Ternuma- Bsb
Home
A GUERRILHA DO ARAGUAIA
PRODUZIDO POR TERNUMA REGIONAL BRASÍLIA
INTRODUÇÃO
PRODUZIDO POR TERNUMA REGIONAL BRASÍLIA
As freqüentes reportagens sobre a
Guerrilha do Araguaia, de autoria de uma parcela da imprensa autodenominada de
investigativa, vêm alimentando ressentimentos e ódios represados que o passar de mais de
três décadas ainda não conjurou.
A abordagem do assunto, quase sempre
unilateral por falta de profundidade ou por facciosismo, privilegia uma esquerda
melindrada e revanchista, não contemplando as forças legais com a isenção que deveria
cercar a análise de um momento político importante da História recente do País. Por
outro lado, o silêncio que o Exército Brasileiro insiste em manter sobre o tema reforça
o peso do relato de vertente única e estimula a crença no assentimento de culpa por
acusações de desmandos e crueldades.
O Grupo Terrorismo Nunca Mais
(TERNUMA), com base nos princípios programáticos pelos quais existe e julgando-se apto a
discutir o assunto com objetividade, propõe apresentar a sua visão, de forma a
contribuir para o estabelecimento definitivo da verdade, apontando para o público leitor
as veleidades e paixões que turvam a realidade histórica.
Assim, o TERNUMA analisará a matéria
em três capítulos, enfocando a atuação dos contendores com base nas premissas
político-doutrinárias que nortearam as ações, comentando alguns desvios sobre o
conflito e concluirá no quarto capítulo com uma interpretação crítica.
Cabe ressaltar que todo o trabalho
baseou-se na pesquisa de documentos e publicações da Internet, em depoimentos e artigos
jornalísticos e na experiência pessoal de integrantes do Grupo, sem o apoio oficial ou
consentido das partes litigantes.
Os nomes e fatos relatados são de
domínio geral e, portanto, não se encontram protegidos por nenhuma legislação sobre
assuntos sigilosos, nem se restringem ao conhecimento exclusivo de personalidades ou
entidades públicas ou privadas.
![]()
CAPÍTULO I A Guerra Popular Prolongada do Partido Comunista do Brasil (PC do B)
Em 1956, o XX Congresso do Partido
Comunista da União Soviética (PCUS) traçou novos rumos para o movimento comunista
internacional, propondo a coexistência amistosa entre os blocos antagônicos da
guerra fria e pregando a transição pacífica - via eleitoral, principalmente
para a chegada ao socialismo. No Brasil, o Partido Comunista Brasileiro (PCB),
inteiramente alinhado à matriz soviética, resolveu também abrandar as formas de agir,
decisão tomada no seu V Congresso, em 1960, quando foram expulsos dos seus quadros
Maurício Grabois e João Amazonas, entre outros, que teimavam em postular a priorização
da luta armada. Os comunistas do Partidão, assim, passaram a adotar a defesa
da via democrática para a chegada ao poder e a conseqüente implantação da
ditadura do proletariado, dentro da concepção leninista de que a Democracia não
é mais do que uma tática descartável como todas as táticas.
Em 1962, enquanto o Brasil vivia a plenitude do exercício de
um regime político inteiramente democrático, o PC do B, surgido do cisma
ideológico do PCB, passou à defesa intransigente da tomada do poder pela
violência revolucionária, para a imposição de um governo popular e
revolucionário. A expressão violência não era mero instrumento de
retórica para caracterizar um eventual incremento no ardor da revolução, mas, sim, um
conceito doutrinário pelo qual não aceitavam nenhuma transição que não passasse pelo
caminho das armas, como ensinava Mao Tse-tung, maior ideólogo da revolução chinesa:
não é possível transformar o mundo a não ser com o fuzil. Dessa maneira,
rompido com o centro irradiador tradicional, o PC do B foi buscar na China o exemplo a
seguir, encontrando a fórmula da Guerra Popular Prolongada, pela qual
atuaria o Exército
Popular, a surgir da mobilização e organização das massas camponesas
e capaz de travar a
guerra regular e empreender batalhas decisivas. Para realizar toda essa
intrincada estratégia revolucionária, urgia um começo, logo imaginado com a tentativa
de organizar um movimento guerrilheiro, definido como: a forma principal de luta na fase inicial da guerra
popular, através da qual é que se poderá iniciar a ação armada contra os inimigos da
Nação e começar a estruturar as Forças Armadas Populares.
