para os postos principais da Executiva do PT.

A nação está feliz. Nas pesquisas, 65% aprovam o presidente. Não se pode culpar o tronco sadio das árvores quando suas folhas caem, no outono.