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por Carlos Marchi, jornalista, no Blog do Noblat
Ontem Noblat me perguntou se Lula vai levar no primeiro ou se haverá
segundo turno. Não era uma conversa de magos, mas de jornalistas,
razão pela qual falávamos de probabilidades, não de adivinhações.
Falando de probabilidades, eu disse a ele - e digo a vocês - que o
candidato Lula da Silva não tem boas probabilidades na eleição de
outubro. Digo mais: que o primeiro turno será muito mais difícil do
que aparenta agora e que, se houver segundo turno, pela lei das
probabilidades, Lula perde.
Apresso-me a explicar, antes que alguém me acuse de fazer mero
exercício futurológico irresponsável ou engajado, por que razões
sustento que Lula não é mais favorito, como era há dois anos, antes
do escândalo do mensalão, e há quatro meses, depois de ensaiar uma
efêmera recuperação. Aqui vão 20 razões para entender por que Lula
deve perder a eleição:
1. Hoje Lula vaga pelo sertão sem água no cantil - é vitalmente
dependente dos seus salvadores índices do Nordeste. Segundo a última
pesquisa Ibope, se considerarmos, por hipótese, apenas as outras
quatro regiões (sul, sudeste, norte e centro-oeste), Lula ganharia
apertado no primeiro turno por 37% a 32%, mas num segundo turno
Alckmin venceria por 46% a 41%. No Nordeste, Lula desafoga por 69% a
22%, mas é bom lembrar que o nordeste representa apenas 27% dos
votos brasileiros (São Paulo sozinho representa mais de 22%).
2. A mesma pesquisa Ibope aponta que, no segundo turno, Alckmin
vence no sul (46% a 40%) e no sudeste (46% a 40%) e empata no
conjunto norte/centro-oeste (46% a 44% para Lula, com diferença
dentro da margem de erro). Por aí se vê que as quatro regiões
parecem pender a favor de Alckmin antes mesmo de começar o horário
eleitoral gratuito, trunfo maior do tucano, e num momento em que
Alckmin ainda tem razoável índice de desconhecimento.
3. Depender do Nordeste para ganhar uma eleição presidencial é um
risco enorme. Lá está o eleitorado mais influenciável e mutante, em
razão do baixo índice cultural e das más condições sociais. Além de
acostumado a absorver influências sulinas, o eleitor nordestino é,
por exemplo, o que mais muda o voto na última hora para sufragar o
candidato que, segundo as pesquisas, vai ganhar a eleição (lá, o
índice médio chega a 10%; nas outras regiões não passa de 3%).
4. Alckmin está mirando fixo no eleitor nordestino. Desde que deixou
o governo paulista, em 31 de março, já foi 14 vezes ao Nordeste; de
lá são os senadores Tasso Jereissati (CE, presidente do PSDB),
Sérgio Guerra (PE, coordenador de campanha) e José Jorge (PE, vice).
Esta semana o ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que apóia
Alckmin, me revelou que está notando os primeiros sinais de quebra
de resistência de políticos do interior a fazerem campanha para
Alckmin. Não faziam antes porque achavam que ele não ganharia. Isso
pode significar que Alckmin começa a penetrar nos grotões.
5. De fato, a última pesquisa Ibope mostra que Alckmin cresceu 14
pontos porcentuais no norte/centro-oeste, 4 pontos no Nordeste de
Lula, 8 pontos no sul, 11 pontos nos municípios até 20 mil
habitantes e 8 pontos no interior. Todos esses grupamentos -
principalmente as cidades com menos de 20 mil habitantes e o
interiorzão - englobam grotões. Já Lula ficou estável em todos eles
e ainda caiu forte no Sul (de 42% para 37%).