A formação de quadros do PC do B
para a constituição do emergente núcleo guerrilheiro teve origem com o envio à China, em 1964 e ainda durante o governo João Goulart,
do primeiro de um total de três grupos de militantes para treinamento na Academia Militar
de Pequim.
A área escolhida para a implantação
da guerrilha foi o Bico do Papagaio, no Estado de Tocantins, limitado, ao sul,
pelo paralelo que passa pelo município de Araguanã; pelo rio Araguaia, a oeste; e pelo
rio Tocantins, ao norte e leste. Genericamente chamado de Araguaia pelas partes
conflitantes, o palco de operações, forrado por exuberante floresta equatorial, reunia
excelentes condições para o esforço do PC do B na conquista do apoio da rarefeita população de cerca de
20 mil habitantes, em aproximados 7000 km2, historicamente esquecida
por todas as esferas governamentais e vítima de graves carências sócio-econômicas. Os
conflitos de terra e a pobreza eram motes valiosos para o trabalho de massas, assim como
qualquer paliativo que viesse trazer alívio aos efeitos das deploráveis condições
médico-sanitárias existentes.
Desde 1966 o PC do B passou a
infiltrar militantes para o Araguaia, os quais logo tentaram conquistar a simpatia dos
locais, por meio de alguma assistência social e de noções de organização
comunitária, tudo acompanhado de crescente proselitismo político. Enquanto isso, os
infiltrados passaram a familiarizar-se com o terreno hostil e apurar o adestramento
militar, com a prática de: tiro; sobrevivência, orientação e deslocamento em área de
selva; e técnicas de incursões armadas, fustigamentos e emboscadas. Os primeiros
elementos chegados à região eram eminentes membros do Partido e quadros com o curso de
capacitação militar realizado na China. Dentre os pioneiros citam-se: Osvaldo Orlando da
Costa, Maurício Grabois, Líbero Giancarlo Castiglia, Elza Monerat, Ângelo Arroyo, João
Amazonas, João Carlos Haas Sobrinho e Nélson Piauhy Dourado. Desses, não morreram na
luta João Amazonas, Elza Monerat e Ângelo Arroyo, que desertaram em fases diferentes do conflito.
As Forças Guerrilheiras do
Araguaia (FOGUERA) surgiam como o embrião de um movimento guerrilheiro com o qual o
PC do B pretendia a sua Guerra Popular Prolongada. Premente se tornava dar-lhes forma para
passar às operações de combate, sobretudo pela inevitável presença do oponente, ainda
em pleno processo de organização delas. Para esse mister debruçou-se a Comissão
Executiva do Partido, integrada por elementos do Comitê Central e única responsável
pelos contatos das Forças com o mundo exterior. Subordinada, então, à Comissão
Executiva estruturou-se a Comissão Militar (CM), encarregada de estabelecer, segundo
estritas diretrizes recebidas: a estratégia de atuação guerrilheira; o treinamento
militar dos destacamentos subordinados; e, entre outras, a atuação dos destacamentos
junto às massas. Finalmente, à CM enquadravam-se três Destacamentos, constituídos de
Grupos de sete elementos cada, assim nomeados: o A, com atuação na região
da Transamazônica; o B, atuante no vale do Gameleira; e o C, com
ações a sudoeste da serra das Andorinhas. Ao todo e até o final das operações o
efetivo das FOGUERA beirou os setenta integrantes.
