O SEQÜESTRO DO EMBAIXADOR DA ALEMANHA
Desde o início de 1970, coerente com a sua intenção de
prosseguir com as atividades de propaganda armada, a Vanguarda Popular Revolucionária
(VPR), na então Guanabara, vinha realizando levantamentos para o seqüestro de alguns
diplomatas, dentre os quais os embaixadores dos Estados Unidos, do Japão, da Suécia e da
Alemanha, este último junto com a Frente de Libertação Nacional (FLN), de Joaquim Pires
Cerveira.
A prisão, em 18 de abril de 1970, de Maria do Carmo Brito
(Lia, Sara, Madalena, Madá), membro do
Comando Nacional, e a localização de seu aparelho na Avenida Visconde de
Albuquerque, na Gávea, proporcionaram aos órgãos de segurança a descoberta de um
minucioso planejamento para o seqüestro do embaixador alemão. Nele, apareciam as
primeiras letras dos codinomes dos principais participantes da ação, Juarez Guimarães
de Brito (Júlio, Juvenal), Maria do Carmo Brito, José Ronaldo
Tavares de Lira e Silva (Dias, Joaquim, Laurindo,
Nunes, Roberto Gordo, Gordo), Joaquim Pires Cerveira,
Roberto das Chagas e Silva (Caetano, Camilo, Claudio,
Edson, Lucio, Maciel, Tuca) e Alex Polari
de Alverga (Bartô, João, Rafael, Samuel,
Tomás, Virgulino). Desses seis, um fora morto (Juarez), três
estavam presos (Maria do Carmo, José Ronaldo e Joaquim Pires Cerveira) e somente dois
(Roberto das Chagas e Alex Polari) continuavam soltos e ainda não identificados.
Em maio, as prisões estavam abarrotadas de militantes da VPR. O
próprio Carlos Lamarca, internado nas matas do Vale da Ribeira, poderia cair
a qualquer momento. Era urgente desencadear uma operação de seqüestro que libertasse os
principais quadros estratégicos e que, ao mesmo tempo, alcançasse
repercussão internacional.
A nova Unidade de Combate Juarez Guimarães de Brito
(UC/JGB), criada em homenagem ao líder recentemente morto em combate, retomou os
planejamentos já realizados.
Os levantamentos para o seqüestro do embaixador dos EUA, dirigidos por
Alfredo Hélio Sirkis (Alberto, Camilo, Carlos,
Felipe, Gabriel, Manoel, Vitor), mostravam
uma segurança forte e atenta, motivada pelos dois seqüestros anteriores envolvendo
diplomatas norte-americanos, o do próprio embaixador, em setembro de 1969, e a fracassada
tentativa contra o cônsul em Porto Alegre, em abril de 1970.
Os levantamentos do embaixador da Suécia revelaram que seu veículo
fazia constantes mudanças de itinerário, tornando impossível a execução do
planejamento.
Decidindo-se pelo seqüestro do embaixador do Japão, a ação foi
sustada, no dia e no momento previsto, pela presença, inesperada e ocasional, de um
camburão da polícia.Resolveu-se, então, seqüestrar o embaixador alemão, de 61 anos,
Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben. O planejamento inicial, dirigido por Alex
Polari de Alverga, com a ajuda de Lúcia Maurício de Alverga (Mônica,
Stela, Adriana, Mirna), Vera Lúcia Thimóteo
(Marta, Lurdinha) e Júlio Cesar Câmara Covello Neto
(Frederico), mostrara que a ação poderia ser executada, com grandes chances
de sucesso.
Apesar dos planos já serem do conhecimento da polícia, a segurança
do embaixador era pequena, constituída por um carro com dois agentes. Além disso,
raciocinaram que os órgãos de segurança não estariam acreditando que fosse realizada a
ação, com o planejamento já conhecido. A VPR pensou corretamente.
Atualizaram o planejamento. Roubaram quatro carros - dois Volks (um
grená e um vermelho), uma pick-up Willys e um Opala azul, este de um médico,
quando chegava em sua residência, na Rua Jacinto, 68, no Méier. Desde maio, possuíam
uma casa de dois quartos para guardar o embaixador, na Rua Juvêncio de Menezes, nº 535,
em Cordovil, alugada para o casal Gerson Theodoro de Oliveira
(Aníbal, Fritz, Hans, Ivan,
Mateus, Ruivo) e Tereza Ângelo (Chica,
Helga, Luiza, Mariana, Miriam,
Solange, Telma). Em São Paulo, nos primeiros dias de junho, uma
reunião entre Carlos Lamarca, Joaquim Câmara Ferreira (Toledo,
Velho, Valter, Azevedo), da ALN, e Devanir José de
Carvalho (Henrique, Justino, Heitor), do Movimento
Revolucionário Tiradentes (MRT), havia estabelecido a lista dos 40 prisioneiros que
seriam trocados pelo embaixador. Como reforço, receberam 30 mil cruzeiros, uma
metralhadora INA, uma pistola .45 e dois militantes da ALN, José Milton Barbosa
(Sargento, Cláudio, Castro, Celio) e
Eduardo Collen Leite (Bacuri, Basílio), este, para comandar a
ação.
