Notícias de Jornal Velho:
O testamento político de Carlos Marighela
por Carlos I.S. Azambuja em 02 de
dezembro de 2004
Resumo:
As idéias do terrorista Carlos Marighela e a participação cubana nas ações do terror
no Brasil são analisadas
por
Carlos
Azambuja.
© 2004
MidiaSemMascara.org
Os estudantes e os
intelectuais de classe média e não as amplas
massas, que segundo a doutrina científica são o motor da
revolução representaram a grande fonte de militantes e quadros da Ação
Libertadora Nacional e, ademais, de todas as outras organizações de luta armada.
Conrad Detrez, um
jornalista colaborador da revista trotskista francesa Front,
entrevistou Carlos Marighela em outubro de 1969, um mês antes de sua morte em São Paulo.
A capa da edição mensal de novembro dessa revista teve que ser alterada devido à sua
morte, no mês seguinte.
Carlos Marighela foi
membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro e foi o fundador e principal
dirigente da Ação Libertadora Nacional (ALN), principal organização de luta armada
atuante no Brasil no final dos anos 60 e início dos anos 70.
Joaquim da Câmara
Ferreira (Toledo) participante no
seqüestro do embaixador dos EUA, no Rio, em setembro de 1969 - que viria a ser o novo comandante da ALN, foi surpreendido com a morte de
Marighela em Paris, onde se encontrava, a caminho de Cuba, na casa de Aloysio Nunes
Ferreira (que viria a ser Ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso nos
anos de 2001 e 2002), juntamente com Conrad Detrez.
Toledo
viria a ser morto em São Paulo um ano depois, em 23 de outubro de 1970, graças às
informações precisas fornecidas por um militante da ALN, seu subordinado, cursado em
Cuba: José da Silva Tavares.
Pode ser dito que a
entrevista de Carlos Marighela para o Front foi seu
testamento político e guerrilheiro.
As principais questões
tratadas nessa entrevista foram as seguintes:
Front Por que iniciar pela guerrilha urbana?
Marighela Na
condição de ditadura em que se encontra o país, o trabalho de propaganda e de
divulgação a priori só é possível nas cidades. Movimentos de massa, sobretudo os que
foram organizados pelos estudantes, intelectuais, alguns grupos de militantes
sindicalistas, criaram nas principais cidades do país um clima favorável para a acolhida
de uma luta mais dura (ações armadas) (...) Os revolucionários conseguiram a
cumplicidade da população. A imprensa clandestina avança. As emissões piratas são
recebidas favoravelmente. A cidade reúne, pois, as condições objetivas e subjetivas
requeridas para que se possa desencadear com êxito a guerrilha (...) A guerrilha rural
deve ser posterior à guerrilha urbana, cujo papel é eminentemente tático.
Front Como imagina a continuação da guerrilha urbana?
Marighela
Pode-se fazer uma enormidade de coisas: seqüestrar, dinamitar, abater os chefes de
polícia, em particular os que torturaram ou assassinaram nossos camaradas; depois
continuar expropriando armas e dinheiro. Desejamos que o Exército adquira armamento
moderno e eficaz; nós o tiraremos dele. Já posso anunciar que raptaremos outras
personalidades importantes e por objetivos de maior envergadura do que libertar 15 presos
políticos, como aconteceu com o seqüestro do embaixador norte-americano.
Front Algumas simpatias em particular?
Marighela Estive
na China em 53-54, o partido (PCB) que me enviou (...) Na China estudei muito a
revolução. Mas, falando de inspiração, a nossa vem especialmente de Cuba e do Vietnã.
A experiência cubana, para mim, foi determinante, sobretudo no que respeita a um pequeno
grupo inicial de combatentes.
Front A guerrilha rural surgirá simultaneamente em
vários pontos do país?
Marighela
Atacaremos grandes latifundiários brasileiros e também americanos. Seqüestraremos e
executaremos os que exploram e perseguem os camponeses. Tiraremos gado e víveres das
grandes fazendas para dar aos camponeses. Desorganizaremos a economia rural, porém não
defenderemos nenhuma zona, nenhum território, nada disso. Defender é terminar sendo
vencido. É necessário que sempre, em todas as partes, como na guerrilha urbana, tenhamos
a iniciativa. A ofensiva é a vitória.
