|
| |
| RECORDANDO
A HISTÓRIA |
JEFFERSOM CARDIM
E AS ESCARAMUÇAS DAS FORÇAS ARMADAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL (FALN) |
No Uruguai, a incontinência verbal de Brizola deixou-o em situação embaraçosa. A
afirmação de que voltaria vitorioso ao Brasil até dezembro de 1964 ficou comprometida
com os freqüentes insucessos de todas suas iniciativas.
A fim de satisfazer a crescente belicosidade de seus liderados - na maioria, ex-militares
cassados das Forças Armadas e da Brigada Militar do Rio Grande do Sul (BMRS) -, Brizola
resolveu desencadear mais um "plano revolucionário infalível".
Sob a designação genérica de "Esquema Geral", a "revolução"
brizolista iniciar-se-ia com um movimento sedicioso no Rio Grande do Sul que se juntaria
com forças que iriam penetrar no Mato Grosso, vindas da Bolívia, sob o comando do
ex-Coronel da Aeronáutica, Emanoel Nicoll. Com a estratégia em forma de pinça, Brizola
pretendia que a junção das duas forças fosse realizada, simbolicamente, em 31 de março
de 1965, para "comemorar" o primeiro aniversário do movimento militar que o
compulsara ao ostracismo.
Para a invasão dos pampas gaúchos, dentre as várias opções, Brizola escolheu a
"Operação Três Passos", de autoria do ex-Sargento da BMRS, Albery Vieira dos
Santos Júnior. Para comandá-la, foi escolhido o ex-Coronel de Artilharia do Exército,
Jeffersom Cardim de Alencar Osório, que trabalhava no Loyde Brasileiro em Montevidéu.
Na noite de 12 de março de 1965, na residência de Brizola, localizada na Praça
Independência, em Montevidéu, uma reunião do tipo "estado-maior" decidiu e
traçou os detalhes da Operação.
Um manifesto a ser divulgado pela Rádio Difusora de Três Passos, no dia 25 de março,
seria a senha para a "revolução brasileira".
Nessa mesma reunião, foi analisada a necessidade de recursos para a Operação, sendo
realizada uma "vaquinha" entre os presentes: Darcy Ribeiro contribuiu com 500
dólares, o ex-prefeito de Belo Horizonte, Ivo Magalhães, com 300 mil cruzeiros, o
ex-Sargento Albery com 10 mil cruzeiros e Jeffersom Cardim com 5 mil pesos uruguaios. O
único que não contribuiu foi o próprio Brizola, alegando que ainda não havia recebido
os dólares prometidos pelo governo cubano.
Na noite de 18 de março, Cardim, Albery e Alcindor Aires iniciaram a marcha para a
"revolução", alugando um táxi para levá-los de Montevidéu até Livramento,
onde chegaram no dia seguinte. Um outro táxi levou-os até Santa Maria, onde ficou
Alcindor para tentar conseguir mais adeptos para a empreitada.
Ao atingirem Catuípe, Cardim e Albery observaram que se continuassem fazendo a
revolução viajando de táxi em táxi veriam rapidamente terminar o dinheiro da
"vaquinha". Então, a fim de economizar os "recursos
revolucionários", conseguiram um automóvel emprestado por um amigo de Albery,
prosseguindo até Campo Novo, onde pousaram na casa de "Gringo", irmão do
ex-Sargento.
Nessa cidade, contataram com o professor Valdetar Antônio Dorneles, que preparou um
croqui de Três Passos - assinalando os pontos sensíveis - e comprometeu-se a conseguir
mais revolucionários para a ação.
Agruparam-se os reforços: Alcindor trouxe dois homens de Santa Maria, o ex-Sargento Firmo
Chaves chegou de Porto Alegre com mais sete, dentre os quais Adamastor Antonio Bonilha, e
Valdetar arregimentou mais nove.
Realizaram exercícios de tiro, treinaram montagem de acampamento, distribuiram as
missões e chegaram a um impasse: numa falha da logística do planejamento aprovado pelo
Comandante Brizola, não fora previsto o transporte para os combatentes. A solução foi
dada por "Zebinho", pai de Valdetar, que se lembrou de um amigo do PTB, que
tinha um velho Ford bigode, modelo 1929. Não seria por falta de transporte que a
revolução seria abortada.
Tiveram, entretanto, que fazer uma pequena alteração nos planos. A pequena quantidade de
arregimentados - duas dúzias de homens - não era suficiente para a prevista tomada do
quartel de Ijuí.
Na noite de 25 de março, Cardim e seu incrível "exército" partiram de Campo
Novo rumo a Três Passos, onde chegaram na madrugada do dia seguinte. Sem encontrar
resistência, assaltaram o posto policial da Brigada Militar, levando armamento,
fardamento e munição. Ainda nessa madrugada, tomaram os transmissores da Rádio
Difusora, onde Odilon Vieira, com sua voz de locutor, leu o "Manifesto à
Nação", que representava a senha para o início da "revolução
brasileira". No final da proclamação, alguns poucos notívagos, surpresos e
sonolentos, tomaram conhecimento da criação das "Forças Armadas de Libertação
Nacional" (FALN).
Ainda em Três Passos, contando com a cumplicidade do sub-delegado local, Cardim trocou o
velho Ford bigode por um caminhão Mercedes Benz apreendido, cor de tijolo. Para melhorar
a "caixinha" revolucionária, assaltaram a agência do Banco do Brasil. Alegando
não possuir as chaves do cofre, o gerente conseguiu repor os frustrados combatentes na
sua marcha revolucionária, todos blasfemando contra o azar de não ter sido encontrada a
chave.
