"ASSASSINATO DE HENNING ALBERT
BOILESEN"
O industrial Henning Albert
Boilesen começou a morrer em janeiro de 1971.
Nessa época, Antônio André
Camargo Guerra ("Márcio", "Rafael", "Fernando",
"Homero", "Alexandre"), do comando do Movimento Revolucionário
Tiradentes (MRT), "cobriu um ponto" em Cascadura, na então Guanabara, com
Herbert Eustáquio de Carvalho, o "Daniel", da Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR), para tratar das próximas ações da "Frente", constituída por essas
duas organizações e mais a Ação Libertadora Nacional (ALN), o Movimento
Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário
(PCBR). Na ocasião, Herbert, a mando de Carlos Lamarca, entregou-lhe um bilhete com três
nomes: "Henning Boilessen", "Peri Igel" e "Sebastião Camargo
(Camargo Correia)". Segundo Herbert, Lamarca pedia ao MRT que levantasse os dados
dessas três pessoas a fim de futuros seqüestros ou justiçamentos.
Boilesen, um dinamarquês de 55
anos, havia sido, em sua juventude, lutador de box e jogador de futebol em Copenhague.
Formado em Administração de Empresas, veio para São Paulo em 1942, como contador da
Firestone, naturalizando-se brasileiro em 1959.
Ingressando na Ultragás, foi, pela
sua grande capacidade de trabalho, galgando postos, sucessivamente, até tornar-se o
presidente do Grupo Ultra, que englobava várias empresas ligadas à produção do gás
liqüefeito do petróleo.
Preocupado com os aspectos sociais
do trabalho, auxiliava diversas entidades e havia criado um Centro de Integração
Empresa-Escola, para a formação de mão-de-obra especializada. Entrosado com o meio
empresarial, possuía os títulos de "Cidadão Paulistano" e de "Homem de
Relações Públicas em 1964", além de quase uma dezena de medalhas e
condecorações, outorgadas por diversas entidades, entre as quais o Instituto Histórico
e Geográfico de São Paulo, a Sociedade Geográfica Brasileira e o Museu de História do
Rio de Janeiro.
Casado, com 3 filhos e 4 netos,
Boilesen disputava peladas de futebol nos fins de semana e era fanático torcedor do
Palmeiras. Gostava de samba e ficava horas a ouvir Chico Buarque, a quem considerava um
gênio. Apaixonado pelas artes plásticas, patrocinava exposições e privava da amizade
de inúmeros artistas que expunham na vizinha cidade de Embu.
Mas, para a VPR, ele era um
"espião da CIA" e patrocinador da Operação Bandeirante, a OBAN. No bilhete
passado por Herbert para Antônio André, Boilesen estava em primeiro lugar e assinalado
com um sinistro "X".
A partir da 2ª quinzena de janeiro
de 1971, iniciaram-se os levantamentos do industrial, dos quais participaram Devanir José
de Carvalho ("Henrique", "Justino", "Heitor"), Dimas
Antônio Casemiro ("Rei", "Celso", "Jaime",
"Serafim"), Gilberto Faria Lima ("Zorro", "Diego",
"Carlos", "Giba", "Sílvio") e José Dan de Carvalho
("Alcides"), pelo MRT, Carlos Eugênio Sarmento Coelho da Paz
("Clemente", "Guilherme"), pela ALN, e Gregório Mendonça
("Fumaça", "Leônidas", "Marcos") e Laerte Dorneles Meliga
("Flávio", "Sebastião"), pela VPR.
Nos levantamentos procedidos,
descobriu-se que Boilesen residia no Morumbi e que diariamente, às 0900 horas, antes de
ir para o trabalho, passava para ver um de seus filhos (que era cego) do primeiro
casamento, na Rua Estados Unidos, 1030. Nada descobriram, entretanto, sobre sua suposta
ligação com a OBAN.
A prisão de Laerte e Gregório,
respectivamente, em 02 e 04 de fevereiro, fez com que suspendessem a ação,
temporariamente, pois ambos haviam participado dos levantamentos. Passados alguns dias,
observando que o industrial não mudara seus hábitos e continuava a não possuir
segurança pessoal, concluíram que nada havia sido delatado pelos companheiros.
Numa reunião do comando do MRT,
realizada em 17 de fevereiro, Boilesen foi julgado e condenado à morte. Na pauta resumida
dessa reunião, apreendida dois meses depois, aparece um lacônico
"Justiçamento-CIA". Uma semana depois, em 23 de fevereiro, na pauta de uma nova
reunião do comando, aparecia, com a própria letra do Devanir: "Tarefa prioritária:
Sobre a pena de morte - apresentar proposta à frente". O MRT, para executar a
ação, precisava propô-la à "Frente". Boilesen ganhou mais alguns dias de
vida.
