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No início de 1970, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) atuava, no Rio Grande do
Sul, através da Unidade de Combate "Manoel Raimundo Soares" (UC/MRS), um
organismo criado para executar as ações armadas e que, na época, estava constituído
por mais de duas dezenas de militantes e reforçado por elementos oriundos do Partido
Operário Comunista (POC).
A VPR havia, também, estabelecido aliança com o Movimento Revolucionário 26 de Março
(MR-26), um pequeno grupelho comunista dirigido por Almir Olímpio de Melo, mais conhecido
como "Paulo Melo". Procurando ajudar o MR-26, Félix Silveira Rosa Neto
("Frank", "Felipe"), comandante da UC/MRS, entregou, em janeiro, 30
mil cruzeiros a "Paulo Melo", que, não muito consciente de sua ideologia, fugiu
com o dinheiro.
O sucesso do seqüestro do embaixador dos EUA, executado em setembro do ano anterior, no
Rio de Janeiro, pela ALN e pelo MR-8, havia enciumado a direção da VPR, que não
conseguia imaginar-se nem menor e nem menos violenta do que essas duas outras
organizações comunistas.
A UC/MRS já havia sido aquinhoada, pelo Comando Nacional (CN), com o
"privilégio" de preparar a futura área tática (AT) da VPR, na região de
Três Passos, no norte gaúcho, para onde havia destacado quase uma dezena de seus
quadros. Precisava, entretanto, além de redimir-se do dinheiro perdido com o MR-26,
realizar uma ação que marcasse a sua presença no cenário da esquerda brasileira e que
caracterizasse a sua eficiência aos olhos do CN.
Assim, idealizou e conseguiu a autorização para o seqüestro do cônsul dos Estados
Unidos em Porto Alegre, Curtis Carly Cutter. Se um embaixador havia sido seqüestrado com
sucesso, por que não um cônsul?
Em fevereiro, os militantes da UC/MRS, reforçados por Gregório Mendonça
("Fumaça", "Leônidas", "Marcos"), que era militante do
MR-26 mas muito ligado aos da VPR, iniciaram os levantamentos do cônsul, que passou a ser
continuamente vigiado. Observaram que, durante os dias da semana, o cônsul deslocava-se
sempre acompanhado por um carro de segurança, um corcel branco, com dois agentes. Embora
acreditando na eficiência da sua violência revolucionária, a UC decidiu seqüestrá-lo
num fim de semana.
A quebra do silêncio da VPR, com o seqüestro do cônsul japonês em São Paulo, em 11
Mar 70, deu liberdade à UC/MRS para realizar a ação.
Em meados de março, Carlos Roberto Serrasol Borges ("Breno",
"Ademar", "Graco") alugou uma casa na Avenida Alegrete, 636, no bairro
Petrópolis, onde ele mesmo, com o auxílio de outros companheiros, guardaria o cônsul
durante as negociações.
Confiantes no sucesso do seqüestro, a UC solicitou ao CN que elaborasse, antecipadamente,
um comunicado que seria entregue às autoridades logo após a ação. Juarez Guimarães de
Brito ("Juvenal", "Júlio", "Fabio") incumbiu o responsável
pelo Setor de Inteligência, Celso Lungaretti ("Lourenço", "Douglas",
"Júlio", "Jonas"), de redigir o "Comunicado Número Um",
documento que veio a se tornar um libelo irretorquível contra as sandices comunistas:
"O Cônsul
norte-americano em Porto Alegre (Curtis Cutter) foi seqüestrado às ... horas do dia ...
de Março pelo Comando "Carlos Marighella" da Vanguarda Popular Revolucionária.
Esse indivíduo, ao ser interrogado, confessou suas ligações com a "CIA",
Agência Central de Inteligência, órgão de espionagem internacional dos Estados Unidos
e revelou vários dados sobre a atuação da "CIA" no território nacional e
sobre as relações dessa agência com os órgãos de repressão da ditadura militar.
Ficamos sabendo, entre outras coisas, que a "CIA" trabalha em estreita ligação
com o CENIMAR, fornecendo inclusive orientação a esse último órgão, sobre os métodos
de tortura mais eficazes a serem aplicados nos prisioneiros. A CIA e o CENIMAR sofrem a
concorrência do SNI, sendo que essa rivalidade é tão acentuada que em certa data um
agente da "CIA" foi assassinado na Guanabara por elementos do SNI. Esse informe
foi cuidadosamente abafado pela ditadura, mas o depoimento do Agente Cutter, nosso atual
prisioneiro, permitiu que o trouxéssemos a público."
A VPR, antes do seqüestro, já colhia "declarações" do "preso"
Cutter! E, numa antecipação aos dias atuais, já fazia acusações de torturas à CIA,
ao CENIMAR e ao SNI.
