Ternuma-Bsb
INSEGURANÇA POR LIDERANÇA OMISSA
E SOCIEDADE SEM FIBRA
Ternuma Regional Brasília
General da Reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva
Foi comandante e é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do
Exército
A segurança pública deixou de ser um problema nacional. Problemas são desafios
que podem ser vencidos com recursos, estratégias e vontade política compatíveis
com situações de normalidade ou anormalidade que não ameacem o Estado e a Nação.
Hoje, o que ontem era apenas um problema transformou-se em ameaça visível na
falência do Estado e de suas instituições em áreas do território e amplos
setores da vida nacional. A neutralização de ameaças requer mobilização de
recursos extraordinários, novas e corajosas estratégias, firme propósito da
Nação de suportar sacrifícios e uma valorosa liderança.
O cenário desolador da segurança pública tem outras causas, mas muito a ver com
a omissão e o populismo de sucessivos governos da União e dos estados nas
últimas décadas, que abdicaram da autoridade e energia pelas quais deveriam
primar como delegados da Nação, e transformaram tolerância em leniência ao
adotarem conceitos distorcidos de direitos, deveres, justiça social, liberdades
individuais e direitos humanos, alinhando-se ao modismo do politicamente correto
– fachada da covardia moral. Mas não foi só isso! A crise de valores, que
enfraquece a sociedade e desmoraliza a liderança do País, também favoreceu a
expansão horizontal e vertical da criminalidade, hoje instalada em altos
escalões da República, órgãos de segurança e amplos segmentos da sociedade por
meio da corrupção, do amedrontamento e da impunidade.
Quando a violência explode em centros urbanos, o debate tende a valorizar o
combate ao braço armado da criminalidade, imagem visível da ameaça.
Manifesta-se, então, o anseio pelo emprego das Forças Armadas (FA) na segurança
pública, por desconhecimento de que não basta o reforço ao aparato repressivo
para neutralizar a criminalidade. A força da bandidagem aparece nas ações das
quadrilhas, mas seu centro de gravidade está em um nível acima do ocupado pelas
gangues, de onde vem o grosso dos recursos financeiros para manter seu poder de
fogo. Nesse nível superior ocorrem os crimes do colarinho branco, a lavagem de
dinheiro e a corrupção e estão organizações poderosas e pessoas influentes, bem
relacionadas e detentoras de posições de relevo, que a liderança nacional não
combate por omissão ou conivência. Há, ainda, um nível inferior onde está a
fonte dos recursos humanos incorporados às quadrilhas por pressão ou influência
da marginalidade, ao viverem em áreas por elas dominadas. Na realidade, são
vítimas do poder da criminalidade, da omissão e do abandono do Estado.
O combate ao nível superior exige vontade política e ações de inteligência e
repressão conduzidas pelo Ministério da Fazenda, Polícia Federal, GSI, Banco
Central e ministérios públicos. No nível inferior, são necessárias medidas
preventivas e de apoio social por órgãos e agências de governo ou particulares,
buscando a inclusão social e o afastamento das famílias do poder e influência da
bandidagem. O enfrentamento do braço armado requer operações de inteligência e
repressão pelos órgãos de segurança pública, que saneados, despolitizados e
modernizados dispensariam o emprego das FA.
É imprescindível uma estratégia de âmbito nacional, rigorosa e imune a pressões
ideológicas, utópicas e demagógicas, a ser conduzida por uma secretaria ligada
ao presidente da República, chefiada por um juiz federal do mais alto nível e
sem vinculação partidária. Estratégia apoiada numa lei específica de combate ao
crime organizado, que assegure amparo jurídico especial às investigações e às
operações e eficácia e rapidez à aplicação da justiça. A lei teria vigência
determinada, aplicação fiscalizada por instância superior e os delitos nela
enquadrados teriam processos jurídicos distintos dos de outros crimes. A
secretaria centralizaria as ações, quando necessário, tendo um
general-de-exército do Ministério da Defesa agregado ao seu mais alto escalão
decisório. Este último, contando com uma assessoria jurídica, coordenaria o
emprego das FA com os comandos militares de diferentes áreas, os quais
enquadrariam todos os órgãos estaduais e federais envolvidos, constituindo
pequenos grupos de operações e inteligência mistos. Operações com tropas seriam
eventuais e temporárias quando a situação extrapolasse a capacidade dos órgãos
estaduais.
O emprego das FA nesse conflito é uma grave decisão, que uma vez tomada não
admite insucesso, devendo-se ter consciência da violência dos confrontos. Sem
ações simultâneas nos três níveis mencionados e a lei especial anteriormente
abordada, bem como um choque de valores para reverter a decadência moral da
sociedade, o emprego das FA será uma medida inócua, que comprometerá sua
credibilidade, debilitará decisivamente o Estado e levará ao colapso a paz e a
coesão social.
A ameaça é real, evolui perigosamente e sua neutralização exige medidas
excepcionais, pois o desafio é reverter um conflito interno em que o Estado vai
sendo derrotado em diversas áreas do território nacional. Infelizmente, haverá
efeitos colaterais para a população, porém a continuação de medidas paliativas,
de estratégias equivocadas, da apatia da sociedade e da omissão da liderança
nacional poderá resultar na perda de relevância, autoridade e protagonismo do
Estado e, perigosamente, na descrença em seu modelo democrático de direito.
Lamentavelmente, ao avaliarmos a conduta da liderança nacional em questões de
ordem moral e ética, como nos escândalos em altos escalões da República, podemos
concluir que ela é incapaz de conduzir estratégias que exijam coragem e
independência ideológica para assumir responsabilidades, credibilidade para
mobilizar a Nação e patriotismo para colocar os interesses brasileiros acima dos
partidários e pessoais.
Recursos existem, mas faltam estratégias eficazes, vontade nacional e liderança
de valor, condições necessárias para vencer a ameaça.