Às 19:40h de uma quinta-feira, 11 de junho de 1970, em pleno
desenrolar da Copa do Mundo de Futebol no México, Holleben saiu da embaixada, localizada
na Rua Presidente Carlos de Campos, nº 417, em Laranjeiras, em direção à sua
residência, na Rua Cândido Mendes, nº 784, em Santa Tereza. Sentado no banco de trás
de sua Mercedes preta, o embaixador tinha, como motorista, o funcionário Marinho Huttl e
o Agente da Polícia Federal (APF) Irlando de Souza Régis, sentado no banco da frente e
portando um revólver .38. Seguindo a Mercedes, como segurança, ia uma Variant gelo, com
os APF Luiz Antônio Sampaio, motorista, e José Banharo da Silva, com metralhadora INA.
Tendo ocupado o dispositivo da ação desde às 19:00h, o Comando
Juarez Guimarães de Brito executou o seqüestro às 19:55h, nas proximidades da
residência do embaixador, na confluência da Rua Cândido Mendes com a Ladeira do Fialho.
Ao aproximar-se o carro diplomático, Jesus Paredes Soto
(Mário, Tião, Reis, Roque,
Lu, Elmo) deu um sinal a José Maurício Gradel
(Jarbas, Adolfo, Tomás, Odete), que
avançou a pick-up Willys abalroando a Mercedes. Incontinenti, o
casal que namorava na Escadinha do Fialho, Sônia Eliane Lafoz
(Mariana, Clarice, Paula, Rita,
Olga, Bonnie) e José Milton Barbosa, este com metralhadora,
disparou suas armas contra a Variant da segurança, ferindo Luiz Antônio no abdome e na
coxa esquerda e Banharo, na cabeça.
Ao mesmo tempo, Eduardo Leite, à queima-roupa, disparou três tiros de
revólver .38 em Irlando de Souza Régis, matando-o com um tiro na cabeça (o APF estava a
um ano de sua aposentadoria; naquele dia, sua companheira estava internada em um hospital,
por ter extraído um rim).
Herbert Eustáquio de Carvalho (Daniel, David,
Olímpio, Marcelo, Tampinha, Isaac,
Isaías, Ezequiel, Geraldo), empunhando uma pistola
.45, arrancou o diplomata da Mercedes e o fez embarcar no Opala, dirigido por José
Roberto Gonçalves de Rezende (Ronaldo, Nelson,
Bigode, Flávio, Rodolfo, Eraldo).
Deixando no local a pick-up do abalroamento, três carros
fugiram em alta velocidade, em fila indiana: na frente, o Volks grená, dirigido por
Roberto das Chagas e Silva e transportando Sônia Eliane Lafoz e Alex Polari de Alverga;
no meio, o Opala, com José Roberto, Eduardo Leite, Herbert e o embaixador; e atrás,
cerrando a fila, o Volks vermelho dirigido por Gradel e levando José Milton e Jesus
Paredes Soto.
Executado por nove terroristas, o seqüestro durou menos de quatro
minutos e deixou um morto e dois feridos; espalhados pelo chão, alguns panfletos
assinados pela VPR e pela ALN - um Esclarecimento e um manifesto Ao Povo
Brasileiro.
Subindo pela Cândido Mendes, Herbert colocou algodão embebido em
éter no nariz de Holleben. No outro lado de Santa Tereza, na altura do nº 200 da Rua
Professor Olinto de Oliveira, foi realizado o transbordo para uma Kombi verde-claro, onde
estavam aguardando Gerson Theodoro de Oliveira, Maurício Guilherme da Silveira
(Honório, Bené) e Alfredo Hélio Sirkis, para servir como
intérprete. Saiu a Kombi dirigida por Maurício: na frente, Gerson e o
Bacuri, e, atrás, Sirkis e o embaixador, colocado dentro de uma pequena caixa
de madeira. Os dois Volks e o Opala foram, logo depois, abandonados por seus ocupantes.
Cerca das 21:00h, depois de dar uma raspada num ônibus, chegaram no
aparelho de Cordovil, onde aguardavam Manoel Henrique Ferreira
(Anderson, Bernardo, Marco Antônio,
Diogo) e Tereza Ângelo. O caixote foi desembarcado e Holleben colocado num
dos quartos. Nessa madrugada, Bacuri datilografava o Comunicado nº
1, no qual fazia diversas exigências às autoridades, dentre as quais a
libertação de 40 presos e a divulgação, pela Rádio Nacional, de comunicados
entre as regionais da organização. Ao mesmo tempo, Maurício deixava a Kombi num
determinado local, para ser apanhada posteriormente, a fim de levar de volta o embaixador.