A organização das Forças era
celular e obedecia a rigorosa compartimentação, com vistas à proteção do
sigilo das operações e a preservar a identidade dos componentes. Assim, apenas o
comandante o subcomandante de Destacamento conheciam as áreas de atuação de seus Grupos
e de outros Destacamentos, bem como somente os comandantes de Destacamentos conheciam os
locais de encontro com os integrantes da Comissão militar.
Pelo pretexto de não dispor de uma
estrutura administrativa que lhes permitisse isolar desertores, elementos
não-colaboradores ou militares eventualmente caídos prisioneiros ou feridos, as FOGUERA
constituíam os Tribunais Revolucionários para julgar e
justiçar indesejáveis. A esse poder supremo são creditadas as mortes de
Rosalino Cruz Souza, militante desertor, e dos moradores locais Osmar, Pedro
Mineiro e João Mateiro. A eliminação fria de inimigos foi
tacitamente admitida no chamado Relatório de Ângelo Arroyo (Editora Anita Garibaldi
1996), de autoria de um dos dirigentes da Comissão Militar, que assinalava como
erro de certa importância para a derrota no Araguaia: Não se ter justiçado determinados inimigos. É o
caso dos bate-paus como Pernambuco, Antônio e o irmão, e talvez os elementos que haviam
chegado de fora, suspeitos de pertencerem ao Exército. Tais
órgãos de justiça eram motivo de intensa propaganda, objetivando
desestimular delações e constituir elemento de pressão psicológica. Irracional e
vítima da racionalidade guerrilheira, a cadelinha Diana, mascote
do Destacamento A, foi justiçada a facadas, pelo militante Micheas Gomes de
Almeida, o Zezinho, acusada de denunciar a posição do Destacamento, por
deslocar-se, levada pelo instinto materno, do ponto onde se encontrassem os seus amigos
homens até o lugar onde estavam os seus filhotes, para, simplesmente, dar-lhes de mamar.
Quase
oito anos se passaram na tentativa do PC do B de formar um movimento guerrilheiro que
viesse empolgar as massas para a Guerra Popular Prolongada. O Relatório Arroyo exagerou e
muito no sucesso obtido junto à população, contabilizando o apoio de 90%
dela. Admite-se que, no máximo, cerca de 180 (cento e oitenta) habitantes locais,
direta ou indiretamente, tenham aderido como combatentes ou colaboradores.
Durante tempo considerável, as
FOGUERA ficaram isoladas do restante do País e sujeitas à sobrevivência pelos meios
próprios e pelo que pudessem amealhar na selva onde se embrenharam. A caça e a pesca,
apesar de abundantes, eram as únicas fontes de alimentos disponíveis. Por essa razão, o
prosaico jabuti tornou-se verdadeiro símbolo da sobrevivência, merecendo a folclórica
promessa da CM de eternizá-lo em estátua, quando viesse a vitória do
movimento. Essa desesperadora situação de 1973 e o total abandono a que foram
relegadas pelo Partido mereceram a crítica de Pedro Pomar, integrante do Comitê Central,
que em 1976 admitiu ter o Exército conseguido, na ofensiva final, em menos de três meses
dispersar os destacamentos guerrilheiros e até mesmo atingir e desmantelar a Comissão
Militar. Segundo ele, a direção do Partido nas cidades perdeu o contato com os camaradas
do sul do Pará, e não sabia
quantos deles sobreviveram ou se sobreviveram. Ainda segundo Pomar, por dois anos o Comitê Central e o Partido ficaram em
compasso de espera, confiando que alguma coisa ou informação desfizesse as dúvidas
sobre o destino dos camaradas que se encontravam no Araguaia e sobre o fim ou não da luta
guerrilheira.
A autocrítica é ainda mais ácida no
Relatório Arroyo que apontou, dentre os inúmeros erros da Comissão Militar, o pequeno
número de ações provocadas de moto próprio em dois anos de luta, o que ele constatou
pelo fato de que a imensa maioria das baixas decorreu do fator surpresa, em decorrência
do Exército ter mantido sempre a iniciativa das ações.