6. A aposta de Lula no Bolsa Família - um contingente que não passou
da 4ª série do ensino fundamental e cuja maior concentração está no
Nordeste - se explica pela mudança substancial do perfil de voto
recebido por ele ao longo das quatro eleições presidenciais a que
concorreu. Segundo estudo do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop),
da Unicamp, 67% dos que votaram em Lula em 1989 eram analfabetos ou
tinham só o 1º grau; em 1994 esse número caiu para 59,4%; em 1998 se
manteve estável em 59,9%; e em 2002 voltou a cair para 52,8%.
7. Está claro que, ao longo das eleições, Lula perdeu uma parte
importante do seu eleitorado preferencial. Em 1989, 2/3 dos seus
votos estavam na classe menos instruída; 13 anos depois, esse
segmento contribuía apenas com a metade dos votos totais dele e a
composição do voto lulista foi engordada pela adesão da classe
média. Agora, ao perder segmentos importantes da classe média por
conta dos escândalos de corrupção, o presidente correu a compensar
com o resgate dos votos perdidos entre os pobres.
8. Na distribuição dos votos por regiões, a situação é parecida. Em
1989, metade (49,4%) do eleitorado de Lula estava no sudeste; em
1994, esse contingente reduziu-se a 41,8%; em 1998, cresceu a 44,5%;
em 2002 voltou a cair a 42,4%. Agora, em abril, as pesquisas
apontaram que esse índice estava em 33%. A presença do Nordeste na
composição do voto de Lula, que era de 31% em 1989, caiu para 28% em
1994, para 26,5% em 1998 e se alçou a 27,3% em 2002. Agora deu um
salto espetacular para 41,3%. Essa é a chave para entender a
necessidade de Lula reconquistar as antigas fontes do voto fácil: o
voto dele está migrando fortemente do Sudeste para o Nordeste; e o
voto dos mais pobres volta a crescer na composição do voto lulista.
9. Traduzindo em miúdos: a composição e a distribuição dos votos
potenciais de Lula são, neste momento, muito pouco homogêneos. E
eleições têm algumas regras sagradas. Da mesma forma que ninguém
(com exceção de Juscelino Kubitschek) se elegeu presidente sem
vencer em São Paulo (e Lula está perdendo), ninguém chega ao
Planalto sem ostentar uma distribuição de voto homogênea. Tanto mais
grave se essa votação heterogênea tiver prevalência de votos em
regiões periféricas, influenciáveis pelos grandes centros. Por uma
ótica antropológica, é muito mais crível esperar que o voto do
sudeste influencie o voto do nordeste do que vice-versa.
10. Lula terá sérios problemas quando começar a propaganda eleitoral
gratuita dos candidatos. O primeiro deles é que terá 7 minutos e 21
segundos diários contra 10 minutos e 22 segundos de Alckmin.
Considerando que os estrategistas tucanos - a GW - costumam exibir
alta eficiência na feitura dos programas políticos, é de esperar que
o programa de Alckmin tire ótimo proveito desse tempo mais amplo.
11. Lula terá a inevitabilidade de enfrentar, na campanha de TV e
rádio, o recrudescimento do tema da corrupção. Os adversários
certamente vão relembrar as tristes passagens das CPIs, as denúncias
chocantes, o cheque em branco, as explicações enroladíssimas, a
depuração dos infiéis na cúpula do PT, o escândalo tangenciando o
Palácio do Planalto. Dificilmente Lula escapará à sina de ter sua
agenda comandada pelos oponentes e será obrigado a perder precioso
tempo tentando explicações inúteis. E quanto mais ele falar nos
escândalos, mais eles avivarão a memória e suscitarão um
posicionamento contrário do eleitor.
12. Mas não é só. Entre os principais candidatos, além de Alckmin,
Lula terá dois rivais dispostos a extrair-lhe o fígado pela boca -
os senadores Heloísa Helena, do PSOL, e Cristovam Buarque, do PDT. E
o mais complicado é que os dois vieram do próprio PT e, por isso,
têm credibilidade nos ataques e críticas.