Durante os cinco dias que durou o seqüestro, diversas mensagens foram
trocadas entre os governos brasileiro e alemão. Seis comunicados do Comando Juarez
Guimarães de Brito foram enviados às autoridades: Tereza os levava a Alex que,
depois de colocá-los em três locais (sempre em três vias), avisava aos rádios e aos
jornais para apanhá-los. Diversos comunicados internos foram trocados entre o
comando da operação e a VPR em São Paulo, através da Rádio Nacional. Em código, eles
transmitiam dados e instruções.
Nesses cinco dias de cativeiro, foram tranqüilas as relações entre
Holleben e os cinco terroristas, sempre escondidos por capuzes. A comunicação era feita
por Sirkis que, em inglês, procurava fazer o seu proselitismo, dizendo, entre outras
coisas, que estavam tentando libertar seus companheiros, torturados nas prisões.
No domingo, os comunistas ouviram o jogo em que o Brasil venceu o Peru
por 4x2. Muitos deles torceram contra a equipe de Pelé, que representava, segundo eles,
uma ditadura que tinha que ser derrotada.
Na segunda-feira, dia 15, Bacuri seguiu para São Paulo,
deixando Gerson Theodoro no comando da operação. Nessa mesma noite, os 40 banidos
chegavam na Argélia, em avião da VARIG.
Dos 40 banidos, 20 eram militantes da VPR: Almir Dutton Ferreira,
Altair Luchesi Campos, Carlos Minc Baumfeld, Darcy Rodrigues, Dulce de Souza Maia, Edmauro
Göpfert, Eudaldo Gomes da Silva, Flávio Roberto de Souza, Ieda dos Reis Chaves, José
Araújo de Nóbrega, José Lavecchia, José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, Ladislas
Dowbor, Liszt Benjamin Vieira, Maria do Carmo Brito, Melcides Porcino da Costa, Oswaldo
Antônio dos Santos, Oswaldo Soares, Pedro Lobo de Oliveira e Tercina Dias de Oliveira.
Os outros 20 pertenciam a outras organizações comunistas: Aderval
Alves Coqueiro, Ângelo Pezzuti da Silva, Apolônio de Carvalho, Carlos Eduardo Fayal de
Lira, Carlos Eduardo Pires Fleury, Cid de Queiroz Benjamim, Daniel Aarão Reis, Domingos
Fernandes, Fausto Machado Freire, Fernando Paulo Nagle Gabeira, Jeová Assis Gomes,
Joaquim Pires Cerveira, Jorge Raimundo Nahas, Marco Antônio Azevedo Meyer, Maria José
Carvalho Nahas, Maurício Vieira Paiva, Murilo Pinto da Silva, Ronaldo Dutra Machado,
Tânia Rodrigues Fernandes e Vera Sílvia Araújo Magalhães.
Aos cuidados de Tercina Dias de Oliveira, seguiram quatro menores:
Samuel Dias de Oliveira, Luiz Carlos Marques do Nascimento, Zuleide Aparecida do
Nascimento e Ernesto Carlos do Nascimento.Só faltava, agora, soltar o embaixador. O
problema é que, ao buscar a Kombi, Maurício não mais a encontrara. Deixada num local de
estacionamento proibido, ela fora rebocada pelo Detran.
Durante todo o dia seguinte, 16 de junho, os militantes buscaram uma
saída para o problema, chegando, inclusive, a aventar a hipótese de levá-lo de
ônibus.Às 22:00h, chegou a solução, na forma de um carro trazido por José Roberto
Gonçalves de Rezende e Roberto das Chagas e Silva. Numa primeira leva, Sirkis e Manoel
foram deixados no Méier. Na segunda, sairam Gerson, Tereza e o embaixador, largado às
23:00h na Tijuca, próximo da Rua Barão de Mesquita.
Reconhecido por um popular, foi levado até à embaixada, portando, no
bolso do casaco, um documento relatando torturas, que se dispusera, prazeirosamente, a
divulgar na Europa. O seqüestro foi realizado por duas organizações
comunistas - a VPR e a ALN - e teve a participação de 19 militantes, dentre os que
decidiram, os que planejaram, os que executaram a ação e os que a apoiaram. Foi o 3º
seqüestro executado com sucesso, conseguindo a libertação de 40 presos.
O inusitado, entretanto, foi a cooptação de mais um simpatizante.
Nos seus depoimentos às autoridades, o embaixador Holleben nada falou sobre
os documentos que portava e nem sobre suas conversas em inglês com Sirkis, o que poderia
tê-lo identificado.
A esquerda terrorista brasileira, paradoxalmente, ganhara mais um
aliado de ocasião.
F. Dumont |