O PC do B também não dedicou nenhuma
atenção ao restante dos militantes de base, que até 1976 desconheciam o fracasso no
Araguaia e durante todo o tempo mantiveram-se iludidos pela propaganda ufanista provinda
da Rádio Tirana da Albânia.
O fanatismo, a cega devoção à
causa, e o entorpecimento de valores éticos e morais transformaram alguns integrantes das
FOGUERA em lendas vivas aos olhos de humildes moradores locais, que, crédulos, chegavam a
considerá-los verdadeiros totens e senhores da imortalidade, como Osvaldo Orlando da
Costa, o Osvaldão, e Dinalva Conceição Teixeira, a " Dina".
A saga dos combatentes das FOGUERA e os seus decantados heróis
não foram suficientes para levar a aventura a nenhum resultado prático, sobretudo pela
falta de efetivo apoio político externo, já que a China, fonte inspiradora inicial, já
buscava estabelecer relações diplomáticas com a ditadura fascista
brasileira. Curiosamente, hoje a esquerda brasileira, malgrado críticas do próprio
PC do B, dá ares de vitória ao movimento, ao qual rotula de guerrilheiro e,
por conseguinte, merecedor do amparo das leis da guerra, especialmente da Convenção de
Genebra. Desmemoriada por interesse, não considera que a violência revolucionária era
um princípio ilegal, de uma entidade clandestina, que não contemplava a Democracia como
um fim e nem mesmo como etapa política, e que transgredia o ordenamento jurídico de uma
Nação soberana e legalmente reconhecida no concerto das Nações. Tudo, em suma, denota
simplesmente o esforço em sacralizar um bando fora-da-lei, banalizando o crime em nome de
uma finada ideologia.
![]()
CAPÍTULO
II - As campanhas das Forças Legais
PRODUZIDO POR TERNUMA
REGIONAL BRASÍLIA
Desde 1969, os órgãos de
inteligência, particularmente os das Forças Armadas, possuíam indícios de atividades
do ilegal PC do B na região do Bico do Papagaio.
A
suspeita ensejou, em novembro de 1970, a realização de um exercício militar a
Operação Carajás -, manobra que coroava o ano de instrução e que se constituía em
excelente oportunidade de adestramento para os recrutas incorporados naquele mesmo ano,
dentro de um quadro tático de contra-guerrilha em ambiente de selva. A manobra também
envolveu efetivos das outras Forças Singulares, realizando-se com objetivo dissuasório e
de levantamento de informes. A iniciativa, todavia, não confirmou nenhuma evidência
sobre atividade guerrilheira, mas reforçou a necessidade de urgente ação governamental
na área considerada verdadeira terra-de-ninguém, por situar-se em confluência de três
Estados da União, sem precisa definição de responsabilidade para nenhum deles.
A presença do PC do B no Bico do
Papagaio ficou finalmente assinalada com a prisão, no Ceará, no início de 1972, do
casal Pedro Albuquerque Neto e Tereza Cristina Albuquerque, militantes evadidos do
Araguaia pelo fato de que Tereza engravidara e lhe fora determinado, pela Comissão
Militar das FOGUERA, realizar o aborto, no que se insubordinaram.
No início de abril de 1972, a região
recebeu equipes especializadas em inteligência, que da busca do conhecimento sobre a
atividade clandestina logo efetuaram as primeiras prisões, a saber: a 13 de abril, o
morador local Francisco Amaro Lins; a 14 de abril, Eduardo José Monteiro Teixeira, nas
proximidades de Araguatins, quando tentava incorporar-se ao movimento; a 15 de abril,
Rioco Kayano, em um hotel de Marabá, abandonada por Elza Monerat que fugiu na iminência
da prisão de ambas; e, a 18 de abril, uma das mais importantes prisões, a de José
Genoíno Neto.
