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Provocação
DENIS LERRER ROSENFIELD
A quem
interessa a radicalização dos conflitos em Rondônia, na Raposa Serra do
Sol? O Supremo Tribunal Federal arrogou para si a decisão final, que
deve intervir nas próximas semanas. Decidiu também pela manutenção do
status quo. Sustou, portanto, a retirada dos não-índios e dos índios que
são seus aliados. O que aconteceu? Um grupo de indígenas invadiu uma das
fazendas em litígio, com um discurso de "ocupação", que terminou
suscitando uma reação, certamente desmedida, porém reação a uma ação que
deveria ter sido impedida pela Polícia Federal lá presente.
O mais
surpreendente é que a atuação policial foi rápida na prisão dos que
reagiram à invasão e ausente no que diz respeito aos invasores. Afinal,
aguarda-se ou não uma decisão do Supremo? Ou se trata de desrespeitar a
mais alta Corte do país, sob o manto de uma suposta legalidade? Quando a
Polícia Federal chegou à região, cena do confronto com os arrozeiros,
efetuou a desobstrução de rodovias que tinham sido ocupadas pelos
manifestantes. Agiu de acordo com a lei, pois rodovias públicas não
podem ser ocupadas. O que ocorre agora? Os indígenas ocupam rodovias e
nada é feito. Num caso é contrário à lei e, noutro, não. Dois pesos e
duas medidas são a melhor forma de desrespeito ao estado de direito.
Convém
aqui ressaltar o papel desempenhado pelo Conselho Indigenista
Missionário (Cimi), pastoral da Igreja Católica. Observemos que os
indígenas têm sido objeto de uma destruição cultural, levada a cabo por
grupos religiosos de diferentes proveniências. Refiro-me à destruição
das religiosidades nativas. O assunto não é nem tema de discussão,
quando, historicamente, se trata - ou pelo menos se tratava - de uma das
mais importantes questões antropológicas. Há aqui um completo silêncio,
como se este fosse extremamente comprometedor para aqueles que dizem, no
entanto, defender a cultura indígena.
Ora, a
política desse setor da Igreja é ancorada em posições esquerdizantes,
utilizando todo um linguajar, que tem como objeto a implantação do
socialismo autoritário entre nós. Em nome da justiça social, as posições
cristãs são progressivamente abandonadas, culminando numa outra
conversão, a do marxismo como redenção dos povos. O seu vocabulário é
revelador. Num documento recente da Cimi Norte I, de 2 de maio, é
afirmado, a propósito dos conflitos em Roraima, que o problema central
reside na "ditadura do mercado sobre o direito dos cidadãos".
Não
deixa de ser curiosa essa mensagem religiosa, simplesmente retirada do
arsenal dos dogmas comunistas, totalmente falsos. Lá onde o mercado se
desenvolveu, com regras e instituições, a democracia representativa se
afirmou, produzindo direitos sociais, civis e políticos. Exemplos não
faltam: Inglaterra, países nórdicos, França, Alemanha, EUA. Lá onde o
mercado foi abolido, a pobreza foi generalizada, os direitos sindicais e
políticos abolidos, e a política se tornou a perseguição e eliminação
dos próprios cidadãos. Exemplos não faltam: União Soviética, Camboja,
Cuba, entre outros.
Nesta
perspectiva, a sua luta precisa de símbolos, símbolos que captem a
opinião pública, tendo como objeto infletir a política governamental e
influir diretamente junto ao STF. Estranhamente, silvícolas
"fotografaram" o acontecido, como se o seu propósito fosse precisamente
este: agir sobre a opinião pública. Mártires são necessários para esta
concepção teológico-política. O sangue e a morte são os seus
instrumentos. O seu objetivo, na invasão, consistia em suscitar uma
reação, armada, pois ela viabilizaria o avanço de sua "causa". Os que
reagiram com armas de fogo terminaram fortalecendo a política que
procuram contestar.
A
Comissão Pastoral da Terra, em um livro que é utilizado pelo MST,
"Cantos, cantando com a Mãe Terra", de 2003, sustenta claramente essa
posição: "Companheiros de jornada/dessa longa caminhada,/vamos falar um
pouquinho/dessa história que é formada/com luta, sofrimento/com sangue
que é derramado/daqueles que dão as mãos/aos companheiros massacrados".
Segue esse outro canto: "Acorda América, chegou a hora de levantar!/O
sangue dos mártires/ fez a semente se espalhar". Ou ainda: "Os nossos
mártires, irmãos de sangue, são as sementes da caminhada". Para o
abismo, certamente!
DENIS LERRER ROSENFIELD é professor de filosofia na Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. |