Front Você é contra as idéias de Regis Debray?
Marighela
Algumas idéias me foram úteis; quanto às do foco insurrecional, estou em desacordo.
Front Sua estratégia para o Brasil se insere dentro de
uma estratégia revolucionária continental?
Marighela Sem
dúvida, uma vez que temos que responder ao plano do imperialismo norte-americano com um
plano global latino-americano. Nós estamos ligados à OLAS (Organização
Latino-Americana de Solidariedade) (nota: organização criada em Cuba em janeiro de 1966)
bem como a outras organizações revolucionárias do continente e, em particular, às que
nos países vizinhos lutam com a mesma perspectiva que nós. É, enfim, um dever para com
Cuba; libertá-la do cerco imperialista ou aliviar seu peso, combatendo-o externamente em
todas as partes. A revolução cubana é a vanguarda da revolução latino-americana; esta
vanguarda deve sobreviver.
Essa entrevista foi
intermediada pelos dominicanos e realizada no Convento das Perdizes. Os mesmos dominicanos
que no mês seguinte, novembro , entregariam Marighela à polícia.
A partir da morte de
Marighela, o Serviço de Inteligência Cubano, através de Manuel Piñero Losada, passou a
centralizar e controlar diretamente os preparativos para a retomada da luta. Uma
intervenção radical na estrutura da organização foi efetuada e foi o seguinte o
diagnóstico cubano sobre a derrota: O processo foi
acelerado sem a menor infra-estrutura e condição política e militar. Tudo tinha sido
feito de maneira equivocada, com métodos empíricos.
Passaram a disputar o
espólio de Marighela, Clara Charf (em Cuba; codinome Claudia), sua mulher, Zilda Paula Xavier Pereira (em
Paris; uma coroa analfabeta de codinome
"Carmen" que graças a esquemas familiares queria dominar a ALN,
segundo definição de um militante), que além dela própria tinha três filhos e o
marido na ALN, e Joaquim Câmara Ferreira (em Cuba). Não custaram a chegar à conclusão
que a ALN estava estilhaçada e a discussão passou a girar em torno de frear a luta
armada, reconstruir a rede logística, fazer trabalho de massa e de base e retomar a
atividade dentro das fábricas e, finalmente, uma acusação que incomoda a todos: o grande responsável pela tragédia havia sido Manuel
Piñero Losada, pois sua postura e influência nas mudanças que ocorreram nas intenções
iniciais da Organização haviam sido maléficas. A luta armada é uma conseqüência da
luta de classes e os cubanos confundem luta de classes com guerra de classes. A ALN era
apenas um foco e o braço da revolução cubana no Brasil e, como Organização, nasceu em
Cuba.
A Organização inteira
no Brasil estava na cadeia e não havia estrutura para receber os companheiros que estavam
em Cuba, concluindo o treinamento, destinados a conformar uma coluna móvel na área rural. As avaliações eram frustrantes.
No entanto, o alinhamento da militância paulista e a decisão do contingente já
preparado para a guerrilha rural no Norte do Brasil de se colocar ao lado de Toledo na retomada da luta, assegura seu
predomínio como novo comandante. Após a morte de
Toledo, que foi sucedido por Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz, como se
não bastasse assaltar padarias, trocadores de ônibus e armazéns para sobreviver,
irrompe a loucura interna que deu origem ao justiçamento de Marcio Leite Toledo, também
treinado em Cuba, em 24 de março de 1971. Marcio foi assassinado com uma rajada de
metralhadora por quatro de seus companheiros, inclusive o então comandante da ALN que havia sucedido Toledo: Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz. Seu crime:
falar em voz alta o que diversos companheiros pensavam e ter escrito um documento
político assinalando erros. Foi acusado de vacilação
diante do inimigo. Segundo o panfleto deixado sobre seu corpo, na rua Caçapava,
em São Paulo, uma Organização revolucionária,
em guerra declarada, não pode permitir a quem tenha uma série de informações como as
que possuía, vacilações dessa espécie.
