|
| |
Diversos
Portal
A Ditadura do Proletariado, segundo Marx - Carlos
I.S. Azambuja
http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=6549&language=pt
A Ditadura do Proletariado, segundo Marx
por Carlos I.S. Azambuja em 03 de maio de 2008
Resumo: O socialismo não é um modo de produção autônomo como o é o capitalismo,
e nem um Estado acabado. Então, o que é o socialismo?
© 2008 MidiaSemMascara.org
Como plagiador, Marx ultrapassa os limites da pura desonestidade. De Marat, se
apropria da frase “o proletariado nada tem a perder, exceto os seus grilhões”.
De Heine, “a religião é o ópio do povo”. De Louis Blanc, sacou a fórmula “de
cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”.
De Shapper, tirou a convocação “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”, e de
Blanqui, a expressão “ditadura do proletariado”. Até mesmo sua obra bem acabada
e vertiginosa, O Manifesto Comunista (1848, em parceria com Engels), é um plágio
vergonhoso de O Manifesto da Democracia, de Victor Considérant, escrito cinco
anos antes.
A opção da via democrática ao socialismo e o abandono do princípio da ditadura
do proletariado como expressão do poder político da classe operária é um debate
teórico que se desenrola, há anos, no Movimento Comunista Internacional, pois é
considerado aquilo que constitui a chave do marxismo-leninismo: a teoria de
Estado.
A fase, ou etapa, do Estado de todo o povo, conforme definição constante da
Constituição stalinista de 1936, ou do socialismo desenvolvido, segundo a
Constituição de 1977, apresenta formas inéditas de Estado, sem explicação e nem
fundamentação teórica desde a perspectiva da teoria marxista. Ou seja, significa
uma etapa a mais entre o capitalismo e o comunismo, introduzida pelos ideólogos
do Kremlin.
É sabido que Marx assinalou que “entre a sociedade capitalista e a sociedade
comunista existiria um período de transformação revolucionária da primeira na
segunda (...) Esse período de transformação do capitalismo em comunismo seria
denominado socialismo, ou primeira fase da sociedade comunista”.
A caracterização do socialismo como primeira fase da sociedade comunista é
fundamental para compreender seu alcance e limitações.
Ao assinalar que essa fase intermediária entre o capitalismo e o comunismo
levaria, ainda, “o sinete da velha sociedade”, Marx reconheceu que,
necessariamente, persistiriam elementos da velha sociedade capitalista em luta
com aqueles elementos que seriam expressão da nova sociedade: a comunista.
Persistiria existindo o direito burguês, que prosseguiria regendo o caráter da
distribuição da riqueza social: “a cada um segundo o seu trabalho”. Persistiria
a exploração do trabalho assalariado, a exploração da classe operária e a sua
força de trabalho.
O socialismo, ao eliminar a propriedade privada sobre os meios de produção,
terminaria, apenas, com uma das formas de exploração do homem pelo homem. Na
medida, porém, em que a força de trabalho continuasse sendo encarada como uma
mercadoria e o salário como o seu equivalente, o trabalho seria, ainda,
assalariado. Persistiriam as classes sociais e a luta de classes continuaria
sendo o motor da História. Persistiria o Estado como “expressão da dominação de
uma classe sobre as outras”. Haveria, porém, uma mudança fundamental no caráter
de classe e no tipo de Estado que possibilitaria a transformação revolucionária
da sociedade capitalista em comunista. Segundo Marx, “a esse período
corresponderia também um período político de transição, cujo Estado não poderia
ser outro senão a ditadura revolucionária do proletariado”, expressão tomada de
Louis Auguste Blanqui.
Karl Marx assinalou ainda que uma das finalidades da sua obra – “O Capital” –
foi a de “encontrar a lei econômica que regularia o movimento da sociedade
moderna” e que “ainda que uma sociedade haja encontrado o caminho da lei natural
com auxílio da qual se movimenta, jamais poderá ultrapassar e nem descartar, por
decreto, as fases naturais de seu desenvolvimento. Poderá, unicamente, encurtar
ou mitigar as dores do parto”.
Dentre as leis atribuídas a Marx, uma delas assinala que “a luta de classes
conduz necessariamente à ditadura do proletariado (...) e que essa mesma
ditadura nada mais é que o trânsito a uma sociedade sem classes”.