A morte de Devanir José de
Carvalho, o famigerado "Henrique", líder do MRT, baleado ao resistir à prisão
em 05 de abril, em vez de suspender, precipitou a ação. Dimas, o "Rei", e
Giberto, o "Zorro", entraram em contato com Carlos Eugênio, o
"Clemente", e José Milton Barbosa ("Castro"), da ALN, e pediram
auxílio para a execução, como vingança pela morte do "Henrique".
Entre os dias 09 e 13 de abril, o
"Comando Revolucionário Devanir José de Carvalho", criado especificamente para
a ação, realizou novos levantamentos sobre Boilesen. Dimas escreveu o panfleto que seria
jogado sobre a futura vítima, procurando "justificar" o assassinato.
Na manhã de 14 de abril, o Comando
Revolucionário montou o seu dispositivo. No carro da ação, um Volks, três militantes
da ALN: Antônio Sérgio de Matos ("Uns e Outros"), como motorista, Yuri Xavier
Pereira ("Joaozão"), com Fuzil Mauser 7 mm, e José Milton Barbosa, com
metralhadora INA. No carro de cobertura, outro Volks, três militantes do MRT: Dimas
Antônio Casemiro, como motorista, Joaquim Alencar de Seixas ("Roque",
"Felipe", "Velho"), com Winchester 44, e Gilberto Faria Lima, com
metralhadora INA. Haviam decidido que a ação seria executada em frente da casa dos
filhos de Boilesen, na Rua Estados Unidos, a fim de causar maior impacto na opinião
pública. Estacionaram os dois carros na Alameda Casa Branca e Yuri e José Milton
montaram guarda na esquina para esperar a sua saída. Subiriam nos carros e fechariam o do
industrial antes que ele desse a partida.
Entretanto, nesse dia, Boilesen
viajou a negócios para a Guanabara. Ganhou mais 24 horas de vida.
No dia seguinte, 15 de abril de
1971, novamente o Comando Revolucionário tomou posição. Dessa vez, pontual, Boilesen
saiu da casa de seus filhos, às 0910 horas. O planejamento, no entanto, não fora bem
feito. Ao entrarem na Estados Unidos, os terroristas observaram, surpresos, que o Ford
Gálaxie do industrial já virava à direita, tomando a Rua Peixoto Gomide. Após alguns
segundos de hesitação, decidiram agir assim mesmo e saíram em perseguição ao carro.
Para evitar uma feira livre, Boilesen entrou na Rua Professor Azevedo Amaral e pegou a
Barão de Capanema. Na esquina da Alameda Casa Branca, parou para entrar à esquerda.
Nesse momento, os dois carros emparelharam com o dele. Pela esquerda, Yuri, colocando o
fuzil para fora da janela, disparou um tiro que raspou a cabeça de Boilesen. Este saiu do
Gálaxie e tentou correr em direção contrária aos carros. Foi inútil. José Milton
descarregou a metralhadora em suas costas e Yuri desfechou-lhe mais três tiros de fuzil.
Cambaleando, Boilesen arrastou-se por mais alguns metros, indo cair na sarjeta, junto de
um outro Volkswagen. Aproximando-se, Yuri disparou mais um tiro, que arrancou-lhe a maior
parte da face esquerda. Joaquim e Gilberto jogaram os panfletos por cima do cadáver. Os
terrorista, subindo em seus carros, arrancaram em alta velocidade, fugindo pela Alameda
Casa Branca em direção à Avenida Paulista.
Mais tarde, num relatório escrito
por Yuri e apreendido pela polícia, pode-se ler: "Durante a fuga trocávamos olhares
de contentamento e satisfação.. Mais uma vitória da Revolução Brasileira".
O assassinato durara menos de dois
minutos. Os disparos haviam chamado a atenção de dezenas de populares que estavam na
feira livre. Vários carros e casas foram atingidos por tiros perdidos. Caídas, uma
senhora, atingida no ombro, e uma vendedora de maçãs, ferida na perna, aumentavam o
pânico das pessoas, que correram em direção à Peixoto Gomide.
Sobre o corpo de Boilesen, mutilado
com 19 tiros, os panfletos da ALN e do MRT, dirigidos "Ao Povo Brasileiro",
traziam a ameaça:
"Como ele, existem muitos outros e sabemos quem são. Todos terão o mesmo fim, não
importa quanto tempo demore; o que importa é que todos eles sentirão o peso da JUSTIÇA
REVOLUCIONÁRIA.
Olho por olho, dente por dente".
Os "senhores da vida e da
morte" superestimaram o próprio tempo.

Corpo de Boilensen
F. DUMONT
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