Na pequena cidade de Itapiranga, assaltaram os postos policiais da Brigada Militar,
aumentando o seu arsenal.
Supondo que o Brasil ardia em revoltas, causadas pelo seu manifesto da madrugada, Cardim
roubou um rádio-receptor de uma loja comercial. Surpreso pela ausência de notícias,
começou a pensar que o plano fracassara. Restava-lhe, entretanto, a esperança de atingir
o Mato Grosso e realizar a junção com o "exército" de Nicoll, que deveria
estar vindo da Bolívia.
Guiados por Virgílio Soares de Lima, tio de Albery, os sediciosos atravessaram Santa
Catarina e penetraram no Paraná.
Ao tomarem conhecimento das estrepolias de Cardim e seu bando e temendo que pudessem se
dirigir a Foz de Iguaçu e perturbar a cerimônia de inauguração da Ponte da Amizade
sobre o Rio Paraná, com a presença dos presidentes do Brasil e do Paraguai, as
autoridades militares determinaram o emprego de tropas da 5ª RM/DE, com o apoio de
aviões da FAB e do Núcleo de Divisão Aeroterrestre.
O tenente de Infantaria Marco Antonio Savio Costa comandava o 1º Pelotão da 1ª
Companhia - sediada em Francisco Beltrão - do 1º Batalhão do 13º Regimento de
Infantaria, este sediado em Ponta Grossa. Recebendo a missão de localizar e prender o
bando armado, imediatamente reuniu seu pelotão, os claros de momento preenchidos com os
quadros que pôde encontrar. Numa viatura de 1/4 Ton do EB e num caminhão basculante
preto emprestado pela prefeitura de Francisco Beltrão, saiu o tenente em busca dos
"guerrilheiros".
Cerca das 1115h de 27 de março de 1965, na região de Santa Lúcia, município de
Capitão Leônidas Marques, Cardim ouviu a aproximação de uma viatura com tropas do
Exército. Imaginando que pudesse melhorar o já combalido moral de suas FALN, resolveu
realizar uma emboscada, dispondo seus homens em ambos os lados da estrada, logo após uma
curva. Postando-se fardado de coronel, com um impecável uniforme 4º A e com todas as
gemadas a que tinha direito, Cardim acenou para a tropa que se aproximava. Com isso,
provocou uma ligeira hesitação no tenente Savio Costa, o suficiente para o início da
emboscada, com tiros sobre a viatura. Desembarcando e reagindo violentamente, o pelotão
conseguiu equilibrar as ações e aferrou-se ao terreno.
Foi quando chegou um avião L-19 da FAB, pilotado pelo 1º Ten Av David Branco e que
conduzia um observador aéreo, o capitão Canrobert Lopes Costa, do 18º RI de Curitiba,
que, desde o fim da manhã do dia anterior, cumpria a missão de localizar o bando. Após
comunicar o que estava observando ao 2º Esquadrão de Controle e Alarme, 2º ECA, e dele
ter recebido a determinação de não intervir, o Cap Canrobert, em sucessivos vôos
rasantes do L-19, descarregou cinco carregadores de sua Mtr INA .45, sobre as árvores que
encobriam os "guerrilheiros". Apoiado pelo "fogo aéreo",
o pelotão, depois de também abrir cerrado fogo com suas três Mtr Madsen e fuzis, partiu
para o assalto contra o bando inimigo.
A coordenação de fogos e o assalto provocaram a fuga desabalada de 21
"guerrilheiros" que, embrenhando-se nas matas, só mais tarde seriam capturados,
através de operações de cerco desencadeadas pelos pára-quedistas. Três deles,
entretanto, foram presos no momento do combate: o coronel Jeffersom Cardim e os sargentos
Albery e Adamastor Bonilha.
Infelizmente, a ação dos tresloucados seguidores de Cardim fez uma vítima fatal. O 3º
Sargento Carlos Argemiro Camargo, que servia como burocrata na Companhia de Infantaria de
Francisco Beltrão e havia se apresentado voluntariamente para a missão, foi alvejado
várias vezes ao desembarcar da viatura, deixando viúva grávida de 7 meses.
Encerrava-se, tragicamente, mais uma aventura brizoleana.
Após cumprir pena, Jeffersom Cardim, em entrevista concedida a Décio de Freitas, em
março de 1980, na Assembléia Legislativa gaúcha, declarou que a "Operação Três
Passos" previa a entrada de Brizola no Brasil, a fim de catalisar e de detonar as
revoltas: "Acho que Brizola se acovardou, foi uma traição, porque em seu
apartamento na Praça da Independência, em Montevidéu, selamos um pacto. Ele não
cumpriu este compromisso, que era o de derramar o sangue pelo povo brasileiro".
Cardim veio a falecer em 29 de Janeiro de 1995, no Rio de Janeiro.
Em novembro de 1979, o "Coojornal" publicou uma entrevista concedida um ano
antes pelo ex-Sargento Albery, na qual declarou que o dinheiro para financiar a Operação
- um milhão de dólares - havia sido conseguido em Cuba e levado, até Brizola, por Darcy
Ribeiro e Paulo Schilling. Afirmou, também, sobre Brizola, que: "A traição dele
foi ter mandado iniciar o movimento e, depois, ter-se arrependido e não colocar o plano
em execução".
Pouco tempo depois da entrevista, em fevereiro de 1979, o ex-Sargento Albery foi
misteriosamente assassinado - em circunstâncias nunca bem explicadas - no oeste
paranaense.
Após mais esse malogro, Brizola afastou-se da FPL e, ainda no Uruguai, conduziria mais um
de seus incríveis exércitos para o fracasso.
F. Dumont |
TERRORISMO NUNCA
MAIS.RETORNAR  |
|
|