Em 08 de maio de 1972, o Exército
sofreu as suas primeiras baixas, ao ter uma equipe de busca de informes emboscada por
elementos liderados por Osvaldão. Na refrega morreu um Cabo, Odílio Cruz
Rosa, e foi ferido um Sargento. O episódio marcou o surgimento da lenda em torno do
militante, que desafiou o Exército a ir resgatar no local da emboscada o corpo que ele,
de propósito, deixara insepulto como isca. O resgate, no entanto, foi
normalmente realizado, embora sem o apoio de guias mateiros, amedrontados com as bravatas
de Osvaldão.
Derrubado o sigilo de parte a parte, o
Exército retraiu a maioria das equipes de inteligência e passou a empregar tropa
convencional, enquadrada por um Destacamento formado por três Pelotões de Selva e cinco
Pelotões de Infantaria Motorizados (PELOTARES), além de efetivos de apoio,
particularmente da Aeronáutica. O Destacamento, na verdade, não realizou ações de
combate, limitando-se a operações de vigilância e à execução de Ações
Cívico-Sociais, estas para neutralizar qualquer apoio da população aos sediciosos.
Em vista dos resultados obtidos até
então, e consoante diretriz baixada pelo Estado-Maior do Exército, a partir de 18 de
setembro de 1972 executou-se nova manobra de adestramento de recrutas, por doze dias,
com cerca de 2500 (dois mil e
quinhentos) homens reunidos em cinco Batalhões de efetivos reduzidos, três
Companhias e cinco PELOTARES, e reforçados por elementos dos Fuzileiros Navais, frações
de Operações Especiais e da Aeronáutica.
As autoridades imaginaram que a
expressiva presença militar e a resultante demonstração de força estimulariam o PC do
B a abandonar a região. Ao contrário, a saída da tropa foi interpretada pela Comissão
Militar como mostra de fraqueza ou de impotência, o que estimulou a continuação da
aventura guerrilheira e atiçou a propaganda do PC do B, notadamente a veiculada pela
Rádio Tirana da Albânia.
Terminada a manobra, permaneceram na
área tropas da Polícia Militar de Goiás, historicamente estigmatizadas pela prática de
arbitrariedades e por um estreito alinhamento aos senhores da terra, resultando latente o
clima de tensão social, fato que motivou ainda mais a disposição dos comunistas ao
trabalho de massas.
Mantido o cenário, o Governo
convenceu-se do fracasso na tentativa de resolver o problema sem confronto. Assim, o
Exército planejou e conduziu nova operação de inteligência a Operação Sucuri
-, dessa feita com base em muito bem elaborada infiltração de agentes na região, todos
eles experimentados profissionais adaptados às rotinas e características da área, tudo
com o eficiente apoio do INCRA e SUCAM. Ao longo de mais de quatro meses, a operação foi
cercada de êxito e colheu preciosos resultados, graças a uma inédita manutenção do
sigilo, considerando-se o vulto dos recursos humanos empregados, o tempo decorrido e a
gama de estórias-coberturas desenvolvidas. O PC do B, por outro lado,
descurou-se da segurança, superestimando a solidez de sua presença e subestimando a
capacitação da inteligência militar. Além disso, a CM das FOGUERA demonstrou excesso
de confiança e inteiro desleixo no tratamento de informes, desprezando significativos
indícios sobre atividades de agentes militares.
Com os dados colhidos pela Operação
Sucuri, o Exército foi suprido de farto material acerca dos rebeldes, de seus contatos,
da rede de apoio, das direções gerais de concentração e homizio e, fundamentalmente,
da sua provável composição e poder de combate. Logo que reunido todo esse conhecimento,
e com a surpresa assegurada, procedeu-se ao cerco estratégico da área com o emprego das
Polícias Militares de Goiás e do Pará no bloqueio das estradas e caminhos de saída,
retirando completamente das FOGUERA qualquer apoio do mundo exterior e o contato com o
Partido. De pronto, os insurretos também foram privados da sua rede de apoio, pela
prisão e o isolamento de cerca de 160 (cento e sessenta) colaboradores ou suspeitos de
colaboração, logo evacuados com seus familiares para acampamentos sob o resguardo da
autoridade militar. Tais colaboradores, então conscientizados sobre a ilegalidade das
peripécias com que compactuavam, tiveram atendidas importantes necessidades básicas,
como a expedição de certidões, registros de identidade e titulação de terras, o que
neutralizou a doutrinação político-ideológica a que estiveram submetidos por longo
período. A privação da rede de apoio foi severo revés infligido às FOGUERA, uma vez
que se constituíam na mais importante base de informes
e na única fonte de suprimentos, como o simples e imprescindível sal de cozinha.