O desvario e a
inconseqüência em que a ALN estava mergulhada em 1971 tem um exemplo funesto: num
assalto a banco, no bairro da Lapa, São Paulo, o militante Ari Rocha Miranda, 22 anos,
foi ferido mortalmente por um companheiro seu. Seu corpo foi transportado dentro de um
fusca e enterrado em um local ermo, em Itapecerica da Serra, à beira de uma estrada
secundária. O corpo está lá até hoje, pois ninguém jamais o reclamou.
No entanto, o certo é
que todas as crises surgidas na esteira da morte de Marighela já existiam. A principal
delas era a ingerência dos cubanos no processo e na condução da revolução brasileira.
Houve sempre uma discordância dentro da ALN: a querela entre a guerrilha rural e urbana.
Os cubanos queriam a opção rural e haviam preparado os contingentes guerrilheiros para
isso. Todavia, alguns militantes do Rio de Janeiro e Minas Gerais, bem como alguns
militantes nordestinos, queriam a luta urbana, à lá
tupamaros.
Carlos Eugênio
Sarmento Coelho da Paz deixou o Brasil, para o Chile, em dezembro de 1972 e chegou a
Havana no ano seguinte, onde recebeu um curso de Estado-Maior ministrado pelo general
Arnaldo Ochoa Sanchez. Concluído o curso e pronto para regressar ao Brasil, Carlos
Eugênio deserta e passa a viver em Paris até a decretação da anistia.
A maioria dos
militantes da ALN que se encontravam em Cuba ou exilados em outros países, ao final de
intermináveis discussões, os contornos de um retrato político inquietante começaram a
aparecer: a perspectiva de vitória nunca existiu e a luz que avistam no fim do túnel
assusta: o caminho justo era a volta ao PCB, a grande família, e o abandono definitivo de
qualquer propósito de luta armada. Ou seja, uma traição ao caminho traçado por
Marighela.
Durante os cinco anos
de existência da ALN, a maior organização guerrilheira durante a luta armada foram
estes os números da derrota: 884 presos e condenados a penas de 6 meses a 10 anos, 64
mortos e cerca de 2 mil pessoas indiciadas em inquéritos. Isso é uma prova de que os
aparatos de repressão são iguais em todos os países. Elefantes brancos que demoram a
mexer-se, mas quando o fazem, destroem o que estiver pela frente.
Esse foi o princípio
do fim. Os 28 militantes que se encontravam em Cuba que abandonaram a ALN e criaram o
Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), a última tentativa do setor internacionalista
do Partido Comunista Cubano, especificamente o Departamento América, de manter a
atividade revolucionária na América Latina, ao voltarem para o Brasil foram todos
mortos, com a exceção do Comandante Daniel (José
Dirceu de Oliveira e Silva), um dos quadros escolhidos para essa missão, e três outros.
José Dirceu, em Cuba,
foi apresentado por Alfredo Guevara (Alfredo Guevara Valdés, um homossexual que em meados
dos anos 80 foi embaixador de Cuba junto à ONU) ao Ministro da Defesa Raúl Castro,
durante uma solenidade. A partir daí teve início a relação político e militar entre
os dois. José Dirceu teve o acesso franqueado por Raúl Castro a documentos importantes
sobre estratégia militar, informação e contra-informação e segurança militar.
Finalmente, fez um curso de Estado-Maior que o tornou especialista em questões militares
e lhe outorgou o grau de Comandante Daniel.
Foi essa especialização e mais o treinamento militar que o tornou habilitado, segundo os
internacionalistas cubanos, a viabilizar a entrada no Brasil do contingente guerrilheiro
que retomaria a luta armada. Foi ele, em Havana, o planejador do dispositivo
político-militar que dentro do Brasil receberia o grupo dos 28, cuja média de idade
variava de 22 a 24 anos. Isso em 1971. Esse foi o último comboio.
Essa história, no
entanto, ainda não foi contada.
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Bibliografia: A Revolução Impossível, Luis Mir, editora
Best Seller, 1994.