Error
  • Error loading component: com_imageshow, 1

GEN SERGIO AUGUSTO DE AVELLAR COUTINHO - Marco Antonio Esteves Balbi

 

 

 

“O extraordinário é que podemos ensinar a todos tudo o que sabemos e, no entanto, não ter perdido nada. Continuamos a saber tudo como antes, e isto é partilhar!”

Marco Antonio Esteves Balbi e a prestimosa colaboração do Gen Lannes, do Gen Bandeira e do Gen Oliveira Sousa

Há muitos anos, ornamenta a parede da cozinha da minha casa um azulejo presenteado por uma amiga, com uma pintura do casario do Desterro, em São Luís do Maranhão. Nele está grafada a citação que inicia o texto.

Nos últimos dias, após o desenlace do nosso querido amigo Gen Coutinho, tenho pensado muito no significado dessa frase. Acho que não conheci nenhum outro ser humano capaz de partilhar com tal desprendimento os conhecimentos que possuía.

Desde o aparentemente longínquo dia 14 de agosto, Dia dos Pais, data em que o Gen Coutinho baixou ao hospital, tenho insistentemente redigido, mentalmente, textos que gostaria de escrever para expressar meus sentimentos para com ele, sobre o que ele representou para mim e para tantas outras pessoas e, principalmente, para não deixar que se percam os ensinamentos que ele partilhou conosco.

Como fazer isto, de maneira objetiva? Eis a grande questão que se impõe.

Conheci o Gen Coutinho no ano de 1988 ou 1989, não me lembro exatamente, quando eu cursava a Escola de Comando e Estado-Maior nos Estados Unidos. Como parte integrante do permanente intercâmbio entre os Exércitos dos dois países e suas escolas, coube ao Gen Coutinho proferir palestra para o corpo discente daquela Escola. E ele conquistou a platéia logo na introdução, ao explicar que pretendia ser o guest speaker e não o guest sleeper. Para quem não conhece os hábitos, costumes e tradições da sociedade americana, lá, nem homília começa sem uma piada, e o Gen Coutinho sabia disto muito bem.

Os anos se passaram e voltei a encontrá-lo, brevemente, numa viagem empreendida por um grupo de amigos, no qual visitamos a França, a Espanha e Portugal. Mas, enquanto D. Iara, sua esposa e companheira de vida, esteve conosco o tempo inteiro, ele só nos encontrou ao final do percurso.

Quando o Clube Militar promoveu os “Encontros para a Democracia”, reunindo grupos de civis e militares de todo o Brasil, preocupados com os rumos que o grupo político dominante vem imprimindo aos destinos da nação brasileira, foi natural que o Gen Coutinho participasse e emprestasse sua valiosa contribuição. Naquela oportunidade, ele e o jornalista Reinaldo Azevedo apresentaram o mesmo inquietante diagnóstico do quadro brasileiro, bem como o que lhes parecia o remédio adequado para se contrapor ao processo revolucionário em andamento. Estávamos no final do ano de 2009 e ambos vaticinaram, naquela oportunidade, que a Dilma estava eleita presidente do Brasil, quando ela ainda pontuava com traço nas pesquisas de opinião.

Aproximei-me, então, ainda mais do Gen Coutinho, até porque fiquei responsável por remeter ao Reinado Azevedo um exemplar do livro “A Revolução Gramscista no Ocidente”. A história da maneira pela qual o General decidiu estudar Gramsci, na idade em que muitos de nós mal tem paciência para ler o jornal, dá um pouco da dimensão deste homem. E ele leu aqueles famigerados “Cadernos do Cárcere”. E os entendeu. E os decifrou. E tentou, de todas as maneiras, fazer-nos compreender o que eles representam para a derrocada da democracia. Seu livro, entretanto, foi pouco percebido fora dos círculos acadêmicos, não obstante algumas poucas tentativas. Rodrigo Constantino, por exemplo, o resenhou para o Instituto Liberal. Então, para melhor divulgar o perigo representado pelo gramscismo, o Gen Coutinho passou a realizar palestras sobre o assunto, por ele intitulado de “A Revolução Invisível”, nome bastante sugestivo.