Concomitantemente, desencadeou-se o
emprego da tropa de combate, compostas por frações constituídas de profissionais
especializados em operações de selva, com o seguro apoio dos agentes da Operação
Sucuri transformados em guias, pela perfeita familiaridade com as trilhas e picadas que
tinham levantado no trabalho anterior. O efetivo empregado foi de 750
(setecentos e cinqüenta) , na maioria provindos da própria região amazônica e
perfeitamente adaptados ao ambiente operacional. A utilização de trajes
descaracterizados e de equipamento não convencional, bem como o uso de codinomes e a
ausência de insígnias de postos e graduações, aumentaram o conforto, a segurança e a
operacionalidade da tropa. O armamento era o de dotação para Unidades de selva, fato que
propiciava considerável poder de fogo e desequilibraria o combate em favor da tropa
legal. O planejamento de emprego considerava também o prolongamento das operações por
tempo indeterminado, o que indicou o revezamento do efetivo total entre três grupos de
250 (duzentos e cinqüenta) homens, resultando em preciosa recomposição no moral e
estado físico dos combatentes.
Iludidas com o modus
operandi do Exército nas etapas anteriores, pelo qual não recebeu engajamento
decisivo, as FOGUERA foram surpreendidas pela determinação com que a tropa lhes dava
combate e firmemente adentrava pela selva sob as difíceis condições impostas pelo
período chuvoso. A falta de apoio e a penúria dos meios de subsistência também lhes
limitavam o ânimo, a mobilidade e a capacidade de reação. Em tais circunstâncias, as
suas baixas naturalmente surgiriam pesadas, o que, sem dúvida, daria por encerrada a
suicida tentativa de preparo e desencadeamento de um movimento guerrilheiro. Tragicamente,
finava o delírio que embalava o sonho do PC do B de transformar o Brasil, pela violência
revolucionária, na sua ditadura do proletariado.
Se
o PC do B não quis ou não soube contar os seus mortos e desaparecidos, não é culpa das
Forças Legais.
Pelo
que registra a História, as Forças Armadas do Brasil nunca tiveram o hábito de esquecer
os seus, mesmo no desatino de um conflito provocado por essa insanidade política que lhe
resultou dois mortos e seis feridos.
![]()
PRODUZIDO POR TERNUMA
REGIONAL BRASÍLIA
A sociedade brasileira merece e
exige ser esclarecida sobre os fatos da Guerrilha do Araguaia.
É o argumento justo e irrefutável de
todos os que têm cobrado resposta a indagações sobre esse pesadelo político. Alguns na
busca honesta de realmente aclarar um passado nebuloso. Outros, infelizmente, na ânsia de
tingir de marrom uma parte da mídia ávida só por vender notícia. Outros ainda que, na abstinência do modismo
revolucionário, insistem em remoer ressentimentos pela derrota nos campos da luta armada
e das idéias.
Aos primeiros, dedicamos o esforço
sincero de preencher o vazio deixado pela palavra oficial, pois entendemos que Forças
Armadas cumpriram o papel que a lei lhes determinava, não havendo, portanto,
justificativa para a opção pelo silêncio. A eles os dois capítulos anteriores já
bastam para conformar uma opinião desapaixonada.
Aos
demais, impomo-nos a tarefa de prosseguir, com o fim de apontar distorções e denunciar
preconceitos. A mentira e a desavergonhada maquinação da notícia não raras vezes são
instrumentos de maus profissionais, renomados ou não, mais preocupados com o próprio
nome associado às denúncias do que propriamente com a veracidade e o
conteúdo do que denunciam.