13. Para recuperar índices razoáveis de intenção de voto e da
avaliação do governo, Lula gastou fortunas, no primeiro semestre,
numa das mais rechonchudas mídias oficiais já vistas no país. Mas
depois de apenas um mês sem propaganda, tanto sua intenção de voto
quanto a avaliação do governo começaram a cair. Essa dupla queda
combinada é um péssimo sinal - mostra que a ascensão anterior não
teve lá grande consistência.
14. Do outro lado, Alckmin conseguiu sair de um patamar baixo de
intenção de voto sem precisar de muita exposição pública. Ele
cresceu em todas as regiões apenas com os programas do PSDB e
comerciais partidários distribuídos ao longo de junho, além da mídia
editorial - que ajuda pouco aos candidatos. Há quem diga que essa
mínima visibilidade já o entronizou no papel de anti-Lula. Se for
verdade, se ele de fato conseguir encarnar esse personagem, por si
só, e se o personagem estiver sendo esperado com a expectativa de um
messias, como se diz, vai ser muito difícil Lula ganhar.
15. Sem propaganda, em São Paulo, estado que governou por 5 anos,
Alckmin ganha de Lula por uma diferença quase igual à de Lula no
país inteiro. No país, segundo a última pesquisa Ibope, Lula
venceria no primeiro turno por 44% a 27%; Alckmin venceria em São
Paulo por 43% a 33%. No segundo turno, Lula venceria no país por 48%
a 39% e o tucano ganharia em São Paulo por 51% a 37%. A comparação é
abstrata, dirão contrariados lulistas, porque a eleição que vale é a
nacional. Sem dúvida, mas o fato de vencer bem em São Paulo, estado
que governou, dá a Alckmin o direito de usar ostensivamente no resto
do país o argumento de que quem o conhece, vota majoritariamente
nele.
16. E não é só o argumento. A quantidade de obras visíveis que
Alckmin fez em São Paulo e vai mostrar na televisão é
impressionante. Lula vive falando em comparar seu governo com o de
Fernando Henrique; pois bem, o governo Lula será comparado com o
governo Alckmin. E, pelo conjunto da obra, o petista perde feio,
vocês, de outros estados, verão na televisão, a partir de 15 de
agosto.
17. O estilo "pai dos pobres" de Lula, o jeito informal e meio
esculhambado, os erros de português, as gafes, a mania de falar
demais, no melhor estilo Fidel (ou seria Chávez?), a insistência de
palpitar em tudo (nem sempre de forma adequada), tudo isso já
cansou. As pessoas ainda não se deram conta disso porque não se
constituiu, de forma física e visível, a alternativa a Lula, a
encarnação do anti-Lula. Quando o eleitor se der conta - como parece
que começou a dar-se - periga virar hemorragia.
18. Com aquele seu jeito picolé de chuchu, Alckmin parece anódino,
sem sabor, sem carisma - mas funciona. Em 8 eleições, ganhou 7 e só
perdeu 1, no olho mecânico. Ele tem a fórmula da vitória e ela passa
por operar uma campanha suave, educada, didática. Repete
pacientemente os argumentos. Explica mil vezes, de forma simples. No
final, as pessoas apreendem.
19. Alckmin vai usufruir, na campanha, da credibilidade natural que
têm os médicos, personagens mais importante para as famílias,
principalmente no interior. Para as pessoas, sua palavra funciona
como se fosse uma lei, uma variável que pode manter a vida ou
redundar na morte. Todos param para ouvir o que o médico tem a
falar. Além disso, Alckmin tem um arco de conhecimento técnico muito
maior que o de Lula e um arco de palpites jogados ao vento
infinitamente menor.
20. Outro dia Serra reconheceu (e olhe que para Serra reconhecer
isso é porque deve ser verdade): "Alckmin é o melhor de nós
(tucanos) todos na televisão". Ou seja: não chega a ser um estouro
de carisma, mas é eficaz.
Cobrem-me o resultado final desse exercício de probabilidades no
final de outubro.
Carlos Marchi é repórter político de O Estado de S. Paulo
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