Passei a acompanhar as suas atividades mais de perto. Em algumas situações fui seu interlocutor privilegiado. Ao desempenhar um cargo na Revista do Clube Militar, em sala contígua à que ele por tantos anos ocupou como Diretor Cultural, recebia sua visita constante. Permanentemente bem humorado, por vezes portando uma bengala, que, — em suas palavras — lhe dava um charme especial, sempre tinha um gesto de carinho e atenção para com os auxiliares da Revista que preparavam as “transparências” das palestras que proferia, para os mais diferentes públicos, e não só sobre o gramscismo. Era, também, um expert em liderança, com livro publicado sobre o assunto. Discorria, também, sobre a Intentona Comunista e sobre a Revolução de 31 de Março de 1964.

Ao aproximar-se do Jorge Roberto Pereira, responsável pelo site “Farol da Democracia Representativa”, passou a dirigir-se também ao público jovem, universitários do interior do Brasil. Jorge já escreveu emocionado artigo sobre a sua relação quase filial com o General. As “tertúlias democráticas” protagonizadas pelos dois estenderam-se para as salas do Clube Militar, reunindo um número maior de pessoas e incluindo jovens profissionais liberais. As várias apostilas que produziu sobre os temas abordados podem ser consultadas no site do Farol. Cabe-nos reunir as que faltam e dar-lhes o mesmo destino, facilitando a consulta de todos.

Atualizou o livro “Cadernos da Liberdade”, recém-editado pela Biblioteca do Exército e já à venda, agora com o título “Cenas da Nova Ordem Mundial”. É um autêntico guia prático, para a compreensão da revolução cultural que varre nosso país. Sem a leitura dessa notável obra, ouso dizer, permaneceremos incapazes de conhecer em sua exata dimensão o planejamento que rege a inversão de valores, a crescente degradação dos valores cívicos e morais, a desmoralização das instituições e a insensibilidade da opinião pública diante do desolador panorama político-institucional brasileiro.

Preocupado com a infiltração nas Forças Armadas, o General Coutinho elaborou um opúsculo denominado “A Neutralização da Grande Barreira”. Explicava-nos, pacientemente, como os comunistas brasileiros se reuniram em Lisboa para analisar as três tentativas fracassadas de tomada do poder no Brasil e concluíram que só obteriam êxito na empreitada quando neutralizassem a grande barreira representada pelas Forças Armadas, em particular o Exército Brasileiro. O documento apresenta os seus famosos quadros explicativos, que por si só explanam e ilustram com objetividade ímpar o que se pretende aduzir.

Muitas outras pessoas com certeza escreverão com mais propriedade do que eu sobre o Gen Coutinho. O Cel Amaury ou o Gen Fábrega, seus amigos desde os anos 50 do século passado, com certeza o farão. Minha alma, porém, pedia que eu discorresse sobre o querido amigo que se foi. Resta-me, além da saudade e da falta que os seus conhecimentos me farão, divulgar e difundir tudo aquilo que ele nos deixou.

A sua urna fúnebre estava coberta com uma simples insígnia de comando de uma unidade da Infantaria brasileira. Assim ele o quis. As suas cinzas serão lançadas junto ao parque de instrução dos cadetes de Infantaria na Academia Militar das Agulhas Negras. Assim morreu o Gen Coutinho. Como um infante, combatendo na trincheira, pela democracia. Jorge Serrão, no site Alerta Total, ao noticiar a morte do General, enalteceu as obras que nos legou e chamou-o de combatente intelectual. Gostei do epíteto.

Que todos nós, seus seguidores, possamos continuar a lutar na trincheira da democracia, substituindo-o e empolgando outros combatentes para a resistência que se faz tão necessária e urgente.

 

 

 

Go to top