Dessa
maneira, temos lido com freqüência primorosas reportagens, algumas
flagrantes ridicularias, que chegam ao disparate de dar crédito a sandices como a
exumação de uma cabeça humana, sangrando, após três meses de enterrada dentro de um saco. Da
mesma forma, alguns jornalistas expõem-se ao escárnio por dar crédito a
insuspeitos testemunhos, como o de um caboclo do Araguaia, que disse ter visto
um morador ficar pendurado
pelos testículos, que, ao final da tortura, tinham meio metro de comprimento.
A qualidade das provas apresentadas também beira o grotesco, como o
reconhecimento de sua ex-companheira Valquíria por
Zequinha o já citado matador da cadelinha Diana , pelo formato do crânio e pelos dentes, em restos
mortais desenterrados, após quase trinta anos de sepultados.
Uma ruidosa expedição, enviada ao
Araguaia às expensas do contribuinte, aliás, sobrevoou, exaustivamente, a Serra das
Andorinhas, em um helicóptero da FAB, guiada por um arrependido Coronel da
reserva e ex-piloto das Forças Legais, com o objetivo de localizar sepulturas
clandestinas na mata densa que recobre a região. O inevitável insucesso do mirabolante
intento os decepcionados expedicionários creditaram ao branco que turvou os
sentidos paranormais do militar. O histriônico episódio teve seu grand
finale no desembarque em Brasília dos briosos integrantes da Comissão de Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados, liderados pelo Deputado Luiz Eduardo Greenhalg, que,
pessoalmente, fazia questão de ser documentado pelas luzes da mídia conduzindo ossadas
humanas que trazia de humildes jazigos do Araguaia, associando-as espetaculosamente a
guerrilheiros. Toda essa pantomima ocorreu em outubro de 2001, e, até agora, os despojos
jazem esquecidos em alguma gaveta médico-legal. Estão à espera da mágica que os faça
adquirir identidade política ou da comiseração cristã de alguém desapaixonado que
lhes traga respeito, restituindo-os aos túmulos violados.
De algumas redações têm saído
verdadeiros cultores de mitos, que alçam o negro Osvaldão como o Zumbi da Guerra
Popular. Dão-lhe destaque até por ser presumido gerador de herdeiros sem paternidade,
nascidos de românticas incursões noturnas para serem depois afastados dos pais naturais
pelos cruéis militares. Delas também pontuou um açodado cronista político que se deu o
exagero de equiparar a vida de João Amazonas de Souza Pedroso ao resumo da história do
Brasil.
João Amazonas, fundador do PC do B e
um dos pais da aventura da Araguaia, dela desertou para deixar as FOGUERA entregues à
própria sorte. Anos depois - precisamente a 16 de maio de 1996, em depoimento à
justa Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados -, esgrimiu a
mentira, sem nenhum respeito à sua condição de homem provecto, ou a menor reverência
à memória política do País, declarando com desfaçatez:
As
greves foram proibidas. Os sindicatos interditados. Enfim, com o chamado Ato Institucional
n° 5, impôs-se um regime de terror contra o povo, isso sem falar nos planos terroristas
do Rio-Centro e das maquinações monstruosas do brigadeiro Burnier, denunciadas pelo
capitão Sérgio, conhecido como Macaco.
É nesse ambiente que surge o
Araguaia, organizado e dirigido na clandestinidade pelo Partido Comunista do Brasil.
Araguaia não era um movimento subversivo, como costuma dizer a repressão, não visava
implantar o socialismo no Brasil. Destinava-se a organizar a resistência armada contra a
ditadura, já que outras formas de luta não havia espaço para se concretizar nas
cidades.
O objetivo político da Guerrilha
do Araguaia estava expresso em um documento largamente distribuído entre a população do
sul do Pará, intitulado União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo. Esse era de fato
o objetivo da luta guerrilheira do Araguaia, um movimento intimamente ligado à
população camponesa pobre e sofrida da região.