A questão fundamental em torno da ditadura do proletariado não é tanto a
necessidade de uma maior ou menor violência ou coerção sobre a burguesia
expropriada, nem do maior ou menor grau de liberdade ou democracia. A questão
central é definir se a revolução indolor, pacífica e democrática pregada por
Gramsci, significa e constitui somente uma mudança da classe que exerce a
dominação do Estado, ou se exige um novo tipo de Estado que tenha como objetivo
a absorção da sociedade política pela sociedade civil, a não separação entre
esta e o Estado, e o fim da divisão entre homens que governam e homens que
produzem, condições fundamentais para o desaparecimento do Estado e o trânsito à
sociedade comunista.
O socialismo não é, portanto, um modo de produção autônomo como o é o
capitalismo, e nem um Estado acabado. Então, o que é o socialismo?
O socialismo, no dizer de Marx, seria apenas um período político de transição e
de luta “entre os elementos que buscam restabelecer e perpetuar a velha
sociedade, que morre, e os elementos da nova sociedade, que nasce”. A tendência
ao avanço ou ao retrocesso estaria condicionada por múltiplos aspectos, dos
quais o Estado seria um dos fundamentais, uma vez que, para que essa sociedade
realmente cumprisse suas funções de sociedade de trânsito ao comunismo, o Estado
não poderia ser outro que não o da ditadura do proletariado.
Lênin, por sua vez, justificou esse período de transição – ditadura do
proletariado – e atribuiu a inevitabilidade de nele persistirem o direito
burguês e um poder coercitivo, ao fato de que, ao saírem da sociedade
capitalista, “os homens não estão ainda preparados para trabalhar para a
sociedade sem sujeição a nenhuma norma de direito, e porque, também, não existem
as premissas econômicas para essa mudança”. Todavia, por outro lado, assinalou
Lênin, “a organização comunista do trabalho social (...) baseia-se, e cada dia
mais se baseará, na disciplina consciente dos próprios trabalhadores (...) Essa
nova disciplina não cai do céu e não é conseguida apenas com boas intenções. Ela
surge exclusivamente das condições materiais da grande produção capitalista, e o
portador, o veículo dessas condições materiais, é uma classe histórica
determinada, criada, organizada, agrupada, instruída, educada e aguerrida pelo
grande capitalismo. Essa classe é o proletariado”.
Conclusão de tudo isso: no período de transição denominado socialismo – fase
inferior do comunismo – deveriam ocorrer uma série de condições que assegurassem
o desenvolvimento social à fase superior. Uma das condições é a de que o Estado
surgido da revolução deveria ser um Estado com capacidade de extinção. A
sociedade reorganizar-se-ia de forma tal que permitiria suprimir a divisão entre
governantes e governados visando estabelecer uma única condição: a de homens que
produzissem e, ao mesmo tempo, atendessem às funções de governo.
A forma organizativa que permitiria conjugar o Estado com a produção, teria por
base um Estado organizado sobre conselhos operários, organismos desde os quais a
classe produtora administraria os meios de produção e exerceria as funções de
Estado, deliberaria, decidiria e executaria. Os órgãos máximos de poder seriam
as assembléias de fábricas. Os delegados dos conselhos regionais e nacionais
seriam demissíveis em qualquer momento.
O aparato burocrático do Estado iria, assim, desaparecendo progressivamente. A
estrutura hierárquica das empresas e a administração pública desapareceriam
também, as tarefas administrativas seriam simplificadas ao máximo e iriam
perdendo seu caráter político.
A máxima democracia operária seria acompanhada da mais ampla liberdade de
pensamento, de reunião, de organização e de expressão. A justiça não seria um
aparato independente da população, na medida em que seria exercida através dos
próprios órgãos de poder. Os órgãos de repressão e coação seriam eliminados por
desnecessários.
A fusão do ensino técnico e superior com a produção permitiria a educação
permanente e ininterrupta dos produtores. Um novo tipo de vida criaria as
condições necessárias à emancipação da mulher da escravidão doméstica para
tornar efetiva sua igualdade ao homem, tanto em seu papel produtivo como na vida
social.
Agora comparemos tudo isso que Marx imaginou com aquilo que em seu nome foi
implantado na ex-União Soviética, demais Estados ditos socialistas do Leste
Europeu e que ainda persiste em Cuba.
Voltar ao topo
Carlos I. S. Azambuja é historiador.
|