E prossegue o fantasioso comunicado:
Condenado à morte pelo tribunal revolucionário, a VPR condescendia em entregá-lo vivo,
desde que as autoridades libertassem "50 companheiros presos" e fossem
"enviados, em avião civil, para a Argélia".
No final do comunicado, a ameaça:
O ridículo do comunicado só seria superado pelo ridículo do seqüestro, marcado para o
dia 21 de março, um sábado.
Para a ação, precisavam de dois carros: um, era o "velho cancheiro", um Volks
bege já usado em outros assaltos e de propriedade do militante Irgeu João Menegon
("Zé"); o outro, um Volks azul, foi roubado de um casal de namorados, no
caracol de Petrópolis, pelos militantes Reinholdo Amadeo Klement ("Amâncio",
"Batista", "Chico", "Fernando") e o próprio Irgeu, tendo
Luiz Carlos Dametto ("Ernesto", "Juarez", "Braga") como
segurança.
Na tarde do dia aprazado, tudo pronto, o seqüestro fracassa pela primeira vez, em virtude
de erro no planejamento, com desencontros entre os participantes.
Nova tentativa foi marcada para duas semanas depois, 04 de abril de 1970, também um
sábado, com o "Comando Carlos Marighella" assim organizado com sete militantes:
- no carro da ação, o Volks azul, estavam o comandante da operação,
Félix Silveira Rosa Neto, com pistola calibre .45, o motorista Irgeu João Menegon, com
revólver .38, Fernando Damatta Pimentel ("Jorge", "Oscar",
"Chico"), com revólver .38, e Gregório Mendonça, do MR-26, com metralhadora
INA .45;
- no carro da cobertura, "o velho cancheiro", iam o
motorista, Reinholdo Amadeo Klement, com revólver .38, Antonio Carlos Araújo Chagas
("Augusto", "Roberto", "Beto", "Pedro"), também
com revólver .38, e Luiz Carlos Dametto, com metralhadora INA.
Além das armas, algumas granadas completavam o arsenal formado para o seqüestro.
Na manhã desse dia, o cônsul saiu sozinho de sua residência, com sua caminhonete
grande, uma Plymouth azul-marinho. Tentaram abordá-lo mas o excesso de tráfego nos
caminhos percorridos impediu o seqüestro, capitalizando o 2º fracasso.
À tarde, novamente saiu o cônsul, em direção à Vila Hípica. Em Vila Assunção,
tentaram encostar no seu carro mas, por mais uma vez, agora o 3º fracasso, o tráfego
impediu a ação.
Às 1600h, o cônsul encontrava-se numa rua sem saída, no bairro Tristeza. Agora nada
poderia dar errado. As armas foram empunhadas e Irgeu avançou com seu Volks azul;
entretanto, em vez de fechar e bloquear a saída, seu carro emparelhou com o do cônsul.
Este, pensando que os rapazes queriam fazer um "pega", arrancou o seu potente
Plymouth, deixando para trás os surpresos terroristas, amargando o 4º fracasso.
Combinaram, então, nova tentativa para essa mesma noite, marcando um ponto de encontro,
ao qual Luiz Carlos Dametto não compareceu. Apesar do desencontro e do desfalque,
resolveram agir assim mesmo. O que não conseguiram fazer com sete, quem sabe o
conseguiriam com seis ... Os freqüentes fracassos irritavam e açodavam os militantes do
"Comando Carlos Marighella".
Às 2000h, o cônsul Curtis Carly Cutter, acompanhado de sua esposa, saiu para visitar uns
amigos, estacionando na Avenida Independência, quase esquina com a Rua Pinheiro Machado,
nas proximidades do Teatro Leopoldina. Às 2230h, saiu o casal, acompanhado de um amigo.
Tomando o carro, foram seguidos até à Rua Vasco da Gama, quando, logo após a Rua Ramiro
Barcellos, foram ultrapassados e fechados pelo Volks azul dirigido pelo Irgeu, ocorrendo
uma pequena batida. Os três militantes do carro da ação, Félix, Fernando e Gregório,
desceram, cercando a caminhonete do cônsul. Este, à vista das armas, não titubeou:
arrancou violentamente, albaroando o Volks e atropelando o Fernando. Félix, por trás,
atirou com sua pistola .45, estilhaçando os vidros e acertando a omoplata da vítima que,
mesmo ferida, conseguiu escapar.
O Volks azul, batido, foi abandonado na Rua Dona Laura. O "velho cancheiro" foi
guardado para futuras ações.
Nessa madrugada, reunidos no "aparelho" em que o cônsul deveria estar sendo
guardado, analisaram as causas do cinco fracassos. Não sabiam, ainda, que esses fracassos
haviam deixado pistas que levariam, todos os oito militantes, à prisão; três deles, uma
semana depois.
Entretanto, nunca ninguém veio a saber o que os terroristas fizeram, naquele melancólico
momento de autocrítica, com o "Comunicado Número Um"...
F. Dumont
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