A mentira
atropelou épocas e objetivos. Amazonas nem de leve se corou ao falar de um movimento com
berço programático em 1962, em plena vigência da normalidade
democrática, embevecendo os atentos comissários dos direitos humanos com alusões
a fatos políticos de uma ditadura
posterior ao início da tentativa de implantação da sua Guerra Popular Prolongada.
A União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo nada mais foi do que o nome
de fantasia das suas Foguera, já quando o movimento estava em seus estertores, assim
denominado em erudito panfleto totalmente fora da compreensão da gente simples e sem
instrução da área. Enlouquecido em sua impostura, Amazonas delirou, ao avaliar o
efetivo do Exército que seus comandados enfrentaram, citando a presença de vinte mil
soldados. Ora, esse número, se verdadeiro, representaria o mesmo que população nativa,
o que é um grande absurdo. Ademais, seria inimaginável para o Governo sustentar vinte
mil homens em operações, durante três anos, sem despertar nenhuma atenção da opinião
pública. Manter essa balela é lamentável, por representar uma ridícula estultice, que
ofende o bom senso do povo brasileiro.
![]()
CAPÍTULO IV Conclusões
PRODUZIDO POR TERNUMA
REGIONAL BRASÍLIA
A Guerrilha do Araguaia não passou de
uma aventura de um grupo verdadeiramente pequeno e residual, sejam quais forem os ângulos
por quais ela possa ser analisada.
Pelo enfoque político não passou do
desvario de um Partido ilegal e clandestino em engendrar a incoerência de uma guerra
popular sem apoio do povo, para impor-lhe o socialismo. Do ponto de vista militar, foi
ação de um bando quixotesco a infligir mais prejuízos a si mesmo, perdido na selva e no
emaranhado dos próprios erros. Nem os seus ideólogos resistiram a tanta bisonhice
político-militar, como está claro na acidez das críticas de Ângelo Arroyo e Pedro
Pomar, plenamente de domínio público. Aliás, o relatório de Arroyo é verdadeira
confissão coletiva de culpa por tantas mazelas.
Exigir autocrítica de João Amazonas
de Souza Pedroso é o mesmo que pedir a um ateu a contrição e o acolhimento de que a sua
vida foi um longo suceder-se de pecados capitais. Cobrar-lhe a responsabilidade penal e
moral, porém, deveria ser a obrigação da sociedade e das famílias que tiveram seus
filhos levados ao infortúnio por ele, que se esconde na mentira para encobrir vários
crimes, em que despontam o assassínio e a formação da quadrilha da qual desertou.
Eminentes guerrilheiros de redações
queixam-se de que as Forças Armadas teriam infringido as leis da guerra e a Convenção
de Genebra, assacando fantasiosos e lúgubres testemunhos de cuja idoneidade
já se tratou. Omitem, entretanto, que se tratava de reprimir um bando fora-da-lei, que se
conduzia por um procedimento que negava aos oponentes quaisquer sentidos éticos ou de
justiça que não viessem de seus tribunais revolucionários. Deixar
cadáveres insepultos e justiçar, como faziam os mitológicos
Osvaldão e companhia, certamente, não estão listados como comportamentos de combatentes
a merecer amparo por qualquer código legítimo. Ademais, argumentar com a falácia de que
combatiam uma ditadura militar é coonestar atividade criminosa, pois, à
época, aceitem ou não os senhores das redações, havia no Brasil um Governo legal. Usar
oposição criminosa como reação a um momento político é o cínico argumento dos que
consideram mero detalhe o fato de a sociedade brasileira nunca ter autorizado usar em seu
nome a violência revolucionária.
Finalmente, Sr João Amazonas de Souza
Pedroso, para pôr término a tanto mal e dar definitivo esclarecimento aos fatos, mostre
ao Brasil onde estão os jovens mortos e os desaparecidos que o seguiam em tantos
desatinos. Liberte-se, senhor da guerra popular, de todo o seu ódio, de tanta culpa e de